Friday, July 27, 2007

Quase meia-noite

Cansaço, vontade de me jogar na cama - que ao mesmo tempo em que recarrega minhas energias, me toma outras, uma vez que tem me trazido muitas dores... físicas, mesmo. Felicidade e fragilidade ainda andam lado a lado, trocando olhares com a confiança que vem com a idade. Sim, estou ficando velho. Velho também para ficar reclamando do tempo ter passado tão rápido - o que, dependendo do caso, é até melhor.

A desilusão é constante, principalmente quando tentamos, incoscientemente e a todo tempo, eleger mestres para podermos seguir. Aqui se manifesta noavmente a necessidade do ser humano de encontrar uma segurança, um alicerce que nos livre da sensação de total abandono nesta terra (qualquer terra). Uma das poucas fés que podemos ter nas pessoas, vejo cada vez mais, é em nós mesmos (salvo algumas almas merecedoras de medalhas; mas estas são poucas e... palmas para elas!!!).

Não aos ídolos! Está na hora de organizar a cabeça e resgatar aquela pequena lição de cada um, para ver se assim o verdadeiro "ideal", que é relativo - sim, porque depende do que você busca - se materialize, ao menos na imaginação. De pouco em pouco a galinha enche o papo...

É? Enche o papo, é? Pro diabo com a galinha. Frases de merda que ajudam e ao mesmo tempo emburrecem. Tudo que eu quero é dormir e... não criar conceitos equivocados.

Tuesday, March 06, 2007

Carcomido

Levanta-se. O peso do próprio corpo já ultrapassa o suportável - tantos anos de sedentarismo não poderiam ficar em vão. Tenta alcançar a porta, sua passagem para a liberdade. Sua entrada para o novo mundo, agora que finalmente deixou para trás tudo que carregava em suas costas. Seus sonhos, seus desejos, sua sede. Ah, mas que sede! Era como se nada pudesse pará-lo. Nada era capaz de satisfazer todas as vontades que mantinham este coração vivo e forte, batendo como nenhum outro. E as dores? As dores constantes de sofrer por tudo o que procurava mas acabaria por nunca encontrar, mesmo que achasse.

A idade veio, e com ela a degradação, a fraqueza. Antes era jovem, forte, impulsivo. Agora, não passa de um velho, um defunto, um corpo apenas. Uma peça de museu. Mas, uma peça de museu que tenta alcançar a porta. Com seus dedos finos e já sem pele, com seus ossos à vista, como todo zumbi que tenta ressurgir da morte, ele insiste. E a maçaneta continua tão distante quanto antes. Pensa em desistir. Seria mesmo verdade? Estaria mesmo isto acontecendo com ele? A dor é grande e a sensação é de que, apenas saindo do recinto sombrio e empoeirado, a paz pode chegar.

E ele tenta mais uma vez, com o peso do próprio corpo ultrapassando o suportável.

Tuesday, February 20, 2007

Mais uma canção (nova versão com final alterado)

Me encarando com seu olhar penetrante, ela reclama de coisas em mim que eu não pude mudar e se mostra mais insatisfeita do que o suportável. Seus argumentos fazem sentido, mas não quero pensar em nada agora. Não hoje. Depois de tudo que aconteceu, só preciso me deitar e esperar que amanhã meus problemas já estejam todos resolvidos, como num passe de mágica.

Ela pega suas coisas - calma, me refiro as coisas dela, não às suas – e se retira. “Tenho que ir pro camarim, o show começa em poucos minutos”, diz a voz grave e macia que dia desses me fisgou, antes mesmo de nos conhecermos. Peço uma bebida e espero pela salvação – neste instante qualquer coisa poderia me salvar, já que não agüento mais estar dentro dele; mas um drink vai servir.

O pub cheio, as pessoas animadas e as luzes apagadas. Apenas o bar com seus raios coloridos alegra o ambiente, esperando pelas luzes do palco ainda vazio, para que estas, junto à solidão dele - o bar -, façam companhia um ao outro. No olhar de cada estranho um tanto diferente de tristeza, a velha busca por saciar o eterno desejo por uma quebra, um pouco de aventura para tornar a vida cotidiana mais interessante, mais atraente. Procura-se o que é atraente mesmo quando isso na verdade, na prática, não significa nada, apenas te suga e pronto. Não que você esteja sendo sugado pelo que acharia melhor mas, enfim...

Enfim sobe a banda ao palco e as luzes se acendem. Minha atração, com o jeito peculiar, lidera o grupo e me faz esquecer do mal estar que dominava, ao menos para mim, todo o mundo. Não que eu esteja sendo sugado pelo que eu acharia melhor, mas no momento eu acho. Luzes, som, fumaça, ritmo, aquela voz. Ao menos por hoje vou poder conviver com os meus problemas. Na verdade ficarei imaginando o amanhã, onde, quem sabe, quando acordarmos pela manhã, o hoje ainda não será passado, mas o amanhã já será presente e, eu e ela, tão independentes e fortes quanto assustados e carentes, nos amarraremos um ao outro um pouco mais e ostentaremos um sorriso sincero por, mais uma vez, não termos outra saída.

Saturday, January 06, 2007

Mais uma canção















Me encarando com seu olhar penetrante, ela reclama de coisas em mim que eu não pude mudar e se mostra mais insatisfeita do que o suportável. Seus argumentos fazem sentido, mas não quero pensar em nada agora. Não hoje. Depois de tudo que aconteceu, só preciso me deitar e esperar que amanhã meus problemas já estejam todos resolvidos, como num passe de mágica.

Ela pega suas coisas - calma, me refiro as coisas dela, não às suas – e se retira. “Tenho que ir pro camarim, o show começa em poucos minutos”, diz a voz grave e macia que dia desses me fisgou, antes mesmo de nos conhecermos. Peço uma bebida e espero pela salvação – neste instante qualquer coisa poderia me salvar, já que não agüento mais estar dentro dele; mas um drink vai servir.

O pub cheio, as pessoas animadas e as luzes apagadas. Apenas o bar com seus raios coloridos alegra o ambiente, esperando pelas luzes do palco ainda vazio, para que estas, junto à solidão dele - o bar -, façam companhia um ao outro. No olhar de cada estranho um tanto diferente de tristeza, a velha busca por saciar o eterno desejo por uma quebra, um pouco de aventura para tornar a vida cotidiana mais interessante, mais atraente. Procura-se o que é atraente mesmo quando isso na verdade, na prática, não significa nada, apenas te suga e pronto. Não que você esteja sendo sugado pelo que acharia melhor mas, enfim...

Enfim sobe a banda ao palco e as luzes se acendem. Minha atração, com o jeito peculiar, lidera o grupo e me faz esquecer do mal estar que dominava, ao menos para mim, todo o mundo. Não que eu esteja sendo sugado pelo que eu acharia melhor, mas no momento eu acho. Luzes, som, fumaça, ritmo, aquela voz. Ao menos por hoje vou poder conviver com os meus problemas. Quem sabe quando acordarmos pela manhã, eu e ela, tudo não tenha se tornado melhor, como num passe de mágica?

Friday, November 10, 2006

Rascunhos de Música 1

Guarde sua arma, eu já estou morto mesmo, vagando por aí atrás de uma resposta. Por que este sangue em mim é seu e eu não nos vejo adormecer. Suas flores cheiram o ódio no seu olhar e tudo ao seu redor padece. Me dê palavras... eu quero uma frase inteira que faça sentido dentro deste todo que você chama de nada! Por que a dor? Por que o ser? Por que você não mente a lágrima que eu espero ouvir? Estes dejetos.. este lugar podre! Não quero olhar, não venha tentar me mostrar! Aqui eu não volto mais; eu nunca estou. Eu nunca estive.

Monday, October 09, 2006

Mau humor

Pouco. Não me contento, e isso me deprime. Pode parecer muita exigência da minha parte, mas esse seria um olhar distante do que eu tenho agora. Sonho acordado enquanto tomo o meu café - como se isso fosse me ajudar de alguma forma -, sonhando uma imagem que se projeta a poucos metros de mim, tão nítida que eu quase poderia viver aquilo que desejo – é.. nesse momento finalmente compreendo o valor de me perder em minhas projeções involuntárias.

Com o corpo mole, me levanto da mesa rumo ao meu banho matinal, do qual não abro mão um dia que seja – sou daqueles que se perturbam muito quando surge um motivo sincero, algo urgente mesmo, que me faça sair de casa antes da chuveirada. Ah, mas como eu me sinto maravilhado ao perceber que, após todo aquele sacrifício para subir as escadas, a bomba d’água está quebrada! Terei que me contentar com a água fria, tão fria que merece ser chamada de gelada – já mencionei que sem a bomba a água vem bem fraquinha?

A água corrente me faz bem, mesmo gelada – eu adoro banho frio, embora às vezes seja incapaz de enfrenta-lo - e consegue lavar a minha mente, levando para longe todas as angústias que, aliadas a uma noite mal dormida, podem conspirar para que eu comece e termine o dia vestindo um mau humor idiota. E eu odeio mau humor. Este me parece com um ser insuportável, que bate a sua porta com o objetivo de tomar grande parte do seu tempo e você – OK, no caso aqui você sou eu – o deixa entrar porque não reuniu forças para bater a porta na cara do infeliz.

Wednesday, August 23, 2006

Rag Time - a hora do peão

Cansado e sujo, olha para o portão de casa. Depois de bastante tempo na fábrica, já era hora. Sua carona se despede. E a porcaria do poste não se acerta, sempre com essa luz fraca. Mão no bolso, chaves na mão e o portão aberto. No jardim, o cachorro não se manifesta. Provavelmente por ter feito algo que não deveria – ao menos na concepção dos que lhe dão comida.

Entrando em casa, a mulher já reclama dos sapatos sujos de terra e se revolta por ver em sua expressão que ele nem se importa com isso. Tudo que importa está mais a frente: a sala de TV. Ah... o sofá, a tranqüilidade de não ter que fazer nada – as demandas da patroa não conseguem interferir nisso -, se estirar e fazer o que quiser. De preferência, não fazer nada.
Poderia colocar um disco do Scott Joplin, que ganhou em seu aniversário anos atrás e cuja música não sai da cabeça há mais de uma hora, mas prefere o silêncio ao redor. A música fica soando como antes, apenas em sua mente.

Estendendo a mão e pega, na mesinha ao lado, um charuto. E acendê-lo proporciona aquele prazer, que só quem experimentou sabe. Não é só o fumo, mas a situação toda. Livre dentro de sua própria caverna. Livre entre das poucas horas livres antes de começar um novo dia de trabalho duro.

À medida que o cansaço se acentua, o sono bate a porta. Aos poucos, fecha os olhos e dorme no sofá. E entra num pasto imenso, todo seu. Com cavalos treinados correndo por todos os lados, dos quais ele escolhe um e, usando apenas um simples gesto que parece pequeno frente a sua habilidade, monta no mais selvagem de todos. E segue correndo pelo campo. Correndo pelas estradas. Correndo no meio mato. Correndo pelas montanhas. Insistente e sem jamais se cansar.

Thursday, August 10, 2006

Analisando.doc

“Analyse” toca no player enquanto reflito sobre coisas diversas. Reflito e escrevo, busco sites e tento me organizar para o dia de amanhã – o muitos outros depois dele também chegam dando uma palhinha na minha projeção.

A música de Thom Yorke faz bastante sentido aqui: um contexto de introspecção, entrando cada vez mais dentro de mim mesmo; enfim, uma viagem.
O suor frio evidencia meu estado atual, de quem está exausto e, por causa disso, praticamente adoentado.

Pulo parágrafos constantemente porque, assim como na música que toca – já não é mais aquela -, a mudança de clima aqui se mostra um ingrediente necessário –“alta demanda”, no jargão economês. Procuro palavras, climas, situações, idéias interessantes que possam se tornar bonitas com algumas pinceladas, mas a coisa não está fácil.

O sofrimento hoje é outro. Já não há a presença das angústias passadas, com exceção de algumas. As perguntas já parecem ter respostas parciais e isso, no momento, me traz uma sensação de tranqüilidade. O maior problema atualmente é a busca pelo avanço, a evolução de assuntos já iniciados. Um deles é este texto.

Reflito sobre as coisas que escrevia antigamente. Gosto delas até hoje, são minhas crianças! Mas não sinto mais aquela força sugando na mesma direção. Quero dizer, em parte. Na verdade, faz parte da transformação. Hum...

Saturday, July 08, 2006

Palavras de sangue e desejo

Estas mãos que te seguram agora podem vir a te machucar. Podem fazer com que tudo o que você pensa sobre mim se torne algo infeliz, vermelho e lacrimoso. Nossos medos podem vir a se concretizar, medos estes inimagináveis poucas semanas atrás. Nada disso, tudo isso e coisa alguma foi planejado, tudo fruto do movimento dos nossos corpos inconstantes em busca de um amanhã; e eles acabaram por se chocar.

Luto para não pensar no que, imagino eu, divagando, poderia me fazer embarcar em ilusões não tanto aleatórias, mas corrosivas, capazes de me destruir e a você também. Seu cheiro, tão perto e tão distante. Um desejo constante de te ter e te atravessar com meus braços e minha boca, deixando um pouco de você em mim e algo de mim em você.

O tempo não colabora, anda pra frente, pra trás, para cima e para baixo, mas nunca para onde eu quero. Eu quero hoje, agora, ontem e também amanhã. Quero você aqui e eu aí, simultaneamente.

Não escrevo palavras bonitas, elas fedem e são dolorosas – e as assino com meu sangue. Mas exprimem da forma mais sincera o que eu sinto por você. E de você eu não abro mão.

Monday, July 03, 2006

Saudades

Vagando pelas ruas sem muito motivo, apenas por não querer ficar em casa, tento encontrar algo que torne a andança especial. Parece que, com exceção de uns conhecidos passantes, a caminhada não valeu muita coisa, quando vejo que, mais uma vez, tudo parece se encaixar em algum momento.
Sentada na mesa de um bar, de costas para mim e para a rua, encontro ela. Logo ela que eu não dei valor e hoje sinto saudades. Ao entrar no bar, para fazer uma surpresa, ela vira na minha direção, como se soubesse que eu estava passando por ali. E sorri.

Wednesday, May 24, 2006

Um nome Novo

Acorda, com o zunido do despertador ecoando insuportavelmente por toda a caixa craniana. Um tapão e o despertador está fora de combate; com o inimigo estatelado no chão, a batalha parece ter sido vencida. Um engano. Não conseguindo mais voltar para aquele sonho que parecia tão bom, e pelo qual esperara inconscientemente por meses, é hora de encarar a realidade. Espreguiça os braços, as pernas, ah.. você sabe, o corpo todo.
Levanta da cama e, ainda cambaleando, busca um copo d´água na cozinha; antes de molhar as cordas vocais, não se emitem palavras sem o desprazer da dor seca. Um copo e depois outro. A vista ainda descontente com a invasão da luz do dia no apartamento, ele ruma ao corredor, seguindo para o banheiro.
Tranca a porta mas, “quem é que entraria aqui?”, reflete, uma vez que não há ninguém em casa; estão todos viajando. Seu reflexo no espelho afirma que não dorme bem há dias. Decepção. Não gosta do que vê e fica se encarando. Não gosta de quem é; já é hora de utilizar tudo que aprendeu e se transformar. Está na hora de sair da incubadora, mas com outra cara. Nada mais de brincar por aí, agora a coisa é séria. Acabou a paciência e uma urgência por resultados práticos grita à flor da pele.
Joga o nome fora, enquanto faz a barba e olha fixamente nos próprios olhos, decidindo o que seja a partir de agora. Coloca uma música agitada no som, em alto volume, se veste, pega as chaves, a carteira e sai de casa, batendo a porta com força.

Sunday, April 30, 2006

Na distância, o olhar

Seus cabelos me mostram o quanto ela está livre e eu estou preso. Livres como o vento os quer e distantes de mim, que fico aqui neste calabouço enquanto vejo pela janela os passos dela durante todo o dia. Não posso tocá-la. Por mais que estique os braços, uma barreira invisível nos separa. Esta parede que apenas eu enxergo e que me faz perder o prazer de viver. Distante, eu tento me contentar com o doce sabor de vê-la passar e só. Cada passo é admirado individualmente. Cada gesto, cada pensamento. Não sei o que ela está pensando, mas crio no meu próprio mundo toda a realidade da qual participo agora, e nela eu sei o que ela pensa – acho que já estou começando a entendê-la.
Aqui dentro chove, neva, alaga e o sol é de rachar. Como não tenho protetor, já percebo que estou criando uma nova pele, de tanta dor sofrida. Dos seus lábios sai apenas música, assim como do seu perfume, que não sinto mas consigo idealizar, assim como todo o resto. Uma sonata, triste, de um instrumento que atua em movimentos solo, melancólicos e intensos. Quisera eu que ela pudesse me ouvir tocar uma canção. Uma canção diferente de tudo, onde nós seriamos um e não houvesse mais escuridão. Seria bonito, mas mais uma vez eu me encontro aqui sonhando. Sonho acordado para depois fugir com ela em sonho. Mas não um sonho azul, eu quero um sonho vermelho. Um sonho em que o meu sangue corra com tamanha força que me rasgue o corpo, mas antes me dê forças para destruir estas paredes e me livrar destas palavras imbecis e sinceras, que não trarão o meu amor.

Friday, April 21, 2006

O pote de ouro

E lá estava ele, na linha de chegada. Em seu olhar, o estranhamento. A sensação de que talvez nada tenha realmente acontecido, nada tenha mudado. O troféu que buscou por tanto tempo agora já não parece mais atraente como nas fotos presentes em seus sonhos. Mas qual o motivo disso? Ele ainda não sabe. Não sabe ao certo porque não está pulando de felicidade, não se compreende plenamente satisfeito. E os fogos de artifício, onde estão todos eles? Estariam eles escondidos, esperando que alguém os descubra e finalmente possa descansar em paz, sem maiores dúvidas ou preocupações?
Nada como era previsto. E agora, o que fazer?
Entra em um café e chama pela garçonete. Você tem um isqueiro? Obrigado. Um café com creme, por favor. A fumaça que sopra parece levá-lo para bem longe, onde ele contempla quase que aleatoriamente os últimos dias.
Chega o café. Açúcar ou adoçante? Açúcar, por favor.

Saturday, April 15, 2006

Encurralado - exercícios para a loucura

Tensão. Não sei se dessa vez poderei fazer algo a respeito da situação na qual eu me encontro. Sei que posso influenciar no que está para acontecer, mas ainda assim me parece que é muito pouco. Entro em desespero. O pânico chega e toma conta da sala. Correndo, eu busco uma saída, tentando pensar em tudo.
Parado na minha frente, então, ele me olha. Seus olhos brilhantes cor de rubi me observam, como se eu fosse apenas mais um experimento e nada do que eu pudesse fazer iria me ajudar a resolver este enigma. “Não existe solução para o que você quer”, diz a sua voz rouca e bem projetada, onipresente em cada canto do recinto. Frente a frente com o meu medo, a respiração dele tranqüila fazendo um contraponto com a minha, o extremo oposto, mostra o quanto eu pareço estar perdendo o controle da situação. E o sorriso estampado na face do meu inimigo me acerta como mais um tapa, embaçando a minha vista. Sem enxergar nada, um belo “Porra!” é a coisa mais bonita que você pode tirar de mim.
Aproveitando do meu vasto leque de opções satisfatórias, sento e cruzo as pernas. Correr de um lado para o outro em nada vai me ajudar. E ele continua ali, rindo da minha cara, enquanto come sua maçã dourada. Bem que ele poderia se engasgar com ela. Hum... isso me parece muito bom...

Friday, March 10, 2006

Pétalas escorridas


Suas pétalas caem como lágrimas, deixando sua luz para trás, embaçando o brilho no seu olhar. Sua angústia, maior do que a suportável. Ela corre. Busca por um lugar onde consiga se sentir longe de toda a desgraça que parece ter se instalado em sua vida e onde possa finalmente descansar em paz. Mas seus pés não agüentam muito, são frágeis demais. Com o rosto no chão, ela suspira e chora. O som do rio que corre ao lado e a vegetação da mata fechada sinalizam que está só, embora isso não signifique que agora esteja segura. Sua própria presença já é o suficiente para que faça mal a si mesma. Os olhos fechados transportando-a para os lugares dos quais mais se arrepende ter ido, as palavras que um dia ouviu e tanto acreditou, mas hoje já não são nada além de poeira memorial. O vento. Parece um amigo, mas, quem é que sabe? Os sentidos já não podem ser considerados amigos fiéis faz tempo.
Resolve banhar-se no rio, a água como refúgio. Uma fuga, que não a protege de seus pensamentos e torturas. Um ruído estranho agita sua mente, que mantinha seu corpo em total inércia. Folhas se mexendo, nada mais. Talvez de um caminho secreto, ou de uma caverna no meio do nada surja algo que pareça estranho e ao mesmo tempo mágico. Uma aventura capaz de levar a mente a um lugar bem longe, no qual ela possa se esquecer da beleza que perdeu dentro de si. Soa muito bonito, mas um tanto improvável. Ela se deita e cai no sono.
De olhos fechados ela ouve um som incomum, que tenta reconhecer inutilmente. Abre os olhos, com a vista ainda levando alguns segundos para se ajustar – é noite.Luzes pequeninas zunindo ao seu redor... parecem tentar chamar a sua atenção. Estariam elas tentando se comunicar? Depois de alguns momentos as pequenas luzes seguem em seu movimento giratório, seguindo um caminho um tanto quanto estranho. A bela moça desiludida resolve segui-las. Mas... para onde elas a levarão? A moça se levanta e corre atrás, pela mata negra que, ao menos para mim, parece assustadora.

Saturday, February 25, 2006

Um pouquinho de paz

... na verdade agora eu quero a paz, sim. Quero um tempo. Um momento sem nada. Esquecer de toda a bagunça da nossa sociedade desesperada por buscas que não nos levam realmente a lugar algum e ir de encontro com quem eu sou. Prestar mais atenção, ouvir bem; escutar. Olhar, enxergar mais. Nada desse papo de turista genérico que passa pela própria vida tentando fazer tudo ao mesmo tempo e não conhecendo coisa alguma na realidade. Dez minutos para cada atração já não me parecem ser o suficiente.
Lá fora, muita festa. As pessoas se encontram, confraternizam. Eu no momento quero apenas ficar aqui, quieto. Não preciso nem mesmo me mover para satisfazer esse desejo - que hoje mais se parece com uma necessidade.
Preciso entender qual é o som do silêncio. Assim poderei entender melhor quem eu sou - já que estamos em constante transformação e adaptação isso me parece ser algo a que deveríamos dar mais importância.

Andando

Ando, ando e ando. Sempre ando, mesmo que às vezes não me desloque. Parece que de nada adianta todo o esforço que se faz, nada acontece. Minha impaciência me aborrece e eu explodo a cada passo. Poderia ser diferente, sim. Eu poderia ser mais tolerante. Mas os rumos que as situações tomam poderiam ser mais parecidos com o que eu procuro também. Por que eu deveria me ajustar? Não é a insatisfação que faz com que o homem busque por algo melhor, sua evolução ao longo dos anos tão incessantemente estudada por pessoas que não tem nada melhor para fazer?
Pois é, nada de paciência.
Eu poderia meditar. Bem que eu gostaria, se ao menos eu conseguisse me concentrar...
Meus pensamentos, em diferentes pontos e ao mesmo tempo, não me deixam em paz - e também não sei se a paz é tão perfeita assim.
Continuo andando. É o melhor que eu tenho a fazer. Até encontrar um bar e pedir uma cerveja.

Friday, February 24, 2006

Como desaparecer completamente

Aonde foi tudo aquilo que eu enxergava com estes mesmos olhos, já tão cansados das mesmas coisas? A minha vontade de encarar as coisas, a minha paciência - que nunca foi uma virtude anyway- ? No escuro, tudo no escuro. Só vejo as cinzas. E não penso mais em procurar, simpesmente não achei e pronto. Nenhuma chama, nehuma palha a ser movida. Não mais. Um drink, para brindar este momento mágico. O momento em que me esqueço de tudo, ou ao menos tento não pensar. Um vazio, que me leva para outro lugar. Menos vazio que essa vida. Um sopro. Me deixo levar, largando tudo para trás. Estou pronto para me libertar. Não sou mais eu, agora eu já não sou mais nada. Talvez os pensamentos voltem a me perturbar - óbvio -, mas por hora eu viajo. E me concentro nas estrelas que tentam se esconder com as folhas das árvores no jardim. Faz frio, mas estou melhor aqui. E daqui não pretendo sair.

Wednesday, January 04, 2006

Perdido - mais que você?

parte 1

Olho para ambos os lados da rua. Ninguém. Tudo deserto, nenhum assobio, nenhum pássaro cantando, nenhum bêbado balbuciando asneiras. A dor me atinge em cheio, com a minha cabeça reclamando de tanta bagunça feita nos últimos dias. Sim, eu bebi demais. Mais do que quando eu achava que meus problemas não poderiam piorar mais e que a minha carreira e o meu casamento pareciam ter chegado ao fim. Agora enxergo com clareza que aquele definitivamente ainda não era o tal do fim melancólico e dramático que eu havia planejado para a minha triste vida – sim, porque se eu não me fizer de coitado, quem fará?
Minhas roupas sujas, molhadas e fedendo. Por onde será que eu andei? Talvez seja melhor nem mesmo descobrir.. da última vez não deu muito certo. Peraí... que lugar é esse? Que rua é essa? Ando, ando e ando. Mas a rua parece que não acaba. O que? Não, eu apenas estou buscando o nome da rua na próxima esquina. Não estou fugindo de você. Ih, relaxa, que eu já estou com problemas demais por aqui.Bom, parece que é aqui a esquina mais próxima. E o nome da rua é... ué, cadê o nome da rua?! Só me faltava essa. Agora os vândalos resolvem destruir o patrimônio público logo na hora e local em que eu pretendo finalmente usufruir dele. Que ótimo.

Tuesday, January 03, 2006

Muito bom pra caramba mesmo

Interessante ver que, enquanto muito se fala que não se fazem bons filmes, podemos ver filmes muito bons em cartaz, mesmo que para isso seja preciso peneirar um pouco e até mesmo arriscar de-vez-em-quando-quase-sempre. King Kong? Berg, nada de muito relevante, a não ser que você ealmente queira dar muito valor para o fato de que no roteiro original houvesse o lance do Tore Kong dando uns sopapos nos Tiranossauros Rexsssss...
Ta certo que Primavera para Hitler não é um filme recente, apenas o seu remake, Os Produtores, mas está de volta no grande circuito e garante mais de uma hora de bom cinema e gargalhadas raramente vistas hoje em dia.
Mas, o prato principal aqui é bem outro - beeeeeem outro mesmo. Estou aqui para dizer que Beijos e Tiros, cujo livro que inspirou o filme eu estou louco para adquirir, assim como todos os outros do mesmo autor. Para começar, o filme se baseia em um narrador, que é o personagem principal explicando tudo o que acontece enquanto você vê o filme na tela. E, uma coisa que sempre dá certo, ele faz o herói que sempre se ferra. Só esses dois fatores já são de grande peso. Agora somemos aos dois anteriores o fato de ser um filme bastante inteligente, com piadas e humor sagaz, suspense, intrigas e mulheres lindas - sim, de morrer; principalmente a mocinha, que em alguns ângulos você jura ser a própria Liv Lyler, só que MAIS BONITA... ah, vale lembrar que ela fica apenas de calcinha em uma das cenas...
Enfim, um filme daqueles que você fica muito feliz de estar assistindo e não se aguenta de querer comentar tudo que acontece. Um filme excelente com sacadas geniais a todo instante. Esse vai pra prateleira...

Sunday, December 25, 2005

uma música linda - mas tem que escutar...

Wherever I May Roam
Metallica
Composição: Hetfield e Ulrich

Wherever I May Roam

...(And the road becomes my bride)
And the road becomes my bride
I'm stripped of all but pride
so in her I do confide
and she keeps me satisfied
gives me all I need

...and with dust in throat I crave
only knowledge will I save
to this game you stay a slave

rover wanderer
nomad vagabond
call me what you will

but I'll take my time anywhere
i'm free to speak my mind anywhere
redefine anywhere
anywhere I roam
where I lay my head is home

...and the earth becomes my throne
and the earth becomes my throne
I adapt to the unknown
under wandering stars I've grown
by myself but not alone
I ask no one

...and my ties are severed clean
the less I have the more I gain
off the beaten path I reign

carved upon my stone
my body lie, but still I roam
wherever I may roam

Monday, December 19, 2005

Entrando no castelo

Andando com ela eu percebo suas fraquezas, seus traços humanos. Seu medo de se atirar de cabeça mais uma vez em um abismo e quebrar a cabeça de uma vez por todas. Ela é meiga e aos poucos vai soltando suas correntes, que deixam descer os portões da sua privacidade e eu finalmente posso entrar. Toca uma música. Um piano de Scott Joplin, daqueles que nos fazem felizes mesmo quando não temos realmente um motivo. E eu vou me adentrando em seus aposentos, por tanto tempo fechados que já chegam a acumular pó. Na verdade não faz tanto tempo, mas foi um tempo em que o distanciamento se posicionou de forma determinante em sua vida; ao menos até agora.
Ali está ela, preparando um chá para nós dois. Tomamos o chá e relaxamos. Olhar para o céu cheio de estrelas, esparramados neste sofá gigantesco se faz um programa mais do que suficiente para o que buscávamos. E batemos um papo. A conversa dura horas, até o momento em que o telefone toca e ela se levanta para atender. Um choro. Ela desliga o telefone e volta, evitando me olhar nos olhos.
Tento chamar a sua atenção, fazendo meus truques ilusórios, estourando pequenos fogos de artifício que parecem sair de minhas mãos, o que surte um efeito inspirador no humor da doce menina. Sua infância se manifesta em seu sorriso. Um sorriso de quem pede por um pouco de paz em meio a um momento de extrema turbulência emocional.
Ela enxuga as lágrimas e me abraça com força. Um beijo longo. Uma noite em segurança.

Wednesday, November 23, 2005

A busca - agonia

Sinto-me sujo. Bloqueado pelas portas que eu mesmo construí. Não, não foi culpa minha. Sim, foi minha culpa. Agonia, desespero. A pele que cobre o meu corpo eu arranco, rasgo-a. E jogo ao relento. Medito, mas não nasce outra no lugar da antiga. Impaciência. Olho pro céu, dividido entre dias e noite, como uma zebra. Não existe tempo, mas eu perco o meu com o presente. Um passo que eu preciso dar, mas não aceito ainda não ter dado. Minha vista se aperfeiçoa e o que vejo não me agrada. Quero distância. Mas como posso querer distância do que eu sou? Onde poderia eu me situar, então? Um banho frio, talvez. Uma garrafa de vinho, quem sabe. Uma noite de sono, onde eu conseguisse enxergar o que eu tanto busco mas ainda não sei o que é, melhor ainda. Mas não posso me deitar. Não ainda. E continuo não gostando do que vejo. Fecho os olhos e tento caminhar. Mas atento.

Tuesday, November 22, 2005

Recados

"Oi, você ligou para o Guilherme. No momento eu não posso atender.. na verdade não estou afim mesmo. Deixe o seu recado após o sinal. Não, não pense que eu vou te ligar. Mas você pode deixar a sua mensagem assim mesmo. Assim você desabafa, põe pra fora seus problemas e acaba economizando com o psiquiatra. Mas deixe o seu número também, para que eu possa fazer o mesmo quando precisar. Caso você tenha se assustado, tente se acalmar. As pessoas fazem isso o tempo todo - se assustar também, mas não é a isso que me refiro -, só que de forma mais discreta e "educada"; disfarçada. Bom, tenho que ir. A panela está no fogo, tenho que pegar as crianças no colégio, o bombeiro precisa entrar aqui pra consertar o vazamento, o gerente do banco está na chamada em espera, minha mãe está precisando de mim no hospital, está começando Friends agora no canal 1619, meu cachorro está latindo sem parar... píiiiiii!!!"

Monday, November 21, 2005

Música da banda HEREGES

Balada Triste (Fábio Costello E Marcelo De Vasconcellos)

Quem se sente só
E seus caminhos deram um nó
Já desistiu de se explicar
Se prende outra vez
Arrepender-se do que fez
É aprender a não errar

Seus pais queriam alguém pra se orgulhar
E mergulhou por não ter medo de água fria
Na piscina dos seus sonhos que estava
Já vazia

Espera na porta alguém para confessar
Sussurra em línguas mortas sem perceber
Ninguém se importa, ninguém quer ver

Já nem sente dor
Já definiu o que é o amor
Por quem partiu pra não voltar
Já nem finge rir
Já decidiu pelo rancor
Por todo aquele que chegar

Desviou de repente o olhar
No seu céu estrelas decadentes
No horizonte acena o sol dos seus anseios no poente
No poente

Espera na porta alguém para confessar
Sussurra em línguas mortas sem perceber
Ninguém se importa, ninguém quer ver
Ninguém se importa, ninguém quer ver
Ninguém se importa, ninguém quer ver
---------------------------------------------

Esta belíssima música está disponível no site da banda www.hereges.com.br , onde também há uma agenda sempre atualizada dos shows da banda. Eu classificaria a banda como "urgente", que é um adjetivo que deveríamos adotar para mais usos que o habitual.

Thursday, November 17, 2005

Estátuas coloridas – bonitas, mas ordinárias

Inércia, inércia e... inércia! É só o que consigo enxergar para todo ponto em que minha vista se foca. E isso causa um desespero tremendo, porque homem tem a teimosia de afirmar que as pessoas bem sucedidas são aquelas que foram abençoadas pela sorte. Isso não passa de um equívoco basicamente infantil. Nossos atos ecoam pela eternidade, já dizia o sábio, e nós não podemos ignorar isso; está na nossa cara! Vidas vazias são fruto disso também. A preguiça ou a idéia de que a própria vida é sem graça, aliadas a aceitação de que isso seria um karma ou programação do destino – ou, pior ainda, parte dos planos de um ser superior – fazem com que as pessoas, não necessariamente todas, mas em sua maioria, estejam constantemente esperando que algo venha a acontecer em suas vida; mas elas não fazem nada para ajudar! Ficar de braços cruzados ou tomando anti-depressivos não melhora nada, e quem o faz já percebeu. Bom, não quero continuar aqui. Vou tomar meu banho e sair, abrir os braços e receber o que o mundo tem para nos oferecer! Sintam-se convidados.

Tuesday, November 15, 2005

Um friozinho

Frio. Neve e gelo. Tudo branco ao infinito.
"Tem alguém aíiiiiiii...???" Olha prum lado, olha pro outro... e nada.

Zzzzzzzzzzzzzzzzz...







Congela e morre.

Monday, November 07, 2005

Luz, câmera... contemplação

Movimento. Cenas passam pelos meus olhos enquanto caminho à noite, pelas ruas da cidade sonâmbula. Imagens, cenas oníricas, enquanto vejo os carros dos outros sonhadores seguindo seus rumos ao desconhecido. Entro em um estabelecimento e procuro algo do meu interesse, quando na verdade o que me interessa está mais a frente, não posso adquirir agora ou pagar em dinheiro. As divagações nesse momento se fazem necessárias, são elas as responsáveis pelos próximos passos, pelo curso que pretenderei seguir – mesmo que eu venha a mudar de idéia e seguir outro completamente diferente deste depois.
Folheio livros, tomo um café. Pessoas ao meu redor interagindo umas com as outras e eu no meu silêncio. Um silêncio que é a na verdade tudo que eu mais precisava no presente momento, algo que eu pedia faz tempo – nem tanto assim, ontem tive esse silêncio também; mas é fato que cada vez eu preciso mais dele para me sentir em casa, confortável comigo mesmo. Faço projeções, reflexões, pondero. Entendo melhor o que me atinge no momento e consigo associar tudo. Nada se mostra de fora, excluído do sistema. Saio, pago a conta e caminho em direção ao carro, com aquele desejo por um papel e uma caneta. Desenvolver meus pensamentos na forma escrita me relaxam. Algo que é necessário para a manutenção da minha tranqüilidade, que na verdade nunca chega. Sou hiper-ativo-demais para isso. Às vezes percebo minha vida como um filme em que sou o diretor, o produtor e o protagonista, travando uma batalha constante contra quem investiu em mim e as inconstâncias da realidade prática – sempre se atracando com os meus roteiros.

Thursday, November 03, 2005

E com vocês... Julio Cortázar

"En suma, desde pequeño, mi relación con las palabras, con la escritura, no se diferenciade mi relación con el mundo en general. Yo parezco haber nacido para no aceptar las co-sas tal como me son dadas."

"Yo creo que desde muy pequeño mi desdicha y mi dicha al mismo tiempo fue el noaceptar las cosas como dadas. A mí no me bastaba con que me dijeran que eso era una mesa, o que la palabra "madre" era la palabra "madre" y ahí se acaba todo. Al contrario, en el objeto mesa y en la palabra madre empezaba para mi un itinerariomisterioso que a veces llegaba a franquear y en el que a veces me estrellaba."

Monday, October 31, 2005

Angelus, de Millet























Pode-se perceber sua incrível beleza na veracidade passada pelo pintor, que retrata a cena sem ser possível que encontremos traços de pinceladas - coisa que Da Vinci também fazia. Reza a lenda, esta já publicada em livro ao qual o nome eu não tenho acesso - maneira estilosa de dizer que não sei -, que Millet havia pintado este quandro com um caixão no lugar da cesta de palha vermelha. Quando uma oportunidade de participar de um concurso de arte surgiu, Millet teria mostrado a pintura que inscreveria no concurso a um amigo bem próximo. Este, por sua vez, o aconselhou a mudar algo na pintura, que ao mesmo tempo em que era demasiadamente bela, iria chocar a todos pelo que estava retratado nela. Millet teria substituído, então, o caixão pela cesta, colocado uns sacos de batata no carrinho e pintado umas batatas mais à esquerda, em frente ao ancinhó - essa mistura de pá com tridente. Algumas fontes também afirmam que Salvador Dalí teria sido o primeiro a descobrir que na pintura haveria um enterro disfarçado. Ele teria percebido que atrás da mulher, em frente ao carrinho, há um monte de ossos por cima da terra. Salvador Dalí fez diversas referências a esta obra de Millet, inclusive reproduzindo-a com precisão, como um quadro preso na parede da casa de um dos personagens de uma de suas pinturas - que também não sei o nome.

Friday, October 28, 2005

A chuva, carregando as bostas flutuantes

Chove mais uma noite. O tempo lá fora refletindo o que se passa em minha mente, um temporal, um fenômeno que vem de tempos em tempos, buscando limpar toda a sujeira que foi deixada ali. Lavo o rosto e cuspo sangue. Olho para o sangue, vermelho como a guerra, um nascimento, um renascimento. Era disso que eu mais precisava neste momento. Decepções, meu deus, como eu me decepciono! Essa mania de colocar as pessoas em um pedestal, acreditar em suas convicções vazias, seus desejos de ser algo que elas não são e nem nunca serão, porque não passam de umas bostas poluentes e errantes. O relógio mostra que estou atrasado, corro o risco de perder o show; mais uma vez. Sinto que meus pudores estão sumindo, me sinto mais confiante e ao mesmo tempo gostando cada vez menos do convívio social. Não de todo o tipo de convívio, lógico. o ponto é que, não acreditando mais nas falsidades e não sendo mais capaz de agüentar a pequenez de certos seres, acabo por selecionar demais minhas companhias. E isso causa um certo isolamento. Acredito que, no entanto, não esteja me sentindo mais infeliz – todos nós temos graus de infelicidade, cada um o seu -, muito pelo contrário! Uma vez que você passa a entender melhor quem você é e à que se dedicar, quais as coisas que te fazem ser singular, ser você, não há solidão que te abale – isso seria algo mais hipotético, não sendo totalmente absoluto, mas funciona, lógico. A melhor companhia que se pode ter é a sua própria. Mas isso só serve se você estiver de bem consigo mesmo, porque quando não se gosta ou não se entende realmente o que se é, tudo que se busca é estar na companhia dos outros, sendo a maior infelicidade a de ter que se deparar com a sua íntima realidade. Se olhar no espelho e conversar consigo mesmo, tentar se entender. Mas me parece, hoje, ser o único meio de se encontrar a tranqüilidade “espiritual”, a da consciência.

Wednesday, October 26, 2005

O mal necessário

Escrevo.
Aqui sento e me ponho a desenhar,
passando para o papel o mundo fantástico
que habita em minha mente,
com criaturas incríveis, viagens mais que impossíveis
e você.

Sua atenção eu nunca tive,
e nem, provavelmente, jamais hei de ter.
Suas palavras cruéis,
seus ímpetos destrutivos, embora inconscientes
- mas nem tanto; mostra seu desejo de quebrar as regras
e ver os limites -,
e seu jeito de contemplar.

Seu olhar me desconcerta
me faz acreditar no inverso das coisas,
minha realidade saindo dos eixos.
Sua boca,
seu beijo que já sonhei sentir,
sua pele,
minha desgraça e minha salvação.

Em meu sonho lúcido busco por você,
embora não saiba se, estando ao seu lado,
(?) seria realmente feliz.

Palavras tolas, embora sinceras, que me fazem caminhar parado. Estático, me resumo à minha insignificância, esta às vezes substituída pela glória de ser algo que ainda não compreendo - assim como todos os outros -, enquanto recebo aplausos silenciosos pela peça que representei e o mundo assistiu, mesmo sem ter percebido.

Friday, October 14, 2005

O fim de um ciclo

E mais uma vez acontece. Aquele momento do qual ninguém gosta. Ambas as partes tristes por ter chegado este momento, que mostra o quanto a mente humana é complicada e que, na verdade, estamos todos sozinhos no mundo – em termos. Ela olha para ele, tentando enxergar o que eu se passa em seu interior; quer dialogar. Ele, enquanto isso, tenta esconder a lágrima que escorre em sua mente, mas que ela pode ver pela sua expressão. Silêncio. Seus olhares se encontram, mas se perdem muito longe dali. Em suas mentem passam flashes dos dias que passaram juntos, quando ainda acreditavam no amor. Um amor que teria surgido como um acidente em alta velocidade, arrastando os dois para o mesmo lugar, sem mesmo se conhecerem, e transformando aqueles dois corpos, e suas mentes também, em uma coisa só, um único ser. Mas agora acabou, já ficou para trás. O medo de que não dê certo, a inconstância de quem foi criado em um mundo de contos de fadas e papai Noel, os fantasmas do passado e a errônea assimilação desta situação com outras ocorridas anteriormente. Tudo isso conspirando contra a felicidade dos dois. Ele coloca a mão no rosto dela e a olha com um carinho muito bonito e sincero. Ela suspira, vira os olhos e depois o rosto para o lado, e treme. Treme por saber que está estragando algo que lhe faz bem. Treme porque não entende. A mão dele continua a fazer carícias por alguns instantes e depois cessa. Ele se recolhe, respira fundo e se levanta. Neste momento ela já começa a sentir a sua falta e o olha como se estivesse prestes a perder algo que deseja com bastante força. Ele acende um cigarro e guarda o isqueiro no bolso. Olha para as luzes dos postes enfeitando a cidade à noite, num dia em que a cidade parece ter morrido, todos recolhidos dentro de suas casas como se sentissem a dor dos dois. Ela pede um cigarro. Ele pega o isqueiro no bolso, acende o fogo olhando nos olhos dela e pega em sua mão, que aperta com todos os seus sentimentos. Abre a mão dela, coloca o isqueiro dentro e fecha com a outra mão. Um sinal de adeus. Uma lágrima no rosto dela escorre. Lágrima esta que ele limpa com a mão e, puxando-a para perto beija seus olhos, ambos. Calafrios nos dois. Ele beija a mão dela e, esfregando-a em seu rosto diz adeus, sem nenhuma palavra. Ela pede para ele ficar, mas em silêncio. Ambos querem isso. Querem ficar juntos mais um pouco, ainda não estão prontos para andar sem a companhia que tinham. Mas, suas mãos se soltam e eles vão. Cada um para um lado, sonhando com o dia em que se verão novamente.

Friday, September 30, 2005

A caverna de cada um; ou, Neandertais de terno

Após lermos A Alegoria da Caverna, texto de Platão presente na obra A República, muitas idéias podem surgir formando um pensamento contemplativo bastante abrangente, onde diversos temas se vinculam de forma natural. A idéia seria pensarmos se nós, nos dias atuais, poderíamos aplicar o conceito da Caverna de Platão em nossas vidas. Eu poderia afirmar, com bastante convicção aliás, que sim. E o papo aqui é sério, porque não atinge apenas alguns cidadãos incapazes ou ignorantes, mas acredito que a maior parte da população existente no planeta. Um percentual aproximado seria impossível aqui, o que demandaria uma análise de outro tipo, esta levando bastante tempo e escoando parte da energia que disponho para terminar este texto que acabei de começar a escrever.
Costumamos acreditar que nossas vidas são controladas por nós mesmos, que conhecemos as coisas e que somos muito espertos. Mas o que se deixa passar é que estamos cercados por - ou, quem sabe, afundados em - vícios, hábitos, tradições culturais, medos e – vem agora a inércia da humanidade – preguiça. “Eu estou antenado com as notícias do mundo”, poderia dizer uma pessoa aparentemente bem informada. Bem, isso é o que ela acha. Não há como saber ao certo como anda o nosso planeta - ao menos assim tão facilmente como pode parecer. Para começar, nossas crenças são controladas, tanto pelas linhas editoriais de jornais e revistas, como pelos programas de TV. A esses podemos incluir as campanhas publicitárias – na verdade uma loja de fantasias, um verdadeiro baile de máscaras -, as instituições religiosas – sim, todas; não estou criticando a fé religiosa, mas sim as instituições -, nosso ambiente social e nossas famílias – ok, eu sei que as mães se esforçam para fazer o melhor.
Cada um de nós formou uma opinião sobre inúmeros assuntos desde o nascimento. Este conhecimento se baseia em nossas experiências individuais e pessoais, como também nas opiniões já existentes no enorme mundo complexo que nos rodeia e no qual estamos inseridos, independente de querermos isso ou não. As opiniões que formamos tendo como base idéias difundidas por outras pessoas, são conceitos que podem ser colocados a teste caso venhamos a passar por experiências que tenham condições de comprovar sua validade ou não. Se uma dessas opiniões nunca for testada, é possível que se viva uma vida inteira sem saber que acreditava-se em algo ilusório e irreal, mas com cara de verdade. E é aí que mora o perigo. Não sendo possível ter todas as experiências ao mesmo tempo, acreditamos naquela que nos for apresentada com argumentos mais bem estruturados. Seria como dizer que uma mentira bem contada pudesse se tornar verdade. Um bom exemplo disso seria a eficácia dos discursos de Hitler para o povo alemão. Ele, o povo, em grande parte estava certo de que seguia o caminho mais correto possível e que seu líder era um homem sábio – que era esperto ele era, sim; além de muito psicótico: um pintor frustrado que encontrou na destruição uma forma de ascender e entrar para a história, enquanto descontava toda a sua raiva em gente inocente.
Observando as crenças das diferentes populações – sejam de diferentes países ou até mesmo de diferentes grupos sociais, diferentes bairros – podemos perceber que cada um desses grupos tem crenças próprias limitadas ao que eles são capazes de enxergar. Se você pegar um aluno de engenharia química que costuma passar seu tempo livre jogando futebol na praia e coloca-lo em uma festa dos alunos de um curso de cinema, onde estes discutem filmes de Eisenstein ou Kubrick, mesmo que ambos estudem na mesma universidade, o choque será grande. É como se existissem infinitos universos paralelos. Agora, se você tomar o cuidado de levar em conta o fato de que cada ser humano é diferente, tendo como base os conceitos do parágrafo anterior, podemos imaginar a civilização toda como sendo composta por seres que andam carregando suas próprias cavernas, de um lado para o outro. Seres que vivem, de certa forma, alienados para quem está de fora, mas antenados com o seu mundo interior. Isto também serve para explicar porque as pessoas acham tão complicado entender umas às outras, tanto em relacionamentos amorosos como em relações de trabalho e amizade. Nossa imaginação é capaz de nos levar até um determinado ponto, mas, mesmo que ela seja muito criativa, jamais será capaz de prever com muita clareza as reações dos outros indivíduos. É daí que vêm os famosos mal-entendidos, responsáveis por constantes brigas e desavenças entre pessoas que acreditam se conhecer muito bem e esquecem que cada um possui suas particularidades – quando ocorre entre estranhos, então, o caso é mais sério, sendo mais rara uma reaproximação futura. Na verdade, todos querem ser entendidos, mas despendem pouco esforço para tentar entender o outro. Aquele que mora ao lado e do qual você precisará, cedo ou tarde. Sabe aquela frase que diz que ninguém é normal? Pois é, não há como alguém ser. Porque o “normal” não existe. O que é normal para você pode não ser normal para mim, e assim por diante. Normal, na verdade, é ser peculiar – os mais metidos costumam gostar mais de usar a palavra “idiossincrático”.

Wednesday, September 28, 2005

Ponderando

Ok, está na hora de mixar as lições. Segundo Winston Churchill, "nunca é tarde para você ser o que poderia ter sido" - ao menos é o que afirma um cartão Mica da Johnny Walker. Aristóteles dizia que a felicidade não poderia ser encontrada em nenhum prazer mundano - isso eu memso já pensava -, mas apenas na evolução e desenvolvimento das potencialidades que todos nós temos, cada um as suas. E, como poderíamos esquecer, os cidadãos de Esparta - não sei em que ano, mas faz muito, muito tempo... - enxergavam a felicidade como sendo a ascenção da honra frente à sociedade. Bom, mexendo um pouco aqui e um pouquinho ali, me toco que já está, novamente, na hora de sair deste caminho perigoso que é colocar o nosso bem estar nas mãos dos outros. Trabalho, concentração e mãos à obra. Ponto final.

Ps: volta e meia a gente acaba esquecendo disso tudo e se desesperando por causa de uma paixão - afinal, quem pode com a natureza?

Ps2: se você se pergunta sobre a veracidade dos horários em que tenho postado meus textos - por serem muito tarde, ou tão tarde que já passa a ser cedo demais - eu te respondo: sim, eles estão corretos.

Tuesday, September 27, 2005

Palavras malditas

O sangue escorre e ninguém vê. Com as forças arrancadas, já não é a mesma coisa estar vivo. Até mesmo andar se torna algo difícil. Evitar os remédios é necessário, eles não ajudam em nada, apenas te dopam. E fingir que está tudo bem não adianta, não serve. Esse papo de manter as aparências já foi longe demais. É hora de viver e sentir. Pena que para seguir um caminho às vezes parece que nossas pernas se quebram constantemente, venta forte como um fenômeno da natureza e o relógio conta as horas mais devagar. Ou mais rápido, dependendo do seu nível de distração. Quando algo de bom acontece, o tempo se escoa e logo não sobra mais nada. Apenas a lembrança, que aos poucos tenta se afastar e dizer adeus, sendo substituída por vultos sem muita vida. Vultos estes que deixam bastante saudade. Este texto é triste sim, além de não representar a completude das minhas crenças. Mas parte delas está aqui. Mesmo que não seja a parte que eu mais gosto.

Devaneios de uma noite comum

Com a vista cansada depois de tanto trabalhar em frente ao computador, termina mais um cigarro e olha para o nada, virando a cabeça para a sua esquerda. Pinturas na parede não parecem importar muito, uma vez que ele as atravessa e encontra sua própria mente por meio das pinceladas alheias. Uma estrada e um carro assinadas por um grande artista, e ele já começa se imaginando lá, dirigindo por aqueles caminhos tão distantes da realidade em que se encontra. Seria bom. Na verdade, seria bom demais dar uma volta, um passeio e relaxar.
Levanta-se. Abre a porta da varanda e olha a chuva. O vento frio carrega a chuva fina, trazendo um cheiro de natureza para se encontra em seu percurso. Fecha os olhos e sente. Uma tranqüilidade inesperada, como todas as coisas maravilhosas que não programamos e nos acontecem sem aviso prévio, mostrando-nos o quanto nossas vidas podem ser gostosas se nós simplesmente deixarmos.
A chuva lava a alma da rua, enquanto poli o corpo do nosso personagem. Sim, porque neste instante eu o divido com vocês. Pode parecer que se trata de um monólogo, mas apenas para os mais ingênuos. Não há texto que seja lido e compreendido sem que haja uma interpretação e uma reação da parte do leitor, e isso faz com que a leitura se torne um diálogo. Agora, voltemos ao nosso amigo...
Uma lágrima que não sai se manifesta, mas por dentro faz suas batucadas. Dor e saudade. Arrependimento, infelizmente. Não fez o que poderia ter feito, mesmo sabendo que seria o melhor, e agora se sente só. Pegando o maço de cigarros com a mão esquerda, retira um deles com a outra – mão, no caso. Abre o isqueiro prateado e não o acende, o admirando com um olhar fixo. Foi um isqueiro caro, mais uma das frescuras da cultura consumista. Bonito, reluzente e inútil. Seu único objetivo é facilitar um vício idiota que não traz sua amada de volta, apenas engana uma ferida para abrir outra. Estendendo a mão, larga o isqueiro do alto do 17º andar, sem se importar com os detalhes decorrentes desse ato. Joga os cigarros no lixo e vai para a sala de estar.
Volta da sala trazendo um copo com gelo e uma garrafa de whisky. Não abria nenhuma há tempos, sendo que esta ganhara em seu último aniversário, justamente da mulher que lhe faz tanta falta hoje. “Vou encerrar isso agora.”, pensa ele, tratando a situação como uma expressão simbólica, um ritual de liberdade onde exalta o fim de uma época. E começa...
Dentro de um túnel escuro, e sem saber onde foi se meter ou como, ele escuta uma sirene, em alto em bom som. Muitos ruídos, todos eles ressoando sem parar pelas paredes torturando-o. Parece que está dentro d´água e tenta nadar, sem saber que rumo poderia tomar. As vozes perturbando sua consciência parecem cada vez mais presentes, todas elas ao longe e chamando-o para diferentes destinos. Um inferno molhado, poderia se dizer. Agora uma luz forte, como se fosse um carro andando sob a água acende o farol alto e ele não consegue enxergar nada. O veículo buzina insistentemente, como se avisasse o inevitável. E bate, de frente. Seu corpo é lançado às dezenas de metros de distância e ele não consegue perceber a dor, embora se mantenha perfeitamente consciente. Como em câmera lenta, ele gira seu corpo e sua cabeça, involuntariamente, olhando para a escuridão absoluta, que parece ter suas próprias formas e sombras; bem diferente de um vazio negro. Presta atenção na respiração. Ela se mantém. E, começa a entender que agora é a hora em que ele cai e, provavelmente, se quebra todo de encontro ao solo.
A queda. Dói um pouco, mas nem tanto. Escuta um som de vidro acertando o chão, mas sem se quebrar. Novamente muita luz e seus olhos ardem. Percebe que suas mão obedecem ao seu comando e levando-as até a vista, abre os olhos. Reconhece onde está. A sala de estar. Caído em frente ao sofá, com a garrafa de whisky vazia caída no chão, dois metros distante de onde ele está. O telefone mostra duas chamadas não atendidas e recados de voz, certamente confundidos com a buzina insistente do veículo que o atropelara e as vozes que o chamavam durante o sonho.
A noite foi agitada e ele está cansado, mas agora recomeça a rotina de cada dia. Entra no banheiro e tira a roupa. Olha sua imagem no espelho, esticando a cara e as sobrancelhas. Pega uma toalha, a coloca ao lado do box de vidro e entra para debaixo do chuveiro. Abre a água fria e, jogando a água no rosto com as duas mãos, fecha os olhos.

Friday, September 23, 2005

Vagando por aí













Landscape Beach
by Guy Denning


Livre para andar, vagando sem rumo pré-definido. Muito bom. Posso até sentir a brisa gostosa me acariciar a face, embora não se passe de imaginação; na verdade aqui não venta. Mas vejo as forças que se espalham por todos os cantos, formando novas dimensões e parâmetros para o que, mais tarde, irei chamar de realidade. Me deixo levar e vou. Lógicamente que com um certo receio escondido no fundo das minhas vontades, mostrando o quanto o comodismo - e a inércia - costumam causar aquela falsa sensação de segurança. Só que hoje é o meu dia, hoje eu venci. Hoje estou livre! Hoje... ao menos hoje.

Monday, September 19, 2005

Eterno enquanto dure

Assim, na frente de todos. Mas, ao mesmo tempo, sem ninguém por perto. Pudores demais não são pra mim; coisa de gente careta. Vou te beijar, vou te adorar, ao menos até o dia em que passemos a nos odiar. E aí, quem sabe, talvez possamos ser amigos; ou não.

(foto por Robert Doisneau)

Saturday, September 17, 2005

Um misto de paz com fantasia




















Wedded Rocks - Ise bay, Japan, 2001
by Rolfe Horn
www.f45.com

Em estado de choque - deslumbramento



















My Darkest Hour, David Ho
www.davidho.com

Estou despertando uma inspiração, para a composição musical, com essa minha nova aventura pelas artes visuais. Quando vi esta imagem, além de maravilhado, ouvi o som de uma guitarra linda e poderosa, ao mesmo tempo que cruel e macabra. Ele - o som - na verdade não existia; ao menos até o momento em que eu liguei o amplificador e o executei. Encontrei uma nova fonte de inspiração.

Vontade de arte - sim, mais arte ainda!















Mourner, digital, 2004
Analog & Digital Art Chet Zar

Tuesday, September 13, 2005

Manias, leques e a cultura popular

Alguns hábitos parecem não ter nenhum sentido mesmo. Como por exemplo o modo como as pessoas falam - "e quem esse cara acha que é para se colocar em terceira pessoa? Ele se acha uma não-pessoa? Bom, estando em 3a pessoa ele já se torna uma pessoa de qualquer modo". O não costuma ser o pivô de alguns desses casos. Como quando você chega em casa e vê seu irmão mexendo na sua gaveta - coisa que te irrita - e você pergunta o que ele está fazendo. Você e ele sabem que ele está colocando a mão onde, a princípio, não deveria. Mas, qual é a resposta que ele poderia dar em um caso desses? "Não, é que eu estou procurando uma caneta para escrever o...". Como assim "não"?! Está ou não está? Ou quando a sua mãe lhe pergunta “você vai sair de carro agora?” e você responde “não, é que eu vou na casa do fulano (o que é mentira mesmo...), mas eu já volto”. Parece que as pessoas tem medo de dizer “sim, estou fazendo isso mesmo, pode acreditar!”
Outro caso recorrente é o de uma metáfora que todo mundo conhece, mas ninguém reclama de ser ridiculamente mal construída. "Ampliar ao leque". Isso mesmo, ampliar o leque. Entendeu? Ok, vou explicar. "Vou fazer este curso para ampliar o leque de possibilidades", dizem alguns, bastante confiantes, aliás. Agora eu te pergunto: Você já viu alguém ampliar um leque?! Mas é claro que não, pois um leque não se amplia! Você pode abrir um leque, mas para ampliar acredito que nem mesmo quem sabe fazer leques se daria ao trabalho de ampliar um, mais fácil seria fazer outro maior. Vale lembrar que se estamos falando de uma metáfora, é preciso entrar no clima, sem fazer jogo de palavras pela metade - provavelmente isso veio de um hábito da cultura popular, da ignorância; assim como a lenda de que fazer a barba após o almoço causa a morte imediata... é minha filha, não é mole não. Então, acredito que seria muito mais sensato dizer "vou fazer este curso para trocar de leque". Ou até mesmo - o que eu julgo como sendo a melhor opção - "isso com certeza irá ABRIR o meu leque". Sim, porque um leque pode ser aberto ou trocado, mas eu nunca ouvi falar de alguém que o levasse para um artesão que fosse ampliá-lo. Se você não concorda, tudo bem. Pode ir procurando alguém que amplie o seu leque. Eu prefiro o costume oriental de, antes de se abanar, abrir o tal do maldito leque - não agüento mais escrever esta palavra. E, outra coisa, abrir o leque é uma analogia de como uma pessoa nasceria pequena e poderia ir crescendo, baseando-se no que seria possível esta alcançar com os seus potenciais, estes presentes desde o seu nascimento - o leque também nasce com o mesmo potencial de abertura que ele alcança quando "estimulado" ao máximo.

Sunday, September 11, 2005

E um brinde à preparação...

"Se eu tivesse nove horas para cortar uma árvore, passaria seis horas afiando meu machado"

- Abraham Lincoln

Saturday, September 03, 2005

Cuidado com certos indivíduos

Algumas pessoas parecem verdadeiras tempestades. De uma hora para outra o tempo se transforma – para melhor ou para pior, neste caso – e isso causa um susto em todos ao redor. Suas atitudes são muitas vezes pouco pensadas, elas vêm por instinto. Não um instinto animal, agressivo, mas um instinto que vem do inconsciente, verdadeiro e exagerado, como se houvesse entre essas pessoas e o resto do mundo uma lupa que engrandecesse tudo o que ocorre.
Pessoas assim mudam da água para o vinho sem aviso prévio. Elas conseguem até mesmo transformar o dia seguinte ao dia em que elas realizaram seus sonhos em um dia infernal, como se tudo conspirasse pela sua derrota.
Complicados, esses seres imprevisíveis andam por aí, livres e soltos, sem que ninguém faça nada! Cuidado, eles podem estar em cada canto, em cada esquina, em qualquer lugar. Quando você conhece um indivíduo simpático e acredita é uma pessoa normal, principalmente nesses casos, eles são bem suspeitos – até porque ninguém é normal, faça-me o favor...
Agora relaxe. Aqui você pode descansar, está em local seguro. Protegida de tudo e de todos esses psicopatas de plantão, todos esperando uma oportunidade para estragar o dia, a semana ou quem sabe o mês!, de um pobre inocente que saiu apenas para tomar uns drinques sem fazer mal algum a quem quer que seja.
Não precisa ter medo... hahaha, HAHAHAHAHA...- mais um idiota para a minha lista.

Tuesday, August 30, 2005

Hoje não tem título

Penso nos poemas como uma forma de expressão que ocupa menos palavras. Não chega a ser menos do que certas frases de impacto, mas estas dão mais certo para escritores famosos ou celebridades – até mesmo em revistas de fofoca. Algumas pessoas me dizem que não gostam de poesia, que acham um saco. Bom, eu seria muito suspeito para falar, porque eu escrevo os meus poemas, mas aqui vai uma verdade – peço que guardem segredo: não leio poemas. “O que??!! Como assim você não os lê?! Vai escrevendo assim, sem mais nem menos?” A resposta é sim. Não tenho esse hábito. Já até mesmo me programei para ler um ou dois por dia, durante a noite, mas não dá. Não sinto aquela atração que te faz correr numa direção específica em busca daquilo que você tanto deseja. Muitos poemas eu acho maravilhosos, mas alguns você lê e pensa “e daí?”. Mais engraçado é quando isso ocorre com textos de escritores famosos, considerados incríveis, gênios. Para mim é muito mais fácil escreve-los, sendo muito difícil ficar quieto quando chega uma inspiração rompante. Quanto à parte da escrita, prefiro os textos de uma página ou duas, corridos. Muitas vezes não sei como classifica-los, apenas os encaro como sendo reflexões, divagações, mas ao mesmo tempo nada que eu pudesse chamar de “um conto”. Clarice gostava disso – nossa amiga, a Lispector. Para ela não tinha essa de ficar classificando os textos. Muito menos prendê-los a estilos específicos. Isso seria impedir a inovação, a fluência, a criatividade. À arte não podem ser impostas barreiras, regrinhas bobas, nada disso. Devemos deixar tudo fluir, sem preconceitos, para que possamos transpor nossos próprios limites e descobrir do que somos realmente capazes – senti uma leve vontade de me enveredar pelo tema do controle que a sociedade faz sobre nós, nos podando, ditando nossas opções possíveis e cortando fora o que não se encaixa nos padrões; tudo para manter aquela falsa imagem de segurança e certeza sobre as verdades da vida...

Monday, August 29, 2005

A vida vivida

Quero sofrer
Quero correr
Quero cair e me levantar
Quero ver o sol nascer
Quero ver meu amor indo embora e isso doer
Então vou querer um outro amor

Quero muito de muita coisa
Quero apostar
Quero vencer e também quero perder
Acertar sempre é muito chato

Não quero ser perfeito
Quero ver tudo e ver todos
Ver quem eu gosto e também quem me irrita
Estes tendem a me fazer aprender
Nem que seja o porquê de eles serem assim

Quero ver a dor, entender que não são tudo flores
E que, se o mundo fosse feito de sorvete,
iria engordar muito
E muitas vezes seria mal feito também

Algumas coisas me perturbam
Mas eu também perturbo,
Não fico quieto frente às coisas!
Podem reclamar à vontade
Apenas não esperem que eu concorde
- de qualquer forma vai ser bom –

Pessimismo?
I don´t think so
Eu não tenho tempo pra esse tipo de coisa
Estou aqui pra viver

Monday, August 22, 2005

Veio se meter onde não devia, se deu mal

Uma mosca posou na minha sopa. Maldito Raul Seixas...

Música: "Ligh my fire", the Doors

Sunday, August 21, 2005

Chico Buarque, na voz de Seu Jorge

Todo dia ela faz tudo sempre igual Me sacode às seis horas da manhãMe sorri um sorriso pontual E me beija com a boca de hortelãTodo dia ela diz que é pra eu me cuidar E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar E me beija com a boca de café
Todo dia eu só penso em poder parar Meio-dia eu só penso em dizer nãoDepois penso na vida pra levar E me calo com a boca de feijão
Seis da tarde como era de se esperar Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar E me beija com a boca de paixãoToda noite ela diz pra eu não me afastar Meia-noite ela jura eterno amorE me aperta pra eu quase sufocar E me morde com a boca de pavorTodo dia ela faz tudo sempre igual Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual E me beija com a boca de hortelãTodo dia ela faz tudo sempre igual Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual E me beija com a boca de hortelã

Saturday, August 20, 2005

Na espera

O roteirista de Pulp Fiction, o diretor de Forest Gump, John Malkovitch, Anthony Hopkins e Angelina Jolie (!!!!) estão rodando "Beowulf" - poema épico britânico escrito por volta do século 8, contando uma antiga história de um herói escandinavo que durante suas explorações salvou os dinamarqueses do monstro Grendel -, com estréia prevista para 2007.
Com licença, depois dessa até preciso pegar um pouco de ar...

Ps: Angelina interpreta a mãe do monstro.. aposto que ela está adorando...

Trilha: "Purple Haze", Jimi Hendrix live at Woodstock

Friday, August 19, 2005

Perdidos no meio da selvageria

De uma forma mais ampla e prática, as coisas não mudam de forma a facilitar as nossas vidas. Essa é a tendência, que abocanha os despreparados, deixando-os na amargura. Mas, uma possibilidade que nós temos, e essa ninguém pode, e nem deve, nos tirar é que sempre podemos seguir outros caminhos. A caminhada é dura, mas podemos fazer a nossa própria trilha no meio da selva.

Wednesday, August 17, 2005

Mark Twain 1

"Meus calorosos votos e imensas esperanças natalinas de que todos nós possamos nos reunir em eterna paz e felicidade (exceto o sujeito que inventou o telefone)."

Dicas Úteis para uma Vida Fútil - um manual para a maldita raça humana

Só uma frase

Tem gente que acha que a vida é uma corrida de 100 metros. Esses se estrepam. Na verdade são 100 metros com barreiras.

Não costumo seguir a linha da ficção científica, mas...

Marionetes

Estão todos aqui. Sentados em suas respectivas cadeiras, atentos à explicação do mentor. Mas algo não está certo. Suas afirmações são recebidas sem a menor objeção, entrando direto nas redes de arquivos neurais consideradas como sendo cientificamente comprovadas – e o que isso quer dizer, afinal? Verdades absolutas, mesmo quando não fazem sentido. E ninguém move uma palha.
Um pio e você está fora. Nada de canja ou colírio. Aqui também não há almofadas. É joelho no milho e só. Discutir, forma mais imperdoável de blasfêmia, é sinônimo de uma passagem de ida, apenas, para o inferno. Até tu, Sócrates? “Sim, até eu, meu caro”. Seria pior do que este lugar, onde um simples fruto da curiosidade te condena? Não há como ignorar o conhecimento uma vez que ele é posto em sua frente, ele te tenta, tenta e você nem tenta mais resistir.
De cara a cara com o mal, eu o desafio, e vejo o que eu não queria. Mas hoje eu digo que se voltasse o faria novamente. O chão se abre. Uma armadilha. E enquanto o peso do meu corpo me puxa rumo ao obscuro e desconhecido, observo o antes inimaginável. Fios condutores, todos ligando a cabeça do mentor as cabeças dos demais presentes, nesta sala quadrada absurdamente claustrofóbica, embora antes parecesse ser bem ventilada. A cada gesto ou expressão facial, ou até mesmo um passo, choques são dados. E com os choques, impulsos nervosos já e controlados organizam as mentes.
Com a queda, o fio em mim se rompe. Agarro-o por reflexo, mas precisão. Eu o puxo com bastante, apoiando meus pés nas paredes do túnel vertical que ansiosamente espera para me engolir. O caos reina no recinto. Raios frenéticos para todos os lados. Corpos queimando com seus olhos virados. Os mais resistentes me lançam um olhar de desdém e ódio. Alguns destes, meus fiéis amigos. Minha visão se distorce e eu deixo de sentir.
Escuridão. Um som abafado, estranho. Parece que algo me isola da existência, da realidade. Do mundo todo. Tento me mover e sinto algo cremoso e ao mesmo tempo denso envolvendo todo o meu corpo. Ouço mais sons vindo de fora, mas nada vejo. Canalizo, então, minhas forças todas e me sacodo. Sem parar. Como se estivesse dentro de um balanço. Tudo parece ir de um lado a outro. Vai e vem. Me mexo ainda com mais força, toda que sou capaz. A dor me acerta em cheio, queimando meus músculos já sem oxigenação, mas eu não desisto. Não agora. Deve haver uma saída. Estou ficando cansado, sem força alguma. Me esgotei, mas minhas esperanças não se foram. Vou ficando sonolento. Muito sono, muito sono. Acho que não serei capaz de vencer. Não posso dormir, não posso... não posso... dormir... durmo.
Seres estranhos se comunicam do lado de fora, enquanto estou imerso em meu sono confortável. Uma paz... Súbito, acho que estou em movimento. Estou caindo! Nada posso fazer. O impacto, semelhante ao acidente de um carro, só que neste caso eu estou envolto por airbags “cremosos”. Minha cela se abre. Vermelha, ela se assemelha a um caqui, gigantesco e todo esparramado pelo chão. Pela terra, na verdade. Estou no meio do mato, e, com a fome que estou, como todo o imenso caqui. Ah, que delícia!
Minha mente agora, mais do que nunca, me avisa que os ventos vindo da esquerda são o indício de que existe algo a ser descoberto. Vejo areia. Ando mais e encontro uma praia. O mar sem fim, lindo como eu poderia desejar. Vou a ele e ponho os pés na água. Hesito. Me indago. Será que é isso que eu busco? Isso me fará feliz?
Mergulho na água e nado. Sem parar.

Tuesday, August 16, 2005

De frente para o mar

O tempo fechou
A dor chegou
E o outro tempo agora cessou de passar
Inconstantes, pensamentos fazem rodar
O odor da discórdia,
A saudade do teu calor, e muito mais,
Batem com força

Estas calçadas vazias
Cheias de gente
Sozinho, aceno aos passantes
Todos cegos
Surdos, mudos

As ondas, o sol morto que da lugar à lua
O vento.

Carros perturbados, mentes cansadas
Todos pedindo paz,
Arrego
Eles e eu

Noite passada,
Noite feliz
Um sonho que parecia não acabar
Hoje,
A ressaca;
Mas não de ontem.

Sunday, August 14, 2005

Próximas lembranças

Eu
que vindo de longe sem deixar de estar perto
que declamava palavras bonitas dentro ne minha própria mente
e sentia o frio de baixo de muito sol,
voltei

Voltei de longe
bem longe mesmo
tão distante que parece incrível como eu tenha conseguido voltar

Agora olho essa casa
vazia e maltratada
que hei de cuidar uma vez que estou de volta

Meus poderes como humano medíocre são maiores
e meus medos, bem.. esses continuam por aí
mas eu os tenho enfrentado, preciso ressaltar

Um salto
Atravesso o espelho

Olhando por dentro de mim mesmo, mais a fundo do que antes
entendo os porquês
vários deles
mais do que transparente, a verdade se reflete
e se mostra ao infinito

Infinito de sonhos que agora vivo
sabendo escolher melhor
quais as cores ideais
que irão marcar as minhas próximas lembranças

Tuesday, August 09, 2005

O fantástico mundo de Bob, no país das maravilhas

A mente criativa de um homem produz imagens extraordinárias. Algumas destas, porém, não tão belas.

Friday, August 05, 2005

Compositor de fibra

Difícil escolher o que deixar no HD, para abrir espaço em disco. Minha sede atual por arquivos de música está sem limites. Nós últimos dois dias, só para exemplificar, adicionei 11 álbuns diferentes à minha pasta reservada para tal finalidade. E a lista do que falta só parece crescer, mais e mais. Entre os que baixei estão Wilco, Arcade Fire, Bob Dylan, Ed Harcourt, Sigur Rós, The White Stripes, Pavement, The Kills, Josh Rouse. E falta muita coisa ainda. Falta também tempo pra ouvir isso tudo!
Mas, uma coisa eu não faço: correr o risco de deixar um artista extraordinário se manter distante do meu conhecimento apenas por descuido. Muitos dos meus preferidos tiveram uma oportunidade rara de se fazer notados pelo meu universo musical, até então ignorante quanto à sua existência.
Uma dica importante para quem gosta de música - e não fica muito feliz em desperdiçar oportunidades: Ed Harcourt. Este é o nome que mais me cativou nos últimos tempos, sendo que adquiri mais discos recentemente que o humanamente natural - muito mais até do que você está pensando agora... não, bem mais do que isso também.
Quem puder, as dicas são a música "God Protect Your Soul" e o site www.edharcourt.com , onde há uma música do CD novo e três vídeo-clipes ( dois funcionando). Ao abrir o website a música toca automaticamente.

Saturday, July 30, 2005

Um filme incrível

Assistam "Sin City - A Cidade do Pecado". Um show de atuação, de imagens, de criatividade, de música e de violência. Surpreendente.

Wednesday, July 27, 2005

Rumo à China

Descobri que tenho uma atração forte pela cultura chinesa. Após assistir aos filmes "Herói" e "O Clã das Adagas Voadoras" decidi que eu teria as trilhas sonoras de ambos os filmes. Adquiridas as trilhas, começei a procurar informações a respeito da cultura deste interessantíssimo país. Língua, caligrafia, música, instrumentos tradicionais, história, artes marciais.. é um mundo incrível, bem distinto do nosso mundo cotidiano, que está a nossa espera, basta que nos interessemos em buscar.
Os bons motivos não são poucos. Fala-se muito em trabalhar a mente, sabedoria e meditação contra o stress, e os chineses são craques nisso. Levando em conta que a sabedoria deles é milenar, que o violino foi inventado lá, o Fen Shui também e muito mais -como a medicina chinesa, que dizem ser incrível - não tem como ignorar essa grande potência e constante evolução.
A caligrafia para eles não precisa ser apenas o ato de escrever. Para eles a caligrafia é uma arte - e ao que me parece, pode ter relação também com a arte do domínio da espada; bom, isso é algo presente no filme Herói, mas não confirmei ainda a veracidade da informação.
Prestem atenção nos cursos de Chinês - "língua chinesa", no caso. Eles estão surgindo aqui e ali, cada vez menos tímidos. Um amigo disse que teve que entrar numa lista de espera para poder fazer um desses cursos, o que levou quatro meses - a espera, não o curso; aliás, fico imaginando quantos anos vou levar pra aprender esta língua... sim! Eu quero aprender chinês!
Wi-wo its trrê! Não sei se significa alguma coisa. Só espero que não esteja xingando nínguém...


Não consegui evitar, precisava continuar este texto - só mais um pouquinho, ok? Imagine só conhecer os monumentos antigos, a vegetação magnífica e poder ler na língua original o que todo mundo lê reciclado - e quem sabe, remixado. Isso vai muito além. Muito mais do que ir pra São Paulo ou para um outro país tão ocidental quanto o Brasil.

Tuesday, July 26, 2005

Em dia com o cotidiano

Na tentativa de manter este blog atualizado, inicio estas palavras. Sentado aqui em frente ao computador, que nem sempre obedece às minhas ordens, descanso da caminhada que acabei de fazer. Se fosse apenas uma caminhada seria mais fácil, mas fui passear com a Fox, cadela daqui de casa - uma aquisição recente. O nome dela, no caso, foi dado pelo meu irmão mais novo. À princípio eu também estranhei o nome - tenho certeza de que VOCÊ estranhou antes de eu comentar -, mas quando me recordo dos estúdios produtores da sétima arte me sinto mais tranqüilo. Ela me deu muito trabalho. Desde esmagar minha mão direita - eu enrolei a coleira dela para poder controlar melhor os movimentos dela - à quase me fazer cair no chão. Nunca vi um cachorro que não deixa o dono correr ao seu lado por tentar mudar de lado a todo momento. Por causa disso só pude caminhar, fazer o que... Bom, chamei de cachorro porque nem sempre me refiro a ela como "cadela" - costumo usar "cachorra" também.

Uma boa notícia! Logo quando estava descendo para almoçar, o telefone toca.
- Alô?
- O Guilherme, por favor.
- Sim, sou eu.
- Guilherme, aqui é da zona eleitoral. Haverá uma votação para a lei das armas em breve e a votação será obrigatória. Como você foi primeiro mesário na eleição passada, gostaríamos de convocá-lo para ser presidente de mesa.
- Eu já trabalhei uma eleição em Teresópolis e duas no Rio. Pela lei só preciso trabalhar três, não é?
- Sim, mas você precisa trabalhar três vezes aqui para que a juíza possa te liberar. Você tem uma semana para tomar posse.

Desligo o telefone com uma felicidade que não cabe no meu peito e desço para almoçar - com medo de que a comida não caia bem...

Saturday, July 16, 2005

Por ali

Deito e vejo os outros
vejo você
nos vejo correndo para bem longe
sua malas feitas às pressas
o anseio por algo novo
misto de medo e liberdade

Sua vida escorre, se esvai
continue respirando
tenha forças
estamos quase lá

Quem sabe por aquela janela
encontro uma floresta
pura e selvagem
esperando por nós dois?
Crescendo sem rumo e sem fronteiras
buscando o infinito e o impensável

Thursday, July 14, 2005

Desconstrução

Olhando para o céu, ele vê o inevitável, busca um abrigo, meteoros por todos os lados - um dia isso iria acontecer -, pare de gritar e olhe, não pode fugir, o nosso destino é o mesmo, por baixo destas pedras quentes, o nosso sangue podre, toda uma existência ignorada, e o medo de perder o que não gostava de ter, a dor se vai e vem a calma, não é escuro, abra os olhos, chovem as lágrimas de ontem, lavando a dor.

a porta está perto, apenas mais um pouco...

Sunday, July 03, 2005

Re-descobertas

O mundo, as verdades, as realidades – as percepções. Todas elas juntas me dão um banho. Um banho energizante, abrindo a minha cabeça, que neste momento apenas admira quieta. Este espanto chega quando eu achava que já sabia o suficiente para que um choque como este não viesse a ocorrer novamente. Mas, enxergo novas cores agora. É como se eu estivesse entendendo aqueles tons que aparentemente são iguais – ou parecidas demais para serem notadas –, mas os designers conhecem o seu valor; são imprescindíveis.
O engraçado é que, ao mesmo tempo em que percebo melhor as coisas, acreditava que se pegasse a caneta, não sairia nada neste pedaço de papel. Mais descobertas.
Ok, não saiu quase nada mesmo. Talvez fosse melhor deixar este texto de lado e ir fazer algo de útil. Talvez não. O que poderia ser mais útil do que tentar evoluir em cima de algo que parece não estar tão bom quanto deveria? Bem, se formos partir do ponto de que nada faz sentido, tanto faz a resposta. Mas eu ainda acredito que valha a pena. Não estou escrevendo sem um motivo – por mais que eu ainda não saiba qual seria este -, portanto, não acho que deveria parar.
Desta vez quase parei. Do último parágrafo para este levei cerca de uns 40 minutos! Tinha até mesmo ameaçado desligar o computador, enquanto me levantava! Bom, saiba que eu enganei você, levei apenas um minuto.
Sobre o que estávamos falando mesmo?

Friday, July 01, 2005

Nosso amigo Albert

Criativo, pacifista, genial. Sua capacidade de compreensão aliada a sua determinação, que por sua vez tornou possível tamanha concentração, foram importantes para todos os que vieram depois. Sua vontade de saber, de aprender, de fazer era inquestionável. Autodidata, ele se isolou e foi construir o seu. Era independente e irrefreável. Não gostava de convenções, de regrinhas idiotas, de toda essa baboseira que reina por aí, por aqui, por todo canto que se olhe. O desejo de entender os mistérios da natureza, do mundo que nos cerca, foram o combustível para essa força que ele tinha.
Seus trabalhos mudaram o mundo. Mas, infelizmente, ele não conseguiu a paz. Mudar o mundo é bem diferente de consertá-lo. E mesmo porque, algo que se conserta pode cair no chão novamente. As bombas que destruíram as coitadas das duas cidades lhe causaram tristeza. Um pacifista vendo suas palavras tornarem possível a destruição de inúmeras vidas. Mas ele avisou. “A bomba acabou com a guerra, mas não trouxe a paz.”
Um dos poucos cientistas alemães a evitarem a primeira guerra, tendo pedido para se naturalizar suíço, ele pensava. Pensava de forma independente. “Se eu achar que sei, vou parar de descobrir.” Ele buscou, por meio do esforço, o que muitos de nós deixamos por causa da falta de consciência.
Dez por cento inspiração, noventa por cento transpiração.

Wednesday, June 29, 2005

Tudo muito simples

Tudo, com o tempo, se mostra como sendo mais simples do que parecia ser inicialmente. Mesmo quando achamos que estamos enfrentando uma situação muito difícil. A nossa surpresa frente ao que é um novo problema - que deve ser resolvido como sendo um problema mesmo, como fazíamos no colégio - sempre nos assusta.
Enxergo as coisas como sendo feitas de complexidades simples. Resolvendo-as de forma analítica, desmontando-as e fazendo 1+1+1+1, e por aí vai, encontramos melhores - na verdade mais fáceis e verdadeiros - resultados.

O tempo passa e,
com graça,
a idiotice diminui.

Friday, June 24, 2005

Homenagem

Algumas pessoas têm a capacidade de marcar nossas vidas de uma forma absurda. Sua relevância se dá de forma tão acentuada que causam um choque, um susto. Nos fazem gostar mais da vida, do mundo a nossa volta. Nos alimentam com mais vontade de viver. Uma personalidade fantástica, diferente do que estamos habituados a encontrar, que deixa marcas feitas de gostosas lembranças. Que não causam dor, apenas bem estar. E com certeza um outro bem estar além deste. A esperança de que iremos encontrar essas pessoas logo, em breve, as soon as possible. Deveria ter escrito em francês, mas não o fiz. Aude, este texto é para você, assim como o foi um outro, tempos atrás, e, sem sombra de dúvida, serão vários outros que o futuro nos reserva. Sinto saudades, mas de uma forma boa, que aquece. Um sentimento tão forte que ainda não entendi por completo – e na verdade nem preciso, já é bom assim. Ok, chega de babação.

Wednesday, June 22, 2005

Uma letra com várias outras

Livros caetano veloso

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando para a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou - o que é muito pior - por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.

Monday, June 20, 2005

Pão e circo

"Senhor, o povo está revoltado, não tem comida, está doente!, Dê a eles então festas, jogos, lutas em arenas para que eles se distraiam e fiquem com a ilusão da felicidade!, Senhor, que tal se incentivássemos os jogos de futebol? Poderiam, além disso tudo, tornar o nosso país de terceiro mundo um país internacionalmente conhecido!, Isso, dê a eles também ídolos, para acreditarem em algo e acabarem aquelas idéias de revoltas..."

Tuesday, June 14, 2005

O sentido da vida

Toda a beleza do mundo num só ser
Exagerado, não creio estar
Basta ver.
Olhe em seus olhos
E compreenderá
Que não falo besteiras
Para o tempo passar

Quando ela sofre
Sofro eu também
Ouvindo, de braços abertos, o céu dizer amém
Com meus olhos honestos
Em meio a esse vai e vem

Um sorriso, um aceno
E mais uma vez ela me aprisiona,
Enquanto eu mesmo me condeno,
Nesse sufoco ao qual a vida me impulsiona.
Um sentimento nada ameno
Misto de prazer com desespero
Na encruzilhada deste enigma,
Em frente ao sol e à lua cheia,
Aos quais, de joelhos, faço um apelo.

De certo não é ela
A única donzela
Mas com segurança afirmo e bato o pé
Exaltando com esta goela
Que nem mesmo ventos e trovões
Me afastariam das emoções
Que sinto ao vê-la chegar
De passo em passo, de ar em ar,
Essa moça magnífica que um dia
Em minha vida resolveu entrar.

A ti, bela moça, jogo meu olhar
É com você mesma, não se engane
Pode encarar.
Ando neste deserto,
Não obstante o frio ou o calor,
Buscando uma chance para em seus braços estar
Dispondo a você meus músculos,
Meu calor e todo o meu ar.


Neste sonho quero estar
Amarrado a ti como nenhum outro há
Me derretendo ao odor do teu perfume
Nas noites de vazio e de tristeza
Em que vejo o sentido da vida
Todo presente na leveza
Que encontro neste mundo
Quando miro o teu olhar.

Infinito este poema poderia ser
Não tendo um fim por agora
Ou quando o amanhecer
Mas no momento não busco a glória
Apenas quero ver
Se estas meigas palavras te comovem
E enchem a sua alegria de viver.

Tendo dito a que vim
Então me refaço
Esperando por ora
Um outro compasso
Em que me beija, me abraça
Me adora e eu renasço.

Wednesday, June 08, 2005

Frases de Émile Coué

"Ilude-se quem acredita não ter ilusões."


"Não passe o tempo a procura de doenças que você possa ter, porque, se não tiver as verdadeiras, você poderá criar as artificiais."


"Não é a sorte que nos faz, somos nós mesmos que nos fazemos."

Monday, June 06, 2005

Sobre Oscar Wilde - iniciado nos comentários do último post

Ele não precisa estar absolutamente certo. Existem pontos de vista, e não a tal da "verdade", nestes casos.
As coisas simples se expandem aos nossos olhos quando descobrimos a incrível complexidade de cada sistema, sendo ele de idéias ou de qualquer outro tipo. Além da inter-relação entre as coisas, existe também a relatividade. Verdade única, absoluta e com apenas um lado, se unirmos todos essas três características, encontramos o fanatismo.

Somos atores, interpretando papéis, sendo enganosos com e próximo e com nós mesmos, manipulando a verdade, a realidade, criando assim uma proteção contra o mundo real e as situações que nos desagradam, como uma auto-defesa?
Sim e não. Acontece o tempo todo, mas não é apenas isso que acontece.
Um exemplo interessante que podemos encontrar seria as boas ações. É chamado de altruísta aquele que faz bem ao próximo, sem pensar em si mesmo e se colocando em segundo lugar. Só que está idéia é mal analisada. Quem faz o bem para o próximo sempre afirma que se sente muito bem fazendo isso. Seria ele, então, egoísta, uma vez que ele só faz atos de "boa fé" baseado em seu próprio prazer e satisfação? Essa é uma pergunta complicada de se responder. Entram aí muitos fatores, como a definição do que acreditamos ser o certo e o errado - que muda de uma cultura para outra.
Tanto quem faz o bem, como quem faz o “mal” estão seguindo seus próprios instintos. Uma pessoa não precisa ser má para fazer algo de ruim para os outros. Basta estar em uma situação que a deixe sem condições psicológicas para agir como lhe foi ensinado – e mais alguns outros fatores, que causam reações psicológicas adversas. Quem faz algo de ruim, na verdade precisa de ajuda, mas não a encontrou e libera seu pedido de socorro com atos tidos como malignos ou destrutivos.

Certo e errado? Conceitos deturpados – ou criados – tanto pelas crenças religiosas - com a ajuda da persuasão de seus líderes - como pela necessidade de segurança dos povos.

Sunday, May 29, 2005

Faça chuva ou faça sol

Cada dia ando
Passos e mais passos
Uns para frente, outros parecem que não
- mas os empecilhos me movem para frente
mesmo que acredite estar dando a ré –

Outro dia, uma batalha
Um começo, um outro recomeço
Minhas mãos lavam o rosto que dará a cara aos tapas
Crenças se abalam,
a motivação se desgasta
e outro dia se renova, como se o dia
estivesse nascendo pela primeira vez

Incerto, frio, quente, seguro
Tudo isso ao mesmo tempo
Temporal, mar aberto e com nuvens negras
Sonhos ruivos e verdes,
uma caneca na mão e um cobertor

Nada simples, muito simples
Fácil, mas trabalhoso
Previsões seguras e incertas
para o amanhã,
que aguardo ansioso

Tuesday, May 24, 2005

Por que? Porque eu gosto. Só por isso.

"My scientific work is motivated by an irresistible longing to understand the secrets of nature and by no other feelings..."

- Albert Einstein

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O sentido que falta


Falta sinceridade
Falta seguir os instintos
Falta o uso das capacidades,
o que foi aprendido

Falta discussão
Falta reflexão,
o pensamento na realidade

Falta foco, falta estudo
Falta isso tudo
Mas falta algo mais
Nada demais

Falta atitude,
falta compreensão
Parar de pensar, parar de escrever
e começar a fazer

Depois faltarão outras coisas...

Saturday, May 14, 2005

De pé, com uma cadeira de prata

Noite. Tumulto, muitas pessoas se esbarrando para ver o que está na frente. Alvo da obsessão: o palco. Nele, tudo o que se desejava e um pouco mais. Um show fora do comum, daqueles que passam a definir pelo resto da sua vida o seu nível de exigência quando lhe perguntam qual o seu conceito de uma noite perfeita.
Entra um piano, para mostrar que por aí vem algo. Sua melodia chega aos ouvidos trazendo um misto de prazer com suspense, porque a qualquer hora está para surgir o monstro, filho de um ser não-humano com uma mortal. O mestre entra em palco. Sua guitarra faz sons estridentes, que parecem ressoar ao infinito, enquanto ele se contorce de prazer e satisfação. Notas soltas, presas, dentro e fora da tonalidade, seguindo apenas as regras impostas por novas regras; estas, sem limites. O importante aqui é a arte, e a beleza também.
O ambiente está azul, não como o azul blue, mas um azul sem tristeza, mesmo que as letras das canções remetam a sentimentos nada felizes ou agradáveis. O azul da iluminação aqui nos carrega para um outro lugar, um lugar onde se entra em êxtase, um lugar de realização plena, onde as imperfeições do mundo deixam de existir. A atmosfera macia e confortável conseguindo anular o incômodo que normalmente seria se amontoar junto a milhares de pessoas num pequeno espaço.
Sonho. Essa é a cara desta noite, que não sairia da lembrança jamais. Mesmo em mil anos.

Friday, May 13, 2005

Das chamas para a calmaria

Três pontinhos. Isso mesmo, reticências. Leia-se: completa noção da falta de vontade de raciocinar, pensar ou remoer pelo instante que seja, qualquer tipo de pensamento. Dor de cabeça, quero me desprender deste lugar. Este buraco, quartinho sujo e maltratado, essas minhas roupas rasgadas.. tudo me causa irritação! Nada de ficar pensando muito em Kant, que se dane. Vamos escutar um pouco Schopenhauer. Nem os gregos que avisavam em uma placa que “aqui só estuda filosofia aquele que tem o domínio da matemática”. Preciso respirar, e isso eu não vou fazer junta a expressões numéricas ou analogias com as teorias da física ou qualquer que seja; nem mesmo a da relatividade! Quero chutar, socar, rasgar. Dar um grito de libertação, expulsando o mal estar deste corpo, que se torna doente mesmo com a alimentação em dia.
Se tem uma coisa que eu não suporto, é ter uma opinião por causa de um filósofo. Aquele indivíduo que diz “isso não sou eu, é o filósofo X”. Um pouquinho de personalidade, por favor. Existe uma preocupação imensa em saber o que os outros disseram, para que assim o nosso pensamento, a nossa idéia, seja aceita. Nada disso, discordo em gênero, número – olha ele aí – e grau. Vale muito mais a opinião daquele que olha, observa, analisa. Refletir não é apenas concordar com um filósofo ou pensador e sair por aí pregando o que ele disse como sendo o certo e ponto final. Ponto final quem diz aqui sou eu! Balela! Até hoje não encontrei nenhum ser, seja pessoalmente, seja lendo a respeito, que eu considerasse perfeito. Isso não existe. Também não existe essa de que o que foi considerado certo num passado ande por aí com uma etiqueta dourada, significando “imaculado, você não pode quebrar ou achar falhas neste conceito”. Mitos, idolatria, preguiça humana, enganação.
Da mesma forma como acho idiota julgar as idéias de um homem apenas porque ele não seria uma pessoa agradável. Já ouvi gente dizendo que Nietzsche era um revoltado sem argumentos. Disseram ter lido sua biografia – Heche Homo – e percebido que ele foi um homem sem valor. Certo. Agora, gostaria de entender como diversos doutores em filosofia – inclusive um, padre, que escreveu o prefácio para esta mesma biografia; na edição da Martin Claret – crêem ser Nietzsche um dos filósofos mais importantes. Eu mesmo acho que lê deve ter sido uma pessoa insuportável, complexa, difícil de se estabelecer um convívio – mas, quantos de nós somos realmente fáceis? Embora pense assim, tenho a nítida noção de que, o que mais me encantou em Nietzsche, foi a mesma característica que mais me deslumbrou ao ler sobre Sócrates. Enxergar coisas que as pessoas insistem em dizer que são loucura, perceber o quanto somos hipócritas com a maior facilidade e não nos damos conta, o quanto as coisas que mais parecem certas e comuns, cotidianas e aceitas por nós como sendo o normal, podem ser o exemplo da parte podre existente em nós. Sócrates foi condenado a morte por suas palavras e pela teimosia, por sua insistência em não deixar aqueles que se acham os seres santos e justos, viverem sua enganação em paz. Nietzsche causou tanto desgosto – seus livros eram publicados com bastante dificuldade, sorte dele ter um amigo influente, capaz de ouvir seus pedidos de ajuda – que a maior satisfação que um crítico de suas idéias tem é dizer que ele é ridículo e se contradiz ao afirmar que o filósofo é incoerente, por que suas idéias estão no plano metafísico, não alcançando o plano real, que seria onde tudo se passa. Falta um pouco de vontade para tentar entender as coisas.
É muito aceito dizer que o pobre não se esforça, que traficante merece morrer, que quem matou merece pena de morte e que aquele estranho não tem caráter por ter feito algo que nós – ainda – não fizemos. Falta se colocar no lugar do outro, tentar entender o que levou o outro a fazer o que fez. Falta buscar compreender do que se trata, qual é o verdadeiro ponto G. As pessoas buscam a paz. O problema é que se esquecem que a paz não ocorre apenas para um, enquanto outros sofrem. Ela é um sentimento que precisa da coletividade para se tornar concreto e resistente. Para se tornar real.
Este texto começou com um tema em mente e, com o teclar das letras e os correr dos minutos, tomou um outro caminho, completamente diferente. Como se fosse um papo com alguém, uma conversa comum, onde trocamos palavras sobre variados assuntos, podendo misturar futilidades com reflexões profundas. Mas, se você discorda, se você se sentiu ofendido, se está revoltado com o fato e não quer deixar que isso se repita, sei lá.. me jogue numa fogueira.

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Hoje é sexta-feira 13.

Sunday, May 08, 2005

Uma palhinha de Baudelaire

IV
Correspondências
A natureza é um templo onde vivos pilares
Podem deixar ouvir vozes confusas: e estas
Fazem o homem passar através de florestas
De símbolos que o vêem com íntimos olhares.

Como os ecos ao longe confundem seus rumores
Na mais profunda e tenebrosa unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade,
Harmonizam-se os sons, os perfumes e as cores.

Perfumes frescos há como carnes de infantes
Ou oboés de doçura ou verdejantes ermos
E outros ricos, corrompidos e triunfantes,

Que possuem a expansão do universo sem termos
Como o sândalo, o almíscar, o benjoim e o incenso
Que cantam dos sentidos o transporte imenso.

- Charles Baudelaire
(extraído de "As Flores do Mal")

Thursday, May 05, 2005

O visitante indesejado

A tristeza e seus contornos fazem seu trabalho, inspirando beleza e sinceridade. Um azul que vem e não anuncia a hora de passar. Se instala, firmando raízes, emaranhando-se na mente humana, onde faz sua história. Loucuras, paranóias, neuroses. Dor, um vazio. Nada ao redor, apenas o vácuo, inerte e inerente à vida de cada um. A afirmação, e a aceitação, ainda que relutante, de que todos estão sós, sempre.
O sol, ao longe, brilha, mas já com cara de passado. Seus raios levam tempo para serem percebidos pela visão humana. Breu. De óculos escuros, caminhando entre folhas secas, pregos enferrujados ao chão e moscas fedorentas que se esbarram e caem ao morrer.
Uma saída, talvez o fim disso tudo. Enfim, uma solução. Seria real? Sincera? Pode ser, mas é muito incerto.
A solidão que assola e bate na porta, mesmo que não a aceitemos. Insistente, ela berra e sai, deixando um bilhete por baixo, uma fresta. “Um dia ei de voltar para te buscar”.