Friday, March 10, 2006

Pétalas escorridas


Suas pétalas caem como lágrimas, deixando sua luz para trás, embaçando o brilho no seu olhar. Sua angústia, maior do que a suportável. Ela corre. Busca por um lugar onde consiga se sentir longe de toda a desgraça que parece ter se instalado em sua vida e onde possa finalmente descansar em paz. Mas seus pés não agüentam muito, são frágeis demais. Com o rosto no chão, ela suspira e chora. O som do rio que corre ao lado e a vegetação da mata fechada sinalizam que está só, embora isso não signifique que agora esteja segura. Sua própria presença já é o suficiente para que faça mal a si mesma. Os olhos fechados transportando-a para os lugares dos quais mais se arrepende ter ido, as palavras que um dia ouviu e tanto acreditou, mas hoje já não são nada além de poeira memorial. O vento. Parece um amigo, mas, quem é que sabe? Os sentidos já não podem ser considerados amigos fiéis faz tempo.
Resolve banhar-se no rio, a água como refúgio. Uma fuga, que não a protege de seus pensamentos e torturas. Um ruído estranho agita sua mente, que mantinha seu corpo em total inércia. Folhas se mexendo, nada mais. Talvez de um caminho secreto, ou de uma caverna no meio do nada surja algo que pareça estranho e ao mesmo tempo mágico. Uma aventura capaz de levar a mente a um lugar bem longe, no qual ela possa se esquecer da beleza que perdeu dentro de si. Soa muito bonito, mas um tanto improvável. Ela se deita e cai no sono.
De olhos fechados ela ouve um som incomum, que tenta reconhecer inutilmente. Abre os olhos, com a vista ainda levando alguns segundos para se ajustar – é noite.Luzes pequeninas zunindo ao seu redor... parecem tentar chamar a sua atenção. Estariam elas tentando se comunicar? Depois de alguns momentos as pequenas luzes seguem em seu movimento giratório, seguindo um caminho um tanto quanto estranho. A bela moça desiludida resolve segui-las. Mas... para onde elas a levarão? A moça se levanta e corre atrás, pela mata negra que, ao menos para mim, parece assustadora.

Saturday, February 25, 2006

Um pouquinho de paz

... na verdade agora eu quero a paz, sim. Quero um tempo. Um momento sem nada. Esquecer de toda a bagunça da nossa sociedade desesperada por buscas que não nos levam realmente a lugar algum e ir de encontro com quem eu sou. Prestar mais atenção, ouvir bem; escutar. Olhar, enxergar mais. Nada desse papo de turista genérico que passa pela própria vida tentando fazer tudo ao mesmo tempo e não conhecendo coisa alguma na realidade. Dez minutos para cada atração já não me parecem ser o suficiente.
Lá fora, muita festa. As pessoas se encontram, confraternizam. Eu no momento quero apenas ficar aqui, quieto. Não preciso nem mesmo me mover para satisfazer esse desejo - que hoje mais se parece com uma necessidade.
Preciso entender qual é o som do silêncio. Assim poderei entender melhor quem eu sou - já que estamos em constante transformação e adaptação isso me parece ser algo a que deveríamos dar mais importância.

Andando

Ando, ando e ando. Sempre ando, mesmo que às vezes não me desloque. Parece que de nada adianta todo o esforço que se faz, nada acontece. Minha impaciência me aborrece e eu explodo a cada passo. Poderia ser diferente, sim. Eu poderia ser mais tolerante. Mas os rumos que as situações tomam poderiam ser mais parecidos com o que eu procuro também. Por que eu deveria me ajustar? Não é a insatisfação que faz com que o homem busque por algo melhor, sua evolução ao longo dos anos tão incessantemente estudada por pessoas que não tem nada melhor para fazer?
Pois é, nada de paciência.
Eu poderia meditar. Bem que eu gostaria, se ao menos eu conseguisse me concentrar...
Meus pensamentos, em diferentes pontos e ao mesmo tempo, não me deixam em paz - e também não sei se a paz é tão perfeita assim.
Continuo andando. É o melhor que eu tenho a fazer. Até encontrar um bar e pedir uma cerveja.

Friday, February 24, 2006

Como desaparecer completamente

Aonde foi tudo aquilo que eu enxergava com estes mesmos olhos, já tão cansados das mesmas coisas? A minha vontade de encarar as coisas, a minha paciência - que nunca foi uma virtude anyway- ? No escuro, tudo no escuro. Só vejo as cinzas. E não penso mais em procurar, simpesmente não achei e pronto. Nenhuma chama, nehuma palha a ser movida. Não mais. Um drink, para brindar este momento mágico. O momento em que me esqueço de tudo, ou ao menos tento não pensar. Um vazio, que me leva para outro lugar. Menos vazio que essa vida. Um sopro. Me deixo levar, largando tudo para trás. Estou pronto para me libertar. Não sou mais eu, agora eu já não sou mais nada. Talvez os pensamentos voltem a me perturbar - óbvio -, mas por hora eu viajo. E me concentro nas estrelas que tentam se esconder com as folhas das árvores no jardim. Faz frio, mas estou melhor aqui. E daqui não pretendo sair.

Wednesday, January 04, 2006

Perdido - mais que você?

parte 1

Olho para ambos os lados da rua. Ninguém. Tudo deserto, nenhum assobio, nenhum pássaro cantando, nenhum bêbado balbuciando asneiras. A dor me atinge em cheio, com a minha cabeça reclamando de tanta bagunça feita nos últimos dias. Sim, eu bebi demais. Mais do que quando eu achava que meus problemas não poderiam piorar mais e que a minha carreira e o meu casamento pareciam ter chegado ao fim. Agora enxergo com clareza que aquele definitivamente ainda não era o tal do fim melancólico e dramático que eu havia planejado para a minha triste vida – sim, porque se eu não me fizer de coitado, quem fará?
Minhas roupas sujas, molhadas e fedendo. Por onde será que eu andei? Talvez seja melhor nem mesmo descobrir.. da última vez não deu muito certo. Peraí... que lugar é esse? Que rua é essa? Ando, ando e ando. Mas a rua parece que não acaba. O que? Não, eu apenas estou buscando o nome da rua na próxima esquina. Não estou fugindo de você. Ih, relaxa, que eu já estou com problemas demais por aqui.Bom, parece que é aqui a esquina mais próxima. E o nome da rua é... ué, cadê o nome da rua?! Só me faltava essa. Agora os vândalos resolvem destruir o patrimônio público logo na hora e local em que eu pretendo finalmente usufruir dele. Que ótimo.

Tuesday, January 03, 2006

Muito bom pra caramba mesmo

Interessante ver que, enquanto muito se fala que não se fazem bons filmes, podemos ver filmes muito bons em cartaz, mesmo que para isso seja preciso peneirar um pouco e até mesmo arriscar de-vez-em-quando-quase-sempre. King Kong? Berg, nada de muito relevante, a não ser que você ealmente queira dar muito valor para o fato de que no roteiro original houvesse o lance do Tore Kong dando uns sopapos nos Tiranossauros Rexsssss...
Ta certo que Primavera para Hitler não é um filme recente, apenas o seu remake, Os Produtores, mas está de volta no grande circuito e garante mais de uma hora de bom cinema e gargalhadas raramente vistas hoje em dia.
Mas, o prato principal aqui é bem outro - beeeeeem outro mesmo. Estou aqui para dizer que Beijos e Tiros, cujo livro que inspirou o filme eu estou louco para adquirir, assim como todos os outros do mesmo autor. Para começar, o filme se baseia em um narrador, que é o personagem principal explicando tudo o que acontece enquanto você vê o filme na tela. E, uma coisa que sempre dá certo, ele faz o herói que sempre se ferra. Só esses dois fatores já são de grande peso. Agora somemos aos dois anteriores o fato de ser um filme bastante inteligente, com piadas e humor sagaz, suspense, intrigas e mulheres lindas - sim, de morrer; principalmente a mocinha, que em alguns ângulos você jura ser a própria Liv Lyler, só que MAIS BONITA... ah, vale lembrar que ela fica apenas de calcinha em uma das cenas...
Enfim, um filme daqueles que você fica muito feliz de estar assistindo e não se aguenta de querer comentar tudo que acontece. Um filme excelente com sacadas geniais a todo instante. Esse vai pra prateleira...

Sunday, December 25, 2005

uma música linda - mas tem que escutar...

Wherever I May Roam
Metallica
Composição: Hetfield e Ulrich

Wherever I May Roam

...(And the road becomes my bride)
And the road becomes my bride
I'm stripped of all but pride
so in her I do confide
and she keeps me satisfied
gives me all I need

...and with dust in throat I crave
only knowledge will I save
to this game you stay a slave

rover wanderer
nomad vagabond
call me what you will

but I'll take my time anywhere
i'm free to speak my mind anywhere
redefine anywhere
anywhere I roam
where I lay my head is home

...and the earth becomes my throne
and the earth becomes my throne
I adapt to the unknown
under wandering stars I've grown
by myself but not alone
I ask no one

...and my ties are severed clean
the less I have the more I gain
off the beaten path I reign

carved upon my stone
my body lie, but still I roam
wherever I may roam

Monday, December 19, 2005

Entrando no castelo

Andando com ela eu percebo suas fraquezas, seus traços humanos. Seu medo de se atirar de cabeça mais uma vez em um abismo e quebrar a cabeça de uma vez por todas. Ela é meiga e aos poucos vai soltando suas correntes, que deixam descer os portões da sua privacidade e eu finalmente posso entrar. Toca uma música. Um piano de Scott Joplin, daqueles que nos fazem felizes mesmo quando não temos realmente um motivo. E eu vou me adentrando em seus aposentos, por tanto tempo fechados que já chegam a acumular pó. Na verdade não faz tanto tempo, mas foi um tempo em que o distanciamento se posicionou de forma determinante em sua vida; ao menos até agora.
Ali está ela, preparando um chá para nós dois. Tomamos o chá e relaxamos. Olhar para o céu cheio de estrelas, esparramados neste sofá gigantesco se faz um programa mais do que suficiente para o que buscávamos. E batemos um papo. A conversa dura horas, até o momento em que o telefone toca e ela se levanta para atender. Um choro. Ela desliga o telefone e volta, evitando me olhar nos olhos.
Tento chamar a sua atenção, fazendo meus truques ilusórios, estourando pequenos fogos de artifício que parecem sair de minhas mãos, o que surte um efeito inspirador no humor da doce menina. Sua infância se manifesta em seu sorriso. Um sorriso de quem pede por um pouco de paz em meio a um momento de extrema turbulência emocional.
Ela enxuga as lágrimas e me abraça com força. Um beijo longo. Uma noite em segurança.

Wednesday, November 23, 2005

A busca - agonia

Sinto-me sujo. Bloqueado pelas portas que eu mesmo construí. Não, não foi culpa minha. Sim, foi minha culpa. Agonia, desespero. A pele que cobre o meu corpo eu arranco, rasgo-a. E jogo ao relento. Medito, mas não nasce outra no lugar da antiga. Impaciência. Olho pro céu, dividido entre dias e noite, como uma zebra. Não existe tempo, mas eu perco o meu com o presente. Um passo que eu preciso dar, mas não aceito ainda não ter dado. Minha vista se aperfeiçoa e o que vejo não me agrada. Quero distância. Mas como posso querer distância do que eu sou? Onde poderia eu me situar, então? Um banho frio, talvez. Uma garrafa de vinho, quem sabe. Uma noite de sono, onde eu conseguisse enxergar o que eu tanto busco mas ainda não sei o que é, melhor ainda. Mas não posso me deitar. Não ainda. E continuo não gostando do que vejo. Fecho os olhos e tento caminhar. Mas atento.

Tuesday, November 22, 2005

Recados

"Oi, você ligou para o Guilherme. No momento eu não posso atender.. na verdade não estou afim mesmo. Deixe o seu recado após o sinal. Não, não pense que eu vou te ligar. Mas você pode deixar a sua mensagem assim mesmo. Assim você desabafa, põe pra fora seus problemas e acaba economizando com o psiquiatra. Mas deixe o seu número também, para que eu possa fazer o mesmo quando precisar. Caso você tenha se assustado, tente se acalmar. As pessoas fazem isso o tempo todo - se assustar também, mas não é a isso que me refiro -, só que de forma mais discreta e "educada"; disfarçada. Bom, tenho que ir. A panela está no fogo, tenho que pegar as crianças no colégio, o bombeiro precisa entrar aqui pra consertar o vazamento, o gerente do banco está na chamada em espera, minha mãe está precisando de mim no hospital, está começando Friends agora no canal 1619, meu cachorro está latindo sem parar... píiiiiii!!!"

Monday, November 21, 2005

Música da banda HEREGES

Balada Triste (Fábio Costello E Marcelo De Vasconcellos)

Quem se sente só
E seus caminhos deram um nó
Já desistiu de se explicar
Se prende outra vez
Arrepender-se do que fez
É aprender a não errar

Seus pais queriam alguém pra se orgulhar
E mergulhou por não ter medo de água fria
Na piscina dos seus sonhos que estava
Já vazia

Espera na porta alguém para confessar
Sussurra em línguas mortas sem perceber
Ninguém se importa, ninguém quer ver

Já nem sente dor
Já definiu o que é o amor
Por quem partiu pra não voltar
Já nem finge rir
Já decidiu pelo rancor
Por todo aquele que chegar

Desviou de repente o olhar
No seu céu estrelas decadentes
No horizonte acena o sol dos seus anseios no poente
No poente

Espera na porta alguém para confessar
Sussurra em línguas mortas sem perceber
Ninguém se importa, ninguém quer ver
Ninguém se importa, ninguém quer ver
Ninguém se importa, ninguém quer ver
---------------------------------------------

Esta belíssima música está disponível no site da banda www.hereges.com.br , onde também há uma agenda sempre atualizada dos shows da banda. Eu classificaria a banda como "urgente", que é um adjetivo que deveríamos adotar para mais usos que o habitual.

Thursday, November 17, 2005

Estátuas coloridas – bonitas, mas ordinárias

Inércia, inércia e... inércia! É só o que consigo enxergar para todo ponto em que minha vista se foca. E isso causa um desespero tremendo, porque homem tem a teimosia de afirmar que as pessoas bem sucedidas são aquelas que foram abençoadas pela sorte. Isso não passa de um equívoco basicamente infantil. Nossos atos ecoam pela eternidade, já dizia o sábio, e nós não podemos ignorar isso; está na nossa cara! Vidas vazias são fruto disso também. A preguiça ou a idéia de que a própria vida é sem graça, aliadas a aceitação de que isso seria um karma ou programação do destino – ou, pior ainda, parte dos planos de um ser superior – fazem com que as pessoas, não necessariamente todas, mas em sua maioria, estejam constantemente esperando que algo venha a acontecer em suas vida; mas elas não fazem nada para ajudar! Ficar de braços cruzados ou tomando anti-depressivos não melhora nada, e quem o faz já percebeu. Bom, não quero continuar aqui. Vou tomar meu banho e sair, abrir os braços e receber o que o mundo tem para nos oferecer! Sintam-se convidados.

Tuesday, November 15, 2005

Um friozinho

Frio. Neve e gelo. Tudo branco ao infinito.
"Tem alguém aíiiiiiii...???" Olha prum lado, olha pro outro... e nada.

Zzzzzzzzzzzzzzzzz...







Congela e morre.

Monday, November 07, 2005

Luz, câmera... contemplação

Movimento. Cenas passam pelos meus olhos enquanto caminho à noite, pelas ruas da cidade sonâmbula. Imagens, cenas oníricas, enquanto vejo os carros dos outros sonhadores seguindo seus rumos ao desconhecido. Entro em um estabelecimento e procuro algo do meu interesse, quando na verdade o que me interessa está mais a frente, não posso adquirir agora ou pagar em dinheiro. As divagações nesse momento se fazem necessárias, são elas as responsáveis pelos próximos passos, pelo curso que pretenderei seguir – mesmo que eu venha a mudar de idéia e seguir outro completamente diferente deste depois.
Folheio livros, tomo um café. Pessoas ao meu redor interagindo umas com as outras e eu no meu silêncio. Um silêncio que é a na verdade tudo que eu mais precisava no presente momento, algo que eu pedia faz tempo – nem tanto assim, ontem tive esse silêncio também; mas é fato que cada vez eu preciso mais dele para me sentir em casa, confortável comigo mesmo. Faço projeções, reflexões, pondero. Entendo melhor o que me atinge no momento e consigo associar tudo. Nada se mostra de fora, excluído do sistema. Saio, pago a conta e caminho em direção ao carro, com aquele desejo por um papel e uma caneta. Desenvolver meus pensamentos na forma escrita me relaxam. Algo que é necessário para a manutenção da minha tranqüilidade, que na verdade nunca chega. Sou hiper-ativo-demais para isso. Às vezes percebo minha vida como um filme em que sou o diretor, o produtor e o protagonista, travando uma batalha constante contra quem investiu em mim e as inconstâncias da realidade prática – sempre se atracando com os meus roteiros.

Thursday, November 03, 2005

E com vocês... Julio Cortázar

"En suma, desde pequeño, mi relación con las palabras, con la escritura, no se diferenciade mi relación con el mundo en general. Yo parezco haber nacido para no aceptar las co-sas tal como me son dadas."

"Yo creo que desde muy pequeño mi desdicha y mi dicha al mismo tiempo fue el noaceptar las cosas como dadas. A mí no me bastaba con que me dijeran que eso era una mesa, o que la palabra "madre" era la palabra "madre" y ahí se acaba todo. Al contrario, en el objeto mesa y en la palabra madre empezaba para mi un itinerariomisterioso que a veces llegaba a franquear y en el que a veces me estrellaba."

Monday, October 31, 2005

Angelus, de Millet























Pode-se perceber sua incrível beleza na veracidade passada pelo pintor, que retrata a cena sem ser possível que encontremos traços de pinceladas - coisa que Da Vinci também fazia. Reza a lenda, esta já publicada em livro ao qual o nome eu não tenho acesso - maneira estilosa de dizer que não sei -, que Millet havia pintado este quandro com um caixão no lugar da cesta de palha vermelha. Quando uma oportunidade de participar de um concurso de arte surgiu, Millet teria mostrado a pintura que inscreveria no concurso a um amigo bem próximo. Este, por sua vez, o aconselhou a mudar algo na pintura, que ao mesmo tempo em que era demasiadamente bela, iria chocar a todos pelo que estava retratado nela. Millet teria substituído, então, o caixão pela cesta, colocado uns sacos de batata no carrinho e pintado umas batatas mais à esquerda, em frente ao ancinhó - essa mistura de pá com tridente. Algumas fontes também afirmam que Salvador Dalí teria sido o primeiro a descobrir que na pintura haveria um enterro disfarçado. Ele teria percebido que atrás da mulher, em frente ao carrinho, há um monte de ossos por cima da terra. Salvador Dalí fez diversas referências a esta obra de Millet, inclusive reproduzindo-a com precisão, como um quadro preso na parede da casa de um dos personagens de uma de suas pinturas - que também não sei o nome.

Friday, October 28, 2005

A chuva, carregando as bostas flutuantes

Chove mais uma noite. O tempo lá fora refletindo o que se passa em minha mente, um temporal, um fenômeno que vem de tempos em tempos, buscando limpar toda a sujeira que foi deixada ali. Lavo o rosto e cuspo sangue. Olho para o sangue, vermelho como a guerra, um nascimento, um renascimento. Era disso que eu mais precisava neste momento. Decepções, meu deus, como eu me decepciono! Essa mania de colocar as pessoas em um pedestal, acreditar em suas convicções vazias, seus desejos de ser algo que elas não são e nem nunca serão, porque não passam de umas bostas poluentes e errantes. O relógio mostra que estou atrasado, corro o risco de perder o show; mais uma vez. Sinto que meus pudores estão sumindo, me sinto mais confiante e ao mesmo tempo gostando cada vez menos do convívio social. Não de todo o tipo de convívio, lógico. o ponto é que, não acreditando mais nas falsidades e não sendo mais capaz de agüentar a pequenez de certos seres, acabo por selecionar demais minhas companhias. E isso causa um certo isolamento. Acredito que, no entanto, não esteja me sentindo mais infeliz – todos nós temos graus de infelicidade, cada um o seu -, muito pelo contrário! Uma vez que você passa a entender melhor quem você é e à que se dedicar, quais as coisas que te fazem ser singular, ser você, não há solidão que te abale – isso seria algo mais hipotético, não sendo totalmente absoluto, mas funciona, lógico. A melhor companhia que se pode ter é a sua própria. Mas isso só serve se você estiver de bem consigo mesmo, porque quando não se gosta ou não se entende realmente o que se é, tudo que se busca é estar na companhia dos outros, sendo a maior infelicidade a de ter que se deparar com a sua íntima realidade. Se olhar no espelho e conversar consigo mesmo, tentar se entender. Mas me parece, hoje, ser o único meio de se encontrar a tranqüilidade “espiritual”, a da consciência.

Wednesday, October 26, 2005

O mal necessário

Escrevo.
Aqui sento e me ponho a desenhar,
passando para o papel o mundo fantástico
que habita em minha mente,
com criaturas incríveis, viagens mais que impossíveis
e você.

Sua atenção eu nunca tive,
e nem, provavelmente, jamais hei de ter.
Suas palavras cruéis,
seus ímpetos destrutivos, embora inconscientes
- mas nem tanto; mostra seu desejo de quebrar as regras
e ver os limites -,
e seu jeito de contemplar.

Seu olhar me desconcerta
me faz acreditar no inverso das coisas,
minha realidade saindo dos eixos.
Sua boca,
seu beijo que já sonhei sentir,
sua pele,
minha desgraça e minha salvação.

Em meu sonho lúcido busco por você,
embora não saiba se, estando ao seu lado,
(?) seria realmente feliz.

Palavras tolas, embora sinceras, que me fazem caminhar parado. Estático, me resumo à minha insignificância, esta às vezes substituída pela glória de ser algo que ainda não compreendo - assim como todos os outros -, enquanto recebo aplausos silenciosos pela peça que representei e o mundo assistiu, mesmo sem ter percebido.

Friday, October 14, 2005

O fim de um ciclo

E mais uma vez acontece. Aquele momento do qual ninguém gosta. Ambas as partes tristes por ter chegado este momento, que mostra o quanto a mente humana é complicada e que, na verdade, estamos todos sozinhos no mundo – em termos. Ela olha para ele, tentando enxergar o que eu se passa em seu interior; quer dialogar. Ele, enquanto isso, tenta esconder a lágrima que escorre em sua mente, mas que ela pode ver pela sua expressão. Silêncio. Seus olhares se encontram, mas se perdem muito longe dali. Em suas mentem passam flashes dos dias que passaram juntos, quando ainda acreditavam no amor. Um amor que teria surgido como um acidente em alta velocidade, arrastando os dois para o mesmo lugar, sem mesmo se conhecerem, e transformando aqueles dois corpos, e suas mentes também, em uma coisa só, um único ser. Mas agora acabou, já ficou para trás. O medo de que não dê certo, a inconstância de quem foi criado em um mundo de contos de fadas e papai Noel, os fantasmas do passado e a errônea assimilação desta situação com outras ocorridas anteriormente. Tudo isso conspirando contra a felicidade dos dois. Ele coloca a mão no rosto dela e a olha com um carinho muito bonito e sincero. Ela suspira, vira os olhos e depois o rosto para o lado, e treme. Treme por saber que está estragando algo que lhe faz bem. Treme porque não entende. A mão dele continua a fazer carícias por alguns instantes e depois cessa. Ele se recolhe, respira fundo e se levanta. Neste momento ela já começa a sentir a sua falta e o olha como se estivesse prestes a perder algo que deseja com bastante força. Ele acende um cigarro e guarda o isqueiro no bolso. Olha para as luzes dos postes enfeitando a cidade à noite, num dia em que a cidade parece ter morrido, todos recolhidos dentro de suas casas como se sentissem a dor dos dois. Ela pede um cigarro. Ele pega o isqueiro no bolso, acende o fogo olhando nos olhos dela e pega em sua mão, que aperta com todos os seus sentimentos. Abre a mão dela, coloca o isqueiro dentro e fecha com a outra mão. Um sinal de adeus. Uma lágrima no rosto dela escorre. Lágrima esta que ele limpa com a mão e, puxando-a para perto beija seus olhos, ambos. Calafrios nos dois. Ele beija a mão dela e, esfregando-a em seu rosto diz adeus, sem nenhuma palavra. Ela pede para ele ficar, mas em silêncio. Ambos querem isso. Querem ficar juntos mais um pouco, ainda não estão prontos para andar sem a companhia que tinham. Mas, suas mãos se soltam e eles vão. Cada um para um lado, sonhando com o dia em que se verão novamente.

Friday, September 30, 2005

A caverna de cada um; ou, Neandertais de terno

Após lermos A Alegoria da Caverna, texto de Platão presente na obra A República, muitas idéias podem surgir formando um pensamento contemplativo bastante abrangente, onde diversos temas se vinculam de forma natural. A idéia seria pensarmos se nós, nos dias atuais, poderíamos aplicar o conceito da Caverna de Platão em nossas vidas. Eu poderia afirmar, com bastante convicção aliás, que sim. E o papo aqui é sério, porque não atinge apenas alguns cidadãos incapazes ou ignorantes, mas acredito que a maior parte da população existente no planeta. Um percentual aproximado seria impossível aqui, o que demandaria uma análise de outro tipo, esta levando bastante tempo e escoando parte da energia que disponho para terminar este texto que acabei de começar a escrever.
Costumamos acreditar que nossas vidas são controladas por nós mesmos, que conhecemos as coisas e que somos muito espertos. Mas o que se deixa passar é que estamos cercados por - ou, quem sabe, afundados em - vícios, hábitos, tradições culturais, medos e – vem agora a inércia da humanidade – preguiça. “Eu estou antenado com as notícias do mundo”, poderia dizer uma pessoa aparentemente bem informada. Bem, isso é o que ela acha. Não há como saber ao certo como anda o nosso planeta - ao menos assim tão facilmente como pode parecer. Para começar, nossas crenças são controladas, tanto pelas linhas editoriais de jornais e revistas, como pelos programas de TV. A esses podemos incluir as campanhas publicitárias – na verdade uma loja de fantasias, um verdadeiro baile de máscaras -, as instituições religiosas – sim, todas; não estou criticando a fé religiosa, mas sim as instituições -, nosso ambiente social e nossas famílias – ok, eu sei que as mães se esforçam para fazer o melhor.
Cada um de nós formou uma opinião sobre inúmeros assuntos desde o nascimento. Este conhecimento se baseia em nossas experiências individuais e pessoais, como também nas opiniões já existentes no enorme mundo complexo que nos rodeia e no qual estamos inseridos, independente de querermos isso ou não. As opiniões que formamos tendo como base idéias difundidas por outras pessoas, são conceitos que podem ser colocados a teste caso venhamos a passar por experiências que tenham condições de comprovar sua validade ou não. Se uma dessas opiniões nunca for testada, é possível que se viva uma vida inteira sem saber que acreditava-se em algo ilusório e irreal, mas com cara de verdade. E é aí que mora o perigo. Não sendo possível ter todas as experiências ao mesmo tempo, acreditamos naquela que nos for apresentada com argumentos mais bem estruturados. Seria como dizer que uma mentira bem contada pudesse se tornar verdade. Um bom exemplo disso seria a eficácia dos discursos de Hitler para o povo alemão. Ele, o povo, em grande parte estava certo de que seguia o caminho mais correto possível e que seu líder era um homem sábio – que era esperto ele era, sim; além de muito psicótico: um pintor frustrado que encontrou na destruição uma forma de ascender e entrar para a história, enquanto descontava toda a sua raiva em gente inocente.
Observando as crenças das diferentes populações – sejam de diferentes países ou até mesmo de diferentes grupos sociais, diferentes bairros – podemos perceber que cada um desses grupos tem crenças próprias limitadas ao que eles são capazes de enxergar. Se você pegar um aluno de engenharia química que costuma passar seu tempo livre jogando futebol na praia e coloca-lo em uma festa dos alunos de um curso de cinema, onde estes discutem filmes de Eisenstein ou Kubrick, mesmo que ambos estudem na mesma universidade, o choque será grande. É como se existissem infinitos universos paralelos. Agora, se você tomar o cuidado de levar em conta o fato de que cada ser humano é diferente, tendo como base os conceitos do parágrafo anterior, podemos imaginar a civilização toda como sendo composta por seres que andam carregando suas próprias cavernas, de um lado para o outro. Seres que vivem, de certa forma, alienados para quem está de fora, mas antenados com o seu mundo interior. Isto também serve para explicar porque as pessoas acham tão complicado entender umas às outras, tanto em relacionamentos amorosos como em relações de trabalho e amizade. Nossa imaginação é capaz de nos levar até um determinado ponto, mas, mesmo que ela seja muito criativa, jamais será capaz de prever com muita clareza as reações dos outros indivíduos. É daí que vêm os famosos mal-entendidos, responsáveis por constantes brigas e desavenças entre pessoas que acreditam se conhecer muito bem e esquecem que cada um possui suas particularidades – quando ocorre entre estranhos, então, o caso é mais sério, sendo mais rara uma reaproximação futura. Na verdade, todos querem ser entendidos, mas despendem pouco esforço para tentar entender o outro. Aquele que mora ao lado e do qual você precisará, cedo ou tarde. Sabe aquela frase que diz que ninguém é normal? Pois é, não há como alguém ser. Porque o “normal” não existe. O que é normal para você pode não ser normal para mim, e assim por diante. Normal, na verdade, é ser peculiar – os mais metidos costumam gostar mais de usar a palavra “idiossincrático”.