Tuesday, August 30, 2005

Hoje não tem título

Penso nos poemas como uma forma de expressão que ocupa menos palavras. Não chega a ser menos do que certas frases de impacto, mas estas dão mais certo para escritores famosos ou celebridades – até mesmo em revistas de fofoca. Algumas pessoas me dizem que não gostam de poesia, que acham um saco. Bom, eu seria muito suspeito para falar, porque eu escrevo os meus poemas, mas aqui vai uma verdade – peço que guardem segredo: não leio poemas. “O que??!! Como assim você não os lê?! Vai escrevendo assim, sem mais nem menos?” A resposta é sim. Não tenho esse hábito. Já até mesmo me programei para ler um ou dois por dia, durante a noite, mas não dá. Não sinto aquela atração que te faz correr numa direção específica em busca daquilo que você tanto deseja. Muitos poemas eu acho maravilhosos, mas alguns você lê e pensa “e daí?”. Mais engraçado é quando isso ocorre com textos de escritores famosos, considerados incríveis, gênios. Para mim é muito mais fácil escreve-los, sendo muito difícil ficar quieto quando chega uma inspiração rompante. Quanto à parte da escrita, prefiro os textos de uma página ou duas, corridos. Muitas vezes não sei como classifica-los, apenas os encaro como sendo reflexões, divagações, mas ao mesmo tempo nada que eu pudesse chamar de “um conto”. Clarice gostava disso – nossa amiga, a Lispector. Para ela não tinha essa de ficar classificando os textos. Muito menos prendê-los a estilos específicos. Isso seria impedir a inovação, a fluência, a criatividade. À arte não podem ser impostas barreiras, regrinhas bobas, nada disso. Devemos deixar tudo fluir, sem preconceitos, para que possamos transpor nossos próprios limites e descobrir do que somos realmente capazes – senti uma leve vontade de me enveredar pelo tema do controle que a sociedade faz sobre nós, nos podando, ditando nossas opções possíveis e cortando fora o que não se encaixa nos padrões; tudo para manter aquela falsa imagem de segurança e certeza sobre as verdades da vida...

Monday, August 29, 2005

A vida vivida

Quero sofrer
Quero correr
Quero cair e me levantar
Quero ver o sol nascer
Quero ver meu amor indo embora e isso doer
Então vou querer um outro amor

Quero muito de muita coisa
Quero apostar
Quero vencer e também quero perder
Acertar sempre é muito chato

Não quero ser perfeito
Quero ver tudo e ver todos
Ver quem eu gosto e também quem me irrita
Estes tendem a me fazer aprender
Nem que seja o porquê de eles serem assim

Quero ver a dor, entender que não são tudo flores
E que, se o mundo fosse feito de sorvete,
iria engordar muito
E muitas vezes seria mal feito também

Algumas coisas me perturbam
Mas eu também perturbo,
Não fico quieto frente às coisas!
Podem reclamar à vontade
Apenas não esperem que eu concorde
- de qualquer forma vai ser bom –

Pessimismo?
I don´t think so
Eu não tenho tempo pra esse tipo de coisa
Estou aqui pra viver

Monday, August 22, 2005

Veio se meter onde não devia, se deu mal

Uma mosca posou na minha sopa. Maldito Raul Seixas...

Música: "Ligh my fire", the Doors

Sunday, August 21, 2005

Chico Buarque, na voz de Seu Jorge

Todo dia ela faz tudo sempre igual Me sacode às seis horas da manhãMe sorri um sorriso pontual E me beija com a boca de hortelãTodo dia ela diz que é pra eu me cuidar E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar E me beija com a boca de café
Todo dia eu só penso em poder parar Meio-dia eu só penso em dizer nãoDepois penso na vida pra levar E me calo com a boca de feijão
Seis da tarde como era de se esperar Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar E me beija com a boca de paixãoToda noite ela diz pra eu não me afastar Meia-noite ela jura eterno amorE me aperta pra eu quase sufocar E me morde com a boca de pavorTodo dia ela faz tudo sempre igual Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual E me beija com a boca de hortelãTodo dia ela faz tudo sempre igual Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual E me beija com a boca de hortelã

Saturday, August 20, 2005

Na espera

O roteirista de Pulp Fiction, o diretor de Forest Gump, John Malkovitch, Anthony Hopkins e Angelina Jolie (!!!!) estão rodando "Beowulf" - poema épico britânico escrito por volta do século 8, contando uma antiga história de um herói escandinavo que durante suas explorações salvou os dinamarqueses do monstro Grendel -, com estréia prevista para 2007.
Com licença, depois dessa até preciso pegar um pouco de ar...

Ps: Angelina interpreta a mãe do monstro.. aposto que ela está adorando...

Trilha: "Purple Haze", Jimi Hendrix live at Woodstock

Friday, August 19, 2005

Perdidos no meio da selvageria

De uma forma mais ampla e prática, as coisas não mudam de forma a facilitar as nossas vidas. Essa é a tendência, que abocanha os despreparados, deixando-os na amargura. Mas, uma possibilidade que nós temos, e essa ninguém pode, e nem deve, nos tirar é que sempre podemos seguir outros caminhos. A caminhada é dura, mas podemos fazer a nossa própria trilha no meio da selva.

Wednesday, August 17, 2005

Mark Twain 1

"Meus calorosos votos e imensas esperanças natalinas de que todos nós possamos nos reunir em eterna paz e felicidade (exceto o sujeito que inventou o telefone)."

Dicas Úteis para uma Vida Fútil - um manual para a maldita raça humana

Só uma frase

Tem gente que acha que a vida é uma corrida de 100 metros. Esses se estrepam. Na verdade são 100 metros com barreiras.

Não costumo seguir a linha da ficção científica, mas...

Marionetes

Estão todos aqui. Sentados em suas respectivas cadeiras, atentos à explicação do mentor. Mas algo não está certo. Suas afirmações são recebidas sem a menor objeção, entrando direto nas redes de arquivos neurais consideradas como sendo cientificamente comprovadas – e o que isso quer dizer, afinal? Verdades absolutas, mesmo quando não fazem sentido. E ninguém move uma palha.
Um pio e você está fora. Nada de canja ou colírio. Aqui também não há almofadas. É joelho no milho e só. Discutir, forma mais imperdoável de blasfêmia, é sinônimo de uma passagem de ida, apenas, para o inferno. Até tu, Sócrates? “Sim, até eu, meu caro”. Seria pior do que este lugar, onde um simples fruto da curiosidade te condena? Não há como ignorar o conhecimento uma vez que ele é posto em sua frente, ele te tenta, tenta e você nem tenta mais resistir.
De cara a cara com o mal, eu o desafio, e vejo o que eu não queria. Mas hoje eu digo que se voltasse o faria novamente. O chão se abre. Uma armadilha. E enquanto o peso do meu corpo me puxa rumo ao obscuro e desconhecido, observo o antes inimaginável. Fios condutores, todos ligando a cabeça do mentor as cabeças dos demais presentes, nesta sala quadrada absurdamente claustrofóbica, embora antes parecesse ser bem ventilada. A cada gesto ou expressão facial, ou até mesmo um passo, choques são dados. E com os choques, impulsos nervosos já e controlados organizam as mentes.
Com a queda, o fio em mim se rompe. Agarro-o por reflexo, mas precisão. Eu o puxo com bastante, apoiando meus pés nas paredes do túnel vertical que ansiosamente espera para me engolir. O caos reina no recinto. Raios frenéticos para todos os lados. Corpos queimando com seus olhos virados. Os mais resistentes me lançam um olhar de desdém e ódio. Alguns destes, meus fiéis amigos. Minha visão se distorce e eu deixo de sentir.
Escuridão. Um som abafado, estranho. Parece que algo me isola da existência, da realidade. Do mundo todo. Tento me mover e sinto algo cremoso e ao mesmo tempo denso envolvendo todo o meu corpo. Ouço mais sons vindo de fora, mas nada vejo. Canalizo, então, minhas forças todas e me sacodo. Sem parar. Como se estivesse dentro de um balanço. Tudo parece ir de um lado a outro. Vai e vem. Me mexo ainda com mais força, toda que sou capaz. A dor me acerta em cheio, queimando meus músculos já sem oxigenação, mas eu não desisto. Não agora. Deve haver uma saída. Estou ficando cansado, sem força alguma. Me esgotei, mas minhas esperanças não se foram. Vou ficando sonolento. Muito sono, muito sono. Acho que não serei capaz de vencer. Não posso dormir, não posso... não posso... dormir... durmo.
Seres estranhos se comunicam do lado de fora, enquanto estou imerso em meu sono confortável. Uma paz... Súbito, acho que estou em movimento. Estou caindo! Nada posso fazer. O impacto, semelhante ao acidente de um carro, só que neste caso eu estou envolto por airbags “cremosos”. Minha cela se abre. Vermelha, ela se assemelha a um caqui, gigantesco e todo esparramado pelo chão. Pela terra, na verdade. Estou no meio do mato, e, com a fome que estou, como todo o imenso caqui. Ah, que delícia!
Minha mente agora, mais do que nunca, me avisa que os ventos vindo da esquerda são o indício de que existe algo a ser descoberto. Vejo areia. Ando mais e encontro uma praia. O mar sem fim, lindo como eu poderia desejar. Vou a ele e ponho os pés na água. Hesito. Me indago. Será que é isso que eu busco? Isso me fará feliz?
Mergulho na água e nado. Sem parar.

Tuesday, August 16, 2005

De frente para o mar

O tempo fechou
A dor chegou
E o outro tempo agora cessou de passar
Inconstantes, pensamentos fazem rodar
O odor da discórdia,
A saudade do teu calor, e muito mais,
Batem com força

Estas calçadas vazias
Cheias de gente
Sozinho, aceno aos passantes
Todos cegos
Surdos, mudos

As ondas, o sol morto que da lugar à lua
O vento.

Carros perturbados, mentes cansadas
Todos pedindo paz,
Arrego
Eles e eu

Noite passada,
Noite feliz
Um sonho que parecia não acabar
Hoje,
A ressaca;
Mas não de ontem.

Sunday, August 14, 2005

Próximas lembranças

Eu
que vindo de longe sem deixar de estar perto
que declamava palavras bonitas dentro ne minha própria mente
e sentia o frio de baixo de muito sol,
voltei

Voltei de longe
bem longe mesmo
tão distante que parece incrível como eu tenha conseguido voltar

Agora olho essa casa
vazia e maltratada
que hei de cuidar uma vez que estou de volta

Meus poderes como humano medíocre são maiores
e meus medos, bem.. esses continuam por aí
mas eu os tenho enfrentado, preciso ressaltar

Um salto
Atravesso o espelho

Olhando por dentro de mim mesmo, mais a fundo do que antes
entendo os porquês
vários deles
mais do que transparente, a verdade se reflete
e se mostra ao infinito

Infinito de sonhos que agora vivo
sabendo escolher melhor
quais as cores ideais
que irão marcar as minhas próximas lembranças

Tuesday, August 09, 2005

O fantástico mundo de Bob, no país das maravilhas

A mente criativa de um homem produz imagens extraordinárias. Algumas destas, porém, não tão belas.

Friday, August 05, 2005

Compositor de fibra

Difícil escolher o que deixar no HD, para abrir espaço em disco. Minha sede atual por arquivos de música está sem limites. Nós últimos dois dias, só para exemplificar, adicionei 11 álbuns diferentes à minha pasta reservada para tal finalidade. E a lista do que falta só parece crescer, mais e mais. Entre os que baixei estão Wilco, Arcade Fire, Bob Dylan, Ed Harcourt, Sigur Rós, The White Stripes, Pavement, The Kills, Josh Rouse. E falta muita coisa ainda. Falta também tempo pra ouvir isso tudo!
Mas, uma coisa eu não faço: correr o risco de deixar um artista extraordinário se manter distante do meu conhecimento apenas por descuido. Muitos dos meus preferidos tiveram uma oportunidade rara de se fazer notados pelo meu universo musical, até então ignorante quanto à sua existência.
Uma dica importante para quem gosta de música - e não fica muito feliz em desperdiçar oportunidades: Ed Harcourt. Este é o nome que mais me cativou nos últimos tempos, sendo que adquiri mais discos recentemente que o humanamente natural - muito mais até do que você está pensando agora... não, bem mais do que isso também.
Quem puder, as dicas são a música "God Protect Your Soul" e o site www.edharcourt.com , onde há uma música do CD novo e três vídeo-clipes ( dois funcionando). Ao abrir o website a música toca automaticamente.

Saturday, July 30, 2005

Um filme incrível

Assistam "Sin City - A Cidade do Pecado". Um show de atuação, de imagens, de criatividade, de música e de violência. Surpreendente.

Wednesday, July 27, 2005

Rumo à China

Descobri que tenho uma atração forte pela cultura chinesa. Após assistir aos filmes "Herói" e "O Clã das Adagas Voadoras" decidi que eu teria as trilhas sonoras de ambos os filmes. Adquiridas as trilhas, começei a procurar informações a respeito da cultura deste interessantíssimo país. Língua, caligrafia, música, instrumentos tradicionais, história, artes marciais.. é um mundo incrível, bem distinto do nosso mundo cotidiano, que está a nossa espera, basta que nos interessemos em buscar.
Os bons motivos não são poucos. Fala-se muito em trabalhar a mente, sabedoria e meditação contra o stress, e os chineses são craques nisso. Levando em conta que a sabedoria deles é milenar, que o violino foi inventado lá, o Fen Shui também e muito mais -como a medicina chinesa, que dizem ser incrível - não tem como ignorar essa grande potência e constante evolução.
A caligrafia para eles não precisa ser apenas o ato de escrever. Para eles a caligrafia é uma arte - e ao que me parece, pode ter relação também com a arte do domínio da espada; bom, isso é algo presente no filme Herói, mas não confirmei ainda a veracidade da informação.
Prestem atenção nos cursos de Chinês - "língua chinesa", no caso. Eles estão surgindo aqui e ali, cada vez menos tímidos. Um amigo disse que teve que entrar numa lista de espera para poder fazer um desses cursos, o que levou quatro meses - a espera, não o curso; aliás, fico imaginando quantos anos vou levar pra aprender esta língua... sim! Eu quero aprender chinês!
Wi-wo its trrê! Não sei se significa alguma coisa. Só espero que não esteja xingando nínguém...


Não consegui evitar, precisava continuar este texto - só mais um pouquinho, ok? Imagine só conhecer os monumentos antigos, a vegetação magnífica e poder ler na língua original o que todo mundo lê reciclado - e quem sabe, remixado. Isso vai muito além. Muito mais do que ir pra São Paulo ou para um outro país tão ocidental quanto o Brasil.

Tuesday, July 26, 2005

Em dia com o cotidiano

Na tentativa de manter este blog atualizado, inicio estas palavras. Sentado aqui em frente ao computador, que nem sempre obedece às minhas ordens, descanso da caminhada que acabei de fazer. Se fosse apenas uma caminhada seria mais fácil, mas fui passear com a Fox, cadela daqui de casa - uma aquisição recente. O nome dela, no caso, foi dado pelo meu irmão mais novo. À princípio eu também estranhei o nome - tenho certeza de que VOCÊ estranhou antes de eu comentar -, mas quando me recordo dos estúdios produtores da sétima arte me sinto mais tranqüilo. Ela me deu muito trabalho. Desde esmagar minha mão direita - eu enrolei a coleira dela para poder controlar melhor os movimentos dela - à quase me fazer cair no chão. Nunca vi um cachorro que não deixa o dono correr ao seu lado por tentar mudar de lado a todo momento. Por causa disso só pude caminhar, fazer o que... Bom, chamei de cachorro porque nem sempre me refiro a ela como "cadela" - costumo usar "cachorra" também.

Uma boa notícia! Logo quando estava descendo para almoçar, o telefone toca.
- Alô?
- O Guilherme, por favor.
- Sim, sou eu.
- Guilherme, aqui é da zona eleitoral. Haverá uma votação para a lei das armas em breve e a votação será obrigatória. Como você foi primeiro mesário na eleição passada, gostaríamos de convocá-lo para ser presidente de mesa.
- Eu já trabalhei uma eleição em Teresópolis e duas no Rio. Pela lei só preciso trabalhar três, não é?
- Sim, mas você precisa trabalhar três vezes aqui para que a juíza possa te liberar. Você tem uma semana para tomar posse.

Desligo o telefone com uma felicidade que não cabe no meu peito e desço para almoçar - com medo de que a comida não caia bem...

Saturday, July 16, 2005

Por ali

Deito e vejo os outros
vejo você
nos vejo correndo para bem longe
sua malas feitas às pressas
o anseio por algo novo
misto de medo e liberdade

Sua vida escorre, se esvai
continue respirando
tenha forças
estamos quase lá

Quem sabe por aquela janela
encontro uma floresta
pura e selvagem
esperando por nós dois?
Crescendo sem rumo e sem fronteiras
buscando o infinito e o impensável

Thursday, July 14, 2005

Desconstrução

Olhando para o céu, ele vê o inevitável, busca um abrigo, meteoros por todos os lados - um dia isso iria acontecer -, pare de gritar e olhe, não pode fugir, o nosso destino é o mesmo, por baixo destas pedras quentes, o nosso sangue podre, toda uma existência ignorada, e o medo de perder o que não gostava de ter, a dor se vai e vem a calma, não é escuro, abra os olhos, chovem as lágrimas de ontem, lavando a dor.

a porta está perto, apenas mais um pouco...

Sunday, July 03, 2005

Re-descobertas

O mundo, as verdades, as realidades – as percepções. Todas elas juntas me dão um banho. Um banho energizante, abrindo a minha cabeça, que neste momento apenas admira quieta. Este espanto chega quando eu achava que já sabia o suficiente para que um choque como este não viesse a ocorrer novamente. Mas, enxergo novas cores agora. É como se eu estivesse entendendo aqueles tons que aparentemente são iguais – ou parecidas demais para serem notadas –, mas os designers conhecem o seu valor; são imprescindíveis.
O engraçado é que, ao mesmo tempo em que percebo melhor as coisas, acreditava que se pegasse a caneta, não sairia nada neste pedaço de papel. Mais descobertas.
Ok, não saiu quase nada mesmo. Talvez fosse melhor deixar este texto de lado e ir fazer algo de útil. Talvez não. O que poderia ser mais útil do que tentar evoluir em cima de algo que parece não estar tão bom quanto deveria? Bem, se formos partir do ponto de que nada faz sentido, tanto faz a resposta. Mas eu ainda acredito que valha a pena. Não estou escrevendo sem um motivo – por mais que eu ainda não saiba qual seria este -, portanto, não acho que deveria parar.
Desta vez quase parei. Do último parágrafo para este levei cerca de uns 40 minutos! Tinha até mesmo ameaçado desligar o computador, enquanto me levantava! Bom, saiba que eu enganei você, levei apenas um minuto.
Sobre o que estávamos falando mesmo?

Friday, July 01, 2005

Nosso amigo Albert

Criativo, pacifista, genial. Sua capacidade de compreensão aliada a sua determinação, que por sua vez tornou possível tamanha concentração, foram importantes para todos os que vieram depois. Sua vontade de saber, de aprender, de fazer era inquestionável. Autodidata, ele se isolou e foi construir o seu. Era independente e irrefreável. Não gostava de convenções, de regrinhas idiotas, de toda essa baboseira que reina por aí, por aqui, por todo canto que se olhe. O desejo de entender os mistérios da natureza, do mundo que nos cerca, foram o combustível para essa força que ele tinha.
Seus trabalhos mudaram o mundo. Mas, infelizmente, ele não conseguiu a paz. Mudar o mundo é bem diferente de consertá-lo. E mesmo porque, algo que se conserta pode cair no chão novamente. As bombas que destruíram as coitadas das duas cidades lhe causaram tristeza. Um pacifista vendo suas palavras tornarem possível a destruição de inúmeras vidas. Mas ele avisou. “A bomba acabou com a guerra, mas não trouxe a paz.”
Um dos poucos cientistas alemães a evitarem a primeira guerra, tendo pedido para se naturalizar suíço, ele pensava. Pensava de forma independente. “Se eu achar que sei, vou parar de descobrir.” Ele buscou, por meio do esforço, o que muitos de nós deixamos por causa da falta de consciência.
Dez por cento inspiração, noventa por cento transpiração.

Wednesday, June 29, 2005

Tudo muito simples

Tudo, com o tempo, se mostra como sendo mais simples do que parecia ser inicialmente. Mesmo quando achamos que estamos enfrentando uma situação muito difícil. A nossa surpresa frente ao que é um novo problema - que deve ser resolvido como sendo um problema mesmo, como fazíamos no colégio - sempre nos assusta.
Enxergo as coisas como sendo feitas de complexidades simples. Resolvendo-as de forma analítica, desmontando-as e fazendo 1+1+1+1, e por aí vai, encontramos melhores - na verdade mais fáceis e verdadeiros - resultados.

O tempo passa e,
com graça,
a idiotice diminui.

Friday, June 24, 2005

Homenagem

Algumas pessoas têm a capacidade de marcar nossas vidas de uma forma absurda. Sua relevância se dá de forma tão acentuada que causam um choque, um susto. Nos fazem gostar mais da vida, do mundo a nossa volta. Nos alimentam com mais vontade de viver. Uma personalidade fantástica, diferente do que estamos habituados a encontrar, que deixa marcas feitas de gostosas lembranças. Que não causam dor, apenas bem estar. E com certeza um outro bem estar além deste. A esperança de que iremos encontrar essas pessoas logo, em breve, as soon as possible. Deveria ter escrito em francês, mas não o fiz. Aude, este texto é para você, assim como o foi um outro, tempos atrás, e, sem sombra de dúvida, serão vários outros que o futuro nos reserva. Sinto saudades, mas de uma forma boa, que aquece. Um sentimento tão forte que ainda não entendi por completo – e na verdade nem preciso, já é bom assim. Ok, chega de babação.

Wednesday, June 22, 2005

Uma letra com várias outras

Livros caetano veloso

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando para a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou - o que é muito pior - por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.

Monday, June 20, 2005

Pão e circo

"Senhor, o povo está revoltado, não tem comida, está doente!, Dê a eles então festas, jogos, lutas em arenas para que eles se distraiam e fiquem com a ilusão da felicidade!, Senhor, que tal se incentivássemos os jogos de futebol? Poderiam, além disso tudo, tornar o nosso país de terceiro mundo um país internacionalmente conhecido!, Isso, dê a eles também ídolos, para acreditarem em algo e acabarem aquelas idéias de revoltas..."

Tuesday, June 14, 2005

O sentido da vida

Toda a beleza do mundo num só ser
Exagerado, não creio estar
Basta ver.
Olhe em seus olhos
E compreenderá
Que não falo besteiras
Para o tempo passar

Quando ela sofre
Sofro eu também
Ouvindo, de braços abertos, o céu dizer amém
Com meus olhos honestos
Em meio a esse vai e vem

Um sorriso, um aceno
E mais uma vez ela me aprisiona,
Enquanto eu mesmo me condeno,
Nesse sufoco ao qual a vida me impulsiona.
Um sentimento nada ameno
Misto de prazer com desespero
Na encruzilhada deste enigma,
Em frente ao sol e à lua cheia,
Aos quais, de joelhos, faço um apelo.

De certo não é ela
A única donzela
Mas com segurança afirmo e bato o pé
Exaltando com esta goela
Que nem mesmo ventos e trovões
Me afastariam das emoções
Que sinto ao vê-la chegar
De passo em passo, de ar em ar,
Essa moça magnífica que um dia
Em minha vida resolveu entrar.

A ti, bela moça, jogo meu olhar
É com você mesma, não se engane
Pode encarar.
Ando neste deserto,
Não obstante o frio ou o calor,
Buscando uma chance para em seus braços estar
Dispondo a você meus músculos,
Meu calor e todo o meu ar.


Neste sonho quero estar
Amarrado a ti como nenhum outro há
Me derretendo ao odor do teu perfume
Nas noites de vazio e de tristeza
Em que vejo o sentido da vida
Todo presente na leveza
Que encontro neste mundo
Quando miro o teu olhar.

Infinito este poema poderia ser
Não tendo um fim por agora
Ou quando o amanhecer
Mas no momento não busco a glória
Apenas quero ver
Se estas meigas palavras te comovem
E enchem a sua alegria de viver.

Tendo dito a que vim
Então me refaço
Esperando por ora
Um outro compasso
Em que me beija, me abraça
Me adora e eu renasço.

Wednesday, June 08, 2005

Frases de Émile Coué

"Ilude-se quem acredita não ter ilusões."


"Não passe o tempo a procura de doenças que você possa ter, porque, se não tiver as verdadeiras, você poderá criar as artificiais."


"Não é a sorte que nos faz, somos nós mesmos que nos fazemos."

Monday, June 06, 2005

Sobre Oscar Wilde - iniciado nos comentários do último post

Ele não precisa estar absolutamente certo. Existem pontos de vista, e não a tal da "verdade", nestes casos.
As coisas simples se expandem aos nossos olhos quando descobrimos a incrível complexidade de cada sistema, sendo ele de idéias ou de qualquer outro tipo. Além da inter-relação entre as coisas, existe também a relatividade. Verdade única, absoluta e com apenas um lado, se unirmos todos essas três características, encontramos o fanatismo.

Somos atores, interpretando papéis, sendo enganosos com e próximo e com nós mesmos, manipulando a verdade, a realidade, criando assim uma proteção contra o mundo real e as situações que nos desagradam, como uma auto-defesa?
Sim e não. Acontece o tempo todo, mas não é apenas isso que acontece.
Um exemplo interessante que podemos encontrar seria as boas ações. É chamado de altruísta aquele que faz bem ao próximo, sem pensar em si mesmo e se colocando em segundo lugar. Só que está idéia é mal analisada. Quem faz o bem para o próximo sempre afirma que se sente muito bem fazendo isso. Seria ele, então, egoísta, uma vez que ele só faz atos de "boa fé" baseado em seu próprio prazer e satisfação? Essa é uma pergunta complicada de se responder. Entram aí muitos fatores, como a definição do que acreditamos ser o certo e o errado - que muda de uma cultura para outra.
Tanto quem faz o bem, como quem faz o “mal” estão seguindo seus próprios instintos. Uma pessoa não precisa ser má para fazer algo de ruim para os outros. Basta estar em uma situação que a deixe sem condições psicológicas para agir como lhe foi ensinado – e mais alguns outros fatores, que causam reações psicológicas adversas. Quem faz algo de ruim, na verdade precisa de ajuda, mas não a encontrou e libera seu pedido de socorro com atos tidos como malignos ou destrutivos.

Certo e errado? Conceitos deturpados – ou criados – tanto pelas crenças religiosas - com a ajuda da persuasão de seus líderes - como pela necessidade de segurança dos povos.

Sunday, May 29, 2005

Faça chuva ou faça sol

Cada dia ando
Passos e mais passos
Uns para frente, outros parecem que não
- mas os empecilhos me movem para frente
mesmo que acredite estar dando a ré –

Outro dia, uma batalha
Um começo, um outro recomeço
Minhas mãos lavam o rosto que dará a cara aos tapas
Crenças se abalam,
a motivação se desgasta
e outro dia se renova, como se o dia
estivesse nascendo pela primeira vez

Incerto, frio, quente, seguro
Tudo isso ao mesmo tempo
Temporal, mar aberto e com nuvens negras
Sonhos ruivos e verdes,
uma caneca na mão e um cobertor

Nada simples, muito simples
Fácil, mas trabalhoso
Previsões seguras e incertas
para o amanhã,
que aguardo ansioso

Tuesday, May 24, 2005

Por que? Porque eu gosto. Só por isso.

"My scientific work is motivated by an irresistible longing to understand the secrets of nature and by no other feelings..."

- Albert Einstein

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O sentido que falta


Falta sinceridade
Falta seguir os instintos
Falta o uso das capacidades,
o que foi aprendido

Falta discussão
Falta reflexão,
o pensamento na realidade

Falta foco, falta estudo
Falta isso tudo
Mas falta algo mais
Nada demais

Falta atitude,
falta compreensão
Parar de pensar, parar de escrever
e começar a fazer

Depois faltarão outras coisas...

Saturday, May 14, 2005

De pé, com uma cadeira de prata

Noite. Tumulto, muitas pessoas se esbarrando para ver o que está na frente. Alvo da obsessão: o palco. Nele, tudo o que se desejava e um pouco mais. Um show fora do comum, daqueles que passam a definir pelo resto da sua vida o seu nível de exigência quando lhe perguntam qual o seu conceito de uma noite perfeita.
Entra um piano, para mostrar que por aí vem algo. Sua melodia chega aos ouvidos trazendo um misto de prazer com suspense, porque a qualquer hora está para surgir o monstro, filho de um ser não-humano com uma mortal. O mestre entra em palco. Sua guitarra faz sons estridentes, que parecem ressoar ao infinito, enquanto ele se contorce de prazer e satisfação. Notas soltas, presas, dentro e fora da tonalidade, seguindo apenas as regras impostas por novas regras; estas, sem limites. O importante aqui é a arte, e a beleza também.
O ambiente está azul, não como o azul blue, mas um azul sem tristeza, mesmo que as letras das canções remetam a sentimentos nada felizes ou agradáveis. O azul da iluminação aqui nos carrega para um outro lugar, um lugar onde se entra em êxtase, um lugar de realização plena, onde as imperfeições do mundo deixam de existir. A atmosfera macia e confortável conseguindo anular o incômodo que normalmente seria se amontoar junto a milhares de pessoas num pequeno espaço.
Sonho. Essa é a cara desta noite, que não sairia da lembrança jamais. Mesmo em mil anos.

Friday, May 13, 2005

Das chamas para a calmaria

Três pontinhos. Isso mesmo, reticências. Leia-se: completa noção da falta de vontade de raciocinar, pensar ou remoer pelo instante que seja, qualquer tipo de pensamento. Dor de cabeça, quero me desprender deste lugar. Este buraco, quartinho sujo e maltratado, essas minhas roupas rasgadas.. tudo me causa irritação! Nada de ficar pensando muito em Kant, que se dane. Vamos escutar um pouco Schopenhauer. Nem os gregos que avisavam em uma placa que “aqui só estuda filosofia aquele que tem o domínio da matemática”. Preciso respirar, e isso eu não vou fazer junta a expressões numéricas ou analogias com as teorias da física ou qualquer que seja; nem mesmo a da relatividade! Quero chutar, socar, rasgar. Dar um grito de libertação, expulsando o mal estar deste corpo, que se torna doente mesmo com a alimentação em dia.
Se tem uma coisa que eu não suporto, é ter uma opinião por causa de um filósofo. Aquele indivíduo que diz “isso não sou eu, é o filósofo X”. Um pouquinho de personalidade, por favor. Existe uma preocupação imensa em saber o que os outros disseram, para que assim o nosso pensamento, a nossa idéia, seja aceita. Nada disso, discordo em gênero, número – olha ele aí – e grau. Vale muito mais a opinião daquele que olha, observa, analisa. Refletir não é apenas concordar com um filósofo ou pensador e sair por aí pregando o que ele disse como sendo o certo e ponto final. Ponto final quem diz aqui sou eu! Balela! Até hoje não encontrei nenhum ser, seja pessoalmente, seja lendo a respeito, que eu considerasse perfeito. Isso não existe. Também não existe essa de que o que foi considerado certo num passado ande por aí com uma etiqueta dourada, significando “imaculado, você não pode quebrar ou achar falhas neste conceito”. Mitos, idolatria, preguiça humana, enganação.
Da mesma forma como acho idiota julgar as idéias de um homem apenas porque ele não seria uma pessoa agradável. Já ouvi gente dizendo que Nietzsche era um revoltado sem argumentos. Disseram ter lido sua biografia – Heche Homo – e percebido que ele foi um homem sem valor. Certo. Agora, gostaria de entender como diversos doutores em filosofia – inclusive um, padre, que escreveu o prefácio para esta mesma biografia; na edição da Martin Claret – crêem ser Nietzsche um dos filósofos mais importantes. Eu mesmo acho que lê deve ter sido uma pessoa insuportável, complexa, difícil de se estabelecer um convívio – mas, quantos de nós somos realmente fáceis? Embora pense assim, tenho a nítida noção de que, o que mais me encantou em Nietzsche, foi a mesma característica que mais me deslumbrou ao ler sobre Sócrates. Enxergar coisas que as pessoas insistem em dizer que são loucura, perceber o quanto somos hipócritas com a maior facilidade e não nos damos conta, o quanto as coisas que mais parecem certas e comuns, cotidianas e aceitas por nós como sendo o normal, podem ser o exemplo da parte podre existente em nós. Sócrates foi condenado a morte por suas palavras e pela teimosia, por sua insistência em não deixar aqueles que se acham os seres santos e justos, viverem sua enganação em paz. Nietzsche causou tanto desgosto – seus livros eram publicados com bastante dificuldade, sorte dele ter um amigo influente, capaz de ouvir seus pedidos de ajuda – que a maior satisfação que um crítico de suas idéias tem é dizer que ele é ridículo e se contradiz ao afirmar que o filósofo é incoerente, por que suas idéias estão no plano metafísico, não alcançando o plano real, que seria onde tudo se passa. Falta um pouco de vontade para tentar entender as coisas.
É muito aceito dizer que o pobre não se esforça, que traficante merece morrer, que quem matou merece pena de morte e que aquele estranho não tem caráter por ter feito algo que nós – ainda – não fizemos. Falta se colocar no lugar do outro, tentar entender o que levou o outro a fazer o que fez. Falta buscar compreender do que se trata, qual é o verdadeiro ponto G. As pessoas buscam a paz. O problema é que se esquecem que a paz não ocorre apenas para um, enquanto outros sofrem. Ela é um sentimento que precisa da coletividade para se tornar concreto e resistente. Para se tornar real.
Este texto começou com um tema em mente e, com o teclar das letras e os correr dos minutos, tomou um outro caminho, completamente diferente. Como se fosse um papo com alguém, uma conversa comum, onde trocamos palavras sobre variados assuntos, podendo misturar futilidades com reflexões profundas. Mas, se você discorda, se você se sentiu ofendido, se está revoltado com o fato e não quer deixar que isso se repita, sei lá.. me jogue numa fogueira.

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Hoje é sexta-feira 13.

Sunday, May 08, 2005

Uma palhinha de Baudelaire

IV
Correspondências
A natureza é um templo onde vivos pilares
Podem deixar ouvir vozes confusas: e estas
Fazem o homem passar através de florestas
De símbolos que o vêem com íntimos olhares.

Como os ecos ao longe confundem seus rumores
Na mais profunda e tenebrosa unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade,
Harmonizam-se os sons, os perfumes e as cores.

Perfumes frescos há como carnes de infantes
Ou oboés de doçura ou verdejantes ermos
E outros ricos, corrompidos e triunfantes,

Que possuem a expansão do universo sem termos
Como o sândalo, o almíscar, o benjoim e o incenso
Que cantam dos sentidos o transporte imenso.

- Charles Baudelaire
(extraído de "As Flores do Mal")

Thursday, May 05, 2005

O visitante indesejado

A tristeza e seus contornos fazem seu trabalho, inspirando beleza e sinceridade. Um azul que vem e não anuncia a hora de passar. Se instala, firmando raízes, emaranhando-se na mente humana, onde faz sua história. Loucuras, paranóias, neuroses. Dor, um vazio. Nada ao redor, apenas o vácuo, inerte e inerente à vida de cada um. A afirmação, e a aceitação, ainda que relutante, de que todos estão sós, sempre.
O sol, ao longe, brilha, mas já com cara de passado. Seus raios levam tempo para serem percebidos pela visão humana. Breu. De óculos escuros, caminhando entre folhas secas, pregos enferrujados ao chão e moscas fedorentas que se esbarram e caem ao morrer.
Uma saída, talvez o fim disso tudo. Enfim, uma solução. Seria real? Sincera? Pode ser, mas é muito incerto.
A solidão que assola e bate na porta, mesmo que não a aceitemos. Insistente, ela berra e sai, deixando um bilhete por baixo, uma fresta. “Um dia ei de voltar para te buscar”.

Saturday, April 30, 2005

Uma noite qualquer, em um bar inglês

Se eu pudesse escolher uma pessoa, qualquer uma, viva, para trocar uma idéia, esta seria... bem.. vou criar um pequeno suspense, mas espero valer a leitura. Cheguei a essa conclusão ontem, enquanto um amigo me contava um acontecido. Sua ex-namorada, que foi na Inglaterra para morar por uns tempos estava em um bar - como se faz aqui no Rio ou em infinitos lugares pelo mundo todo. Fora com uns amigos, apenas com o objetivo de sair de casa para variar um pouco – e conhecer gente nova, algo que faz parte da natureza humana. Foi até o balcão e sentou-se. Pediu uma bebida – não sei qual – e ficou tranqüila por uns momentos. Olhou para as amigas, olhou para o lado. Apenas observando o ambiente. Olhou para o lado esquerdo. Nada de incomum, a não ser por uma figura que ela parecia ter reconhecido, mas não parecia acreditar que fosse verdade. Paralisada, ela contemplava o que havia encontrado. Um rapaz quieto, sozinho. Bebendo como todos que ali estavam; em silêncio. Ele percebe que ela o fitava ininterruptamente. Ela tremeu um pouco ao ver que o rapaz olhara agora para ela. E, com uma expressão mista de riso, desconcerto e cansaço, ele lhe arremessa uma bomba. “Yes, I´m Thom York”.
Thom York é vocalista (voz principal, back vocals e letras), guitarrista e pianista da banda inglesa Radiohead, cultuada por nove a cada dez admiradores ou músicos do Rock contemporâneo e de vanguarda, desde a década passada (anos 90). Suas letras misturam surrealismo, crítica social, política e crises emocionais.

Tuesday, April 26, 2005

No lago da dor, a correnteza

Ao se olhar no espelho, sente algo diferente. Uma incerteza, um desconforto. Reprova sua própria imagem. Não quer mais olhar - não admite. Vira as costas como se fosse adiantar. O sentimento o persegue, fazendo-o entender que não existe para onde ir, onde se enfiar. O gosto desagradável da consciência, da reprovação – que até ele mesmo faz; muito mais até que os outros – lhe invade o corpo e tenta lhe rasgar. Bufando e suando frio e quente, se debate como um animal selvagem, até acerta com a cabeça na porta. Tudo roda e ele cai. Desaba, agora tanto psicológica como fisicamente. Estirado ao chão, lamentando, começa a tremer, nervoso. Com os dentes se atracando e aparentemente sem forças, cambaleia ao se levantar e vai de encontro à porta do quarto. Gira a chave e tranca, isolando-se, e atira a chave a um rumo qualquer que não se preocupa em acompanhar. Chora. E chorando, se arrasta pela parede que agora o mantém protegido de todo o resto, tudo que está de fora. Sua vida, o mundo, tudo. Seu mundo agora é outro, ao menos por agora. As dores de cabeça aumentam, devido a intensidade da pancada. Não há mais cigarros na cabeceira ou bebida nas garrafas caídas pelo chão. Apenas sua cama, que parece não julga-lo ou reprova-lo por nada, é indiferente. Inicia então um monólogo, daqueles deprimentes, de quem está cansado e sem crenças. Estas foram dar uma volta e não avisaram quando retornam. Entra debaixo do lençol e se cobre, abraçando o próprio corpo. E torna a chorar, sozinho.

Saturday, April 23, 2005

Mais um pouco de uh

Acredito, agora, que muitas coisas acontecem de forma programada. Coisas que não se parecem com coincidências devido a sua influência nos rumos que nossas vidas tomam e nas experiências que adquirimos com elas. Peças que pareciam não ter uma cor muito certa ganham expressão, tornando-se parte fundamental de algo. Isso tem ocorrido muito, mas apenas porque eu prestei atenção e assimilei passado e presente, baseado no que eu projetava como futuro, ou com o que eu achava que seria mas não deveria acontecer, e levei um tempo para perceber. Acredito que, alguns dias, o mundo inteiro conspira a nosso favor. Como se estivéssemos caminhando rumo a um lugar, que muitos pregam como sendo uma missão. Quanto a isso, não sei não. Mas não duvido nada.

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Esta semana foi perfeita. Muito cinema - fiz meu próprio festival ontem, assistindo dois filmes em seguida -, chopp e um ensaio incrível com o meu novo baixista, que animou tanto eu quanto o baterista, uma vez que misturamos Mars Volta com Jazz - espero que não tenha soado pretensioso demais; mas se a pretensão aqui for apenas "ambição" com um pouquinho de vaidade, não será exagero.

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Alguns filmes bons:


- "Janela Secreta" ( c/ Jonny Depp)
- "A Informante" ( c/Kidman e Sean Penn - ver os dois no mesmo filme dá imenso prazer)
- "Reencarnação" ( c/Kidman)
- "A Última Tentação de Cristo" ( c/ Willem Dafoe)
- "Fale com Ela" (é do Almodovar)
- "Antes do Pôr-do-Sol" ( c/ Ethan Hawk e Julie Delpy)
- "Sobre Meninos e Lobos" ( c/ Sean Penn!!!)
- "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" ( c/Jim Carrey e Kate Winslet)
- qualquer filme em que mostre Angelina Jolie ou que tenha trilha do Phillip Glass
- "Laranja Mecânica" ( do Kubrick)
- "Janela Indiscreta", e, "Festim Diabólico" ( ambos do Hitchcock)
- "Crepúsculo dos Deuses" ( sei lá de quem é, mas é antigo e em preto e branco)

Saturday, April 16, 2005

À espera

Outro dia. Os copos em cima da mesa, a mobília no lugar de sempre. Saudades percorrem a mente. Hoje é um dia bom – ao menos teria tudo para ser; mas na verdade o é. Viemos aqui para nos encontrar como algum tempo já não acontecia. Um filme. Não foi muito bom, como haviam dito, mas deu para distrair.
O som dos pensamentos corre pelas paredes, que parecem aprisionar esta vida, que por sua vez tanto busca a libertação. Infelizmente hoje essa libertação só viria por completo se de mãos dadas com uma paixão, uma atração fatal, que quando passa deixa seu rastro e nada mais parece ser como era antes.
Nuvens de um tom acinzentado se aproximam, como posso ver ao olhar pela janela. Seria fácil encontrar aí uma analogia com o estado atual das coisas. Tudo vai, mas ao mesmo tempo sem muita cor. O desbotamento incomoda. Se trata de uma condição natural, embora eu me recuse a aceitá-la. Na verdade não a desejo e pronto. Nada de aceitação, redenção.
Na rua tudo fica mais bonito. As luzes abrem caminho para novas esperanças, regadas na previsão de que hoje À noite haverá vinho. Vinho e champagne, que funcionam como lentes de contato que nos abraçam para dizer que a noite é linda e gostosa. Da mesma forma como aquela pessoa que ainda não sabemos qual vai ser, mas que será a próxima a repartir nossos sentimentos.
Um brinde. Um brinde aos que se esforçam e tem esperanças. E outro aos que esperam por algo que ainda está por vir – não se sabe quando.

Thursday, April 14, 2005

Em algum lugar

Sinto saudades, uma falta
Quero o que antes tinha
Um sentimento
Daqueles bons e gostosos
Refrescantes

Algo passou, deixando rastro
Uma marca bonita
Lembranças das quais não me arrependo

Seu perfume ainda não senti
Seu beijo, ainda está em minha boca
Mas na grafia deste geoplaneta
Estamos distantes

A mente dando golpes
Aos quais nem sempre temos defesa
Nos deixando inconscientes
Do que realmente acontece por dentro e por fora

Vida
Calor e afeto entrelaçam-se
Uma presença que não se esvazia por completo

Suas mordidas em minha alma
Meu corpo sujo e decadente
Pronto para a volta, o resgate
De tudo que eu sei que sou
Mas ontem havia me esquecido

Olho com olhos vivos e percebo
Que antes iludido,
Agora esclarecido,
Sua voz continua a passear
Em minha vida,
Em algum lugar

Monday, April 11, 2005

Visões sugeridas e duas notinhas


Visões sugeridas

Acredito que, no processo de formação da consciência da realidade, ou seja, o parece que estamos vendo, exista uma conexão feita com o que acreditamos, o que queremos acreditar, nossos medos, nossa coragem, e o quanto nos permitimos - também por meio das experiências vividas - levar em conta como conceitos e teorias previamente comprovados.
Ou seja, as experiências passadas, nosso conhecimento adquirido - parte dele também filtrados por nós mesmo e por outros, que deixamos filtrá-lo por nós -, e nossas crenças interferem MUITO na nossa percepção de realidade. Um exemplo? Eu já passei por momentos em que uma determinada mulher se mostrava muito mais importante do que ela na verdade era. Eu ME PERMITI isso. Não que tenha sido uma escolha voluntária, mas não dependia dela - da mulher. Dependia de como eu enxergava a situação. Também é por isso que, ao amadurecermos - e isso é algo que deveria ocorrer continuamente -, passamos a entender melhor a vida. Isso se estivermos dispostos!

PS (post scriptum): o medo, que eu tanto abomino - quem lê o que aqui escrevo assiduamente sabe - pode nos atrapalhar ao tentarmos compreender a realidade, como uma fuga nossa, no intento de nos defendermos daquilo que nos assusta - embora esteja ali, não há como fugir.

PS 2: os desentendimentos existem porque pessoas diferentes criam percepções diferentes, e estas acabam por geram conflitos.

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Existe uma música, da excelente banda Muse, que diz assim "paradise comes at a price that I am not prepared to pay...". Não me lembro do nome dela, mas é a última música do segundo CD da banda.

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Nem sempre preciso que vocês digam seus nomes para que eu tenha a certeza de quem foi que escreveu - mas ainda aprecio muito a gentileza dos que assinam seus pensamentos; quem não quiser não precisa, não vamos forçar uma barra aqui.

Saturday, April 09, 2005

No corredor escuro

Num corredor negro, aparentemente vazio, encontro a imensidão do desconhecido. Pode ser qualquer forma, qualquer caminho – embora eu sinta, ou até mesmo perceba, que ele me leva a um determinado lugar. Tomo meu rumo e sigo em frente. Com os ruídos estranhos passeando ao redor da minha cabeça, brincando com os meus sentidos – sim, os sons são notáveis e percebidos também pelo tato! – se esforçam. Em que, isso eu já não sei mais; mas eles continuam presentes assim mesmo.
Um passo após o outro, vou conhecendo o terreno, preocupado em não acertar nenhum obstáculo ou cair em um buraco – torcer o pé ou quebrar o nariz aqui não seria uma visão das mais desejadas; aliás aqui todas as visões são imaginadas, formadas por meio de sugestões que levam a conclusões – podendo estas estarem erradas!
Ouço vozes. Parecem vir da esquerda. Um diálogo. Desconfio que estejam falando de mim, tramando alguma coisa. Acerto algo com o pé. Provavelmente uma pedra. Pesada! Busco-a e, depois de contemplar por instantes minha idéia, atiro-a ao longe. Nem sabia que seria capaz de tamanha força. Mas.. estranho... não fez nenhum barulho, não houve reação. Continuo mais um pouco à espera, mas não adianta, não há nada.
Começa a ventar, e muito. Uma ventania fria e quente ao mesmo tempo. Pingo de suor enquanto saio em busca de um casaco. Ora bolas, como poderia encontrar um agasalho se eu nem mesmo sei onde estou! O vento se fortalece aos poucos, me forçando levemente para trás; e tornando a minha jornada bastante desagradável.
Lembrando que desagradável mesmo seria um cisco em meus olhos, me apercebo de óculos. E desde quando eu uso óculos? Ainda mais à noite! Será que é mesmo noite? Pode ser um estado fora do comum,uma realidade com a qual ainda não esteja acostumado, onde não existe o famoso Dia.
Tiro, então, os óculos, e enxergo luzes. Luzes bem fortes, como se fossem holofotes incandescentes, loucos para cegar qualquer um que ouse toca-los com seu irrisório e previsível olhar. Aos poucos minha vista se adapta a situação, quando já posso distinguir formas. Vejo postes, diversos e enfileirados, como se seguissem ao infinito – que neste momento entendo perfeitamente como a incapacidade de imaginar o todo. Todos do lado esquerdo. Estou em uma rua, embora esta se pareça, ainda, com um corredor. A mão é única e não vejo ninguém. Mas ainda posso escutar as vozes. Não saberia ao certo de onde vêm, mas elas estão por aí.

Wednesday, April 06, 2005

Pensamentos

"Começar é a parte mais importante de qualquer trabalho"

-Platão


"A imaginação é mais importante do que o conhecimento"

- Albert Einstein


"Nunca se vai muito longe quando não se sabe para onde está indo"

- Johann Wolfgang von Goethe

Sunday, April 03, 2005

Tudo em casa

Três horas da manhã, na passagem de um sábado para um domingo qualquer. Na verdade não é um fim de semana qualquer, mas seria não fosse por uma surpresa gostosa. Ela veio da França diretamente para o Rio e comigo está a passar o fim de semana na montanha gelada. Nos divertimos bastante e, após um pouco de vinho e um bom bate-papo, ela foi dormir. Não é um sentimento como os outros, mas é um tipo de amor. É um amor mais tranqüilo, sem neuroses, como se ela estivesse substituindo a irmã que eu nunca tive – e que sempre busquei, mas, em geral, esse tipo de coisa chega sozinho, sem que você pense nisso. Ela dorme no meu quarto, na cama do meu irmão que já não mora mais aqui. Interessante isso. Meu irmão sai e entra essa menina meiga e doce como nunca se vira antes, como que se estivesse avisando que seu papel é realmente de uma irmã – e na cama do verdadeiro irmão! É, algumas vezes eu exagero nas explicações, espero não estar tornando esta leitura uma coisa muito chata.
Cães latem lá fora, numa madrugada em que se torna impossível o resgate da sensação infernal que é o verão carioca – faz frio. Todos estão deitados, menos eu; mas isso já está claro para você, uma vez que pode ler o que eu escrevo. O celular marca as horas. O computador também, e assim o faz o relógio de parede da sala. Todos avisando que já é madrugada, que estão quase todos dentro de seus sonhos inconscientes, e o programa livre, que já não tem mais o mesmo nome, mostra o Veríssimo filho em entrevista com o Serginho.
Não gosto de ficar sozinho à noite, parece que o mundo acaba, que está vazio e que eu nunca mais vou escutar a voz de nenhum ser vivo, apenas gravações de seres que nunca tive a oportunidade de conhecer e que se mostram bastante distantes de mim agora. Nesses momentos agradeço ao inventor da televisão. E a rede globo também, quem diria. Se tem uma coisa que eu nunca faço essa coisa seria me deitar sem estar com sono. Impossível. Sempre que eu me deito é para dormir dentro de uns poucos minutos, de preferência ao som de uma música gostosa, nada de Shostakovitch – não sei se está escrito corretamente. Uma vez tentei conhecer o compositor enquanto me deitava e a experiência foi a mais próxima de um suspense que eu já vivi – me levantei correndo com o dedo indicador apontando ereto na direção do off.
Peraí, voltando à Terra. Aude acaba de chegar aqui dizendo “porra, ta muito alto isso”, com aquela cara de quem tenta dormir e não consegue. Não faz muita diferença para mim, já que está passando um daqueles filmes que não têm importância para ninguém. Agora vou parar de escrever, vou ver se faço outra coisa. Para quem estiver a dormir uma boa noite. E para quem estiver no meio do dia, leia este texto antes de dormir.

Thursday, March 31, 2005

Algumas palavras sinceras


à sua porta

Um toque seu e me encontro
Prostrado à sua porta
Pedindo um pouco
Para matar a sede

Junto com a água vem a ternura
O charme
Seus movimentos quentes e leves

Sua beleza pueril
Seus medos
Ambos me envolvem como nunca antes
Mas nada de claustro
Me sinto livre

Ao abrir a porta
Você me convida para uma viagem
Da qual
Não posso abrir mão

Tuesday, March 22, 2005

Indelével

Indelével é a dor
É a saudade
A imagem que tatuada nas paredes,
Por dentro,
Ecoa.
Uma lembrança
Um sonho
Noite mal dormida
A inconstância do tempo

Passeia com o vento
E à casa torna.
Mais um re-torno
Uma janela
Uma voz
Um sussurro
Um doce abraço

Um mergulho?
Não seria muito bom
Confundiria as marcas
E a lembrança
Que não é apenas doce,
mas conforta



* o poema foi passado a limpo ao som de "the blower´s daughter", rompante sucesso atual europeu, presente na primeira cena do filme Closer; responsável também pela onda de idolatria gerada ao redor da imagem de Damien Rice, seu compositor e quem a executa musicalmente

Sunday, March 20, 2005

O menor conto do mundo

"Quando ele acordou, o dinossauro ainda estava lá".

- Monteroso

Monday, March 14, 2005

Uma carta

Uma menina de 8 ou 10 anos, Emilie M., que tocava piano, certa vez bordou uma capa de livro para seu ídolo, contendo palavras de admiração. Segue abaixo uma carta escrita em resposta a ela, no dia 17 de julho de 1812, enquanto quem a escreveu estava se recuperando de um trauma psicológico causado pelo recrudescimento de sua surdez, num spa em Teplitz. Vale ressaltar que este não conhecia sua admiradora.



Minha querida e gentil Emilie, querida amiga!


Minha resposta à sua carta vai chegar atrasada. Uma grande quantidade de trabalho e uma enfermidade persistente podem me desculpar. O fato de que estou aqui para recuperar minha saúde comprova a verdade de minhas desculpas. Não roube a Haendel, Haydn e Mozart os seus lauréis. Eles os merecem, mas eu ainda não mereço nenhum.
A capa de livro que bordou será guardada como um tesouro, junto com outras provas de consideração que muitas pessoas me dispensaram, mas que ainda estou longe de merecer.
Persevere, não apenas pratique sua arte, mas se esforce também para compreender seu significado interior; merece o esforço. Porque apenas a arte e a ciência podem elevar os homens ao nível dos deuses. Se algum dia, minha querida Emilie, tiver o desejo de possuir qualquer coisa, não hesite em me escrever. O verdadeiro artista não tem orgulho. Ele vê, infelizmente, que a arte não tem limites. Ele tem uma vaga percepção de quão longe ainda está de seu objetivo; e, embora outros possam talvez admira-lo, ele lamenta ainda não ter chegado ao ponto, caminho que seu melhor talento apenas ilumina como um sol distante. Eu preferiria visita-la, e à sua família, que visitar muitas pessoas ricas que traem a si mesmas com a pobreza do íntimo do seu ser. Se algum dia for a H. (provavelmente Hamburgo), visitarei você e sua família. Não conheço maior privilégio do que ser incluído entre as melhores criaturas de seus semelhantes. Onde eu as encontro, aí também encontro o meu lar.
Se quiser me escrever, querida Emilie, mande sua correspondência diretamente para Teplitz, onde permanecerei por mais quatro semanas. Ou mande-o para Viena. Realmente não importa. Pense em mim como um amigo, seu e de sua família.


Ludwig van Beethoven


Wednesday, March 09, 2005

Desista, você não é um gênio!

Não adianta. Por mais que se prossiga, que se evolua, sempre continuam a existir idiotas. Pessoas que acreditam em coisas como certas não estão por dentro da realidade – acho que não preciso dizer que se trata de um ponto de vista pessoal, até porque quem escreve estas palavras sou eu. Seria ingenuidade demais.
Estava numa aula hoje quando um professor tropeça em suas próprias palavras e sou obrigado a me manifestar. Não poderia guardar, me conter. Era muito para ignorar. Logo após, cerca de minutos, ter dito que pouco tempo atrás cientistas e teóricos afirmavam que o cavalo era um meio de transporte insuperável, mostrando, então, por meio de um desenvolvimento das idéias, que o ser humano acredita que sabe de algo, até o lindo dia em que se percebe enganado. Ele poderia também ter utilizado o exemplo de quando se acreditava que a Terra fosse quadrada. Nos parece uma idéia estapafúrdia, sem pé nem cabeça, mas um dia foi dito que era assim e, nós sabemos que, quando o burro máster fala, os outros burros abaixam a cabeça – outra coisa que me causa bastante revolta, esse negócio de aceitação total, como se tudo que tivesse para ser descoberto e rompido já estivesse no passado, não havendo possibilidade de se inovar ou mudar conceitos, uma vez que “os gênios estão mortos”, ou “nós não somos capazes porque somos inferiores”.
Este mesmo professor dissera, também, que Albert Einstein afirmou que suas descobertas vinham de “99% de transpiração e 1% de inspiração”. Até este momento ele cometeu dois erros. Um porque defendeu que os paradigmas e as coisas tidas como certas podem não ser necessariamente verdades e, quando eu discordei dele, me disse “então escreva uma teoria, porque sabe-se que não é desta forma, diversos teóricos pregam o contrário”. E dois, porque após ouvir a minha resposta, “se eu estivesse disposto, eu o faria”, ele retrucou com um “devemos ser humildes”. Agora vejamos um ponto crucial aqui: o cara afirma que o gênio mor – na cabeça dele – defendia o esforço como mais importante que a inspiração e logo após, duvida da capacidade humana de trabalhar idéias! Não se trata de ser humilde ou não, se trata de valorizar o potencial de cada pessoa. Eu, particularmente – sendo que não me encontro sozinho nessa – acredito que se você quer, realmente, e corre atrás, você surpreende a todos com seus resultados. Isso não é ser megalomaníaco ou, muito menos, pedante. Isso é não ser iludido pela lavagem comercial que se faz no mundo – não apenas o atual, mas sempre foi assim – de que um ídolo deve ser diferente dos outros, que ele é um ser superior.
Ninguém pode ter certeza de nada. Tanto economistas como meteorologistas estudam e se especializam com o objetivo de fazer previsões, que frequentemente não ocorrem como fora afirmado. Você pode pensar, como eu o fiz por alguns instantes, que os únicos que sabem a verdade total são os historiadores e os arqueólogos. Mas, pensando bem, eles também não. Por que? Pelo simples fato de dependerem de análises e pesquisas que podem ter sido vítimas de uma série de erros - humanos -, enganos e até mesmo de manipulações propositais. O que se sabe ao certo? Nada. O que acontece é que gostamos de acreditar que está tudo resolvido e que podemos voltar para nossas vidinhas quadradas e medíocres, enquanto enganamos a nossa intuição – que é bem mais forte que a nossa consciência, por ser trabalhada pela parte inconsciente do nosso cérebro.
Para terminar, gostaria de citar uma frase bastante interessante, que ganhará destaque e respeito, fazendo das minhas palavras algo muito mais coeso, uma vez que seu autor – o da frase que estar por vir – tem moral para peitar muita coisa. Outro ídolo.
“A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada” (William Shakespeare)
Agora me diz se minhas palavras não passaram a fazer mais sentido...

Monday, March 07, 2005

Gatos, rock e a noite negra

Cansado. Com o anúncio de que outro dia quase chega ao “the end”, o silêncio se esforça para tomar posse do todo, do tudo, sem deixar nada de fora. Só não consegue – mas não se esforça para isso – calar os deprimidos, os que se colocam de mal com o mundo e os eufóricos. Estes estão irremediavelmente aos gritos, berros, choros e soluços, comemorando ou amaldiçoando a Deus e ao mundo por tudo que existe. Pela noite ser triste, pelo mundo ser assim, por tudo dar certo.
Gatos passam quietos e observam tudo a distância, com aquela malandragem que os cães tanto desejam ter, mas não podem. Eles sabem que os felinos são muito mais articulados e articuladores que eles. Ficam observando tudo que acontece. As brigas, as mortes, as festas, os ensaios e até mesmo aos programas enlatados de TV. Traiçoeiros sim, mas não por mal. Faz parte da natureza deles. Igual às mulheres. Lindas e poderosas, querendo garantir sua existência. Enquanto os “melhores amigos do homem” são como seus donos. Fracos, tentam impor respeito tendo como arma a força bruta, mas acabam perdendo. E depois de perderem eles latem por aí, desconsolados, coitadinhos. Tão ingênuos.
A noite chega ao mesmo tempo para todos, mas alguns destes a recebem melhor. As vidas destes estão agitadas demais para se preocuparem com o silêncio ou terem medo do vazio, do escuro, como se isso fosse refletir o nada, a falta de sentido do tudo. Um horizonte negro pode assustar, principalmente se sua imaginação for excessivamente fértil, como é o caso dos humanos.
Uma música. Sim, isso é bom.. ou não. Tem músicas que nos trazem de volta aquele sentimento de vida. Nos dão orgulho de nosso passado. Bem melhor do que as outras, que são capazes de nos levar numa viagem aparentemente, e assustadoramente, sem volta, onde nos afogaremos em mágoas e incapacidades. Em medos, em incertezas. Em paixões. Em monotonia. Em gatos e cachorros. Ou em viagens onde nosso inconsciente tenta se externar. Ainda não sei se prefiro um ou outro. Talvez um Rock´n Roll. Ou não.

Sunday, March 06, 2005

Fiona Apple!!!

Acabei de encontrar um site onde estão disponíveis 5 músicas do novo álbum da Fiona Apple, chamado "Extraordinary Machine". Estas mostram de forma concreta o porque de a sony estar pedindo músicas mais comuns, uma vez que o terceiro trabalho da "multi-platinum" Fiona está no caminho de uma evolução constante no que diz a trabalhar sua música como arte.
Embora a Sony se preocupe em encontrar uma música mais dentro dos moldes mais comerciais, Fiona não se preocupa em compôr algo com o objetivo de agradar a quem quer que seja, apenas faz o que acha ser o melhor.
As músicas podem ser encontradas no link

www.geekdreams.com/mp3/fiona_apple/

E ainda há um site com as últimas notícias dela

www.fionaapple.org/

Sunday, February 27, 2005

Radiohead

Sem muito rumo na internet, buscava algo de interessente, enquanto ouvia o mais recente álbum do Radiohead, "Hail to th Thief". Como estava com o Soulseek aberto, resolvi baixar o antigo CD "The Bends", que faz tempo emprestei a um amigo, que emprestou a uma ficante, que não morava na cidade e foi-se embora para nunca mais voltar com o meu CD. Eu já comprei o CD antes, não posso ser acusado de nada por estar dizendo que baixo música sem pagar - mas acho que posso deixar subentendido que amanhã completo 30 CD´s virgens para este início de ano... Só uma observação: como será que uma pessoa poderia conhecer o trabalho solo de Van Dyke Parks aqui no Brasil, já que ele não foi lançado? Pô, é da década de sessenta! Nem rezando pra Santo Espedito...
Abri o site cifraclub ponto com, para ver se eles têm disponível a tablatura da música Go to Sleep, do Hail to th Thief, e vi que têm. Ufa, que alívio! Isso me faz lembrar que o Radiohead tinha um site oficial bem fora do comum, como se fosse uma continuação do trabalho deles como artistas de vanguarda. Entrei no www.radiohead.com e me deparo com uma surpresa. Eles renovaram a cara do site, ficando ainda mais bizarro e criativo. E logo após uma clicada e uns parágrafos encontro o seguinte texto que apresenta o, provavelmente, chat do site:
The Radiohead message board is here. It has lurkers. It has multi-coloured text. It has Blues. Blues are real. They are who they say they are, that is US. Sometimes people just come here to chat you know. Sometimes they come here to hurl abuse at each other. Sometimes they talk about music. Sometimes they've had a little bit too much to drink and they' are liable to say things they might regret. But thats ok. After all, who's listening?
Me senti bem. Coisas novas, gente inovando. Assim o mundo ainda tem jeito. E sempre com um bom humor por trás também.

Thursday, February 24, 2005

Andante

Na rua sem cor
Ele anda
Uma rua sem vida,
Ela apenas
Existe

O silêncio do mundo
Não lhe priva da
Barreira e do
Temporal
Pensamentos constantes

A cada loja
Bate, a porta
Bate de volta
Seu vazio
Nenhuma
Se abre

Nuvens cinza
Sem cor
No céu,
Silêncio

Nasce um dia
Morre uma noite
E o duelo se
Perdura
Se
Eterniza

Seus passos
Ecoam
Pela rua, como uma
Garagem
Trancada, isolada
Dentro deste tudo,
Separada por paredes

Não se ouve sua voz
Mas continua a
Falar
E há de continuar,
Até que sua lua se vá
Igual a noite,
Que morre, para o dia
Nascer

Tuesday, February 22, 2005

Encontrei algo bem apropriado...

Working class hero (John Lennon)

As soon as you´re born they make you feel small
By giving you no time instead of it all
Till the pain is so big you feel nothing at all
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

They hurt you at home and they hit you at school
They hate if you´re clever and they despise a fool
Till you´re so fucking crazy you can´t follow the rules
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

When they´ve tortured and scared you for twenty odd years
Then they expect you to pick a career
When you can´t really function you´re so full of fear
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

Keep you doped with religion and sex and TV
You think you´re so clever and classless and free
But you´re still fucking peasants as far as I can see
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

There´s room at the top they telling you still
But first you must learn how to smile when you kill
If you want to be like the folks on the hill
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

If you want to be a hero well just follow me
If you want to be a hero well just follow me

Monday, February 21, 2005

Mocinhos e bandidos - a vida real

Tudo está relacionado com pontos de vista. A maneira como enxergamos as coisas afeta o que seria a nossa concepção de realidade. Realidade pode não ser um conceito certo, mas uma forma de identificar o que existe a partir dos olhos que estão dispostos em frente a ela – às vezes até mesmo distantes. Se acharmos que estamos passando uma maré difícil, com certeza vamos acreditar que nada está a nosso favor. E o mesmo ocorre do outro lado. Não crer em barreiras intransponíveis ajuda, e muito. Se você acredita numa coisa e não quer saber se aquilo é difícil, e se corre a tas para derrubar tudo, acaba conseguindo – ao menos muito mais facilmente do que esperando sentado dizendo que o mundo é cruel.
Vejo pessoas dizendo que o mundo vai de mal a pior. Que estão pra baixo, em depressão, ou de qualquer forma que seja uma pista de que elas não foram escolhidas por alguma divindade e que sua missão no mundo seria sofrer, apenas. Isso, a meu ver, é uma forma de se esquivar da realidade, de se esconder atrás de uma cortina, para que estejam em paz sem as cobranças do cotidiano de uma pessoa que segue sua vida. Isso tudo se baseia no medo – mais uma vez prego que é o nosso maior problema. O medo de escolher errado, de não saber o que fazer, que rumos tomar, faz com que muitos se sintam inseguros, lógico. Muito é exigido de nós, mas pouco nos é explicado. Para que a vida, para que a morte, em que/quem devemos acreditar, qual seria a religião definitiva etecétera e tal. Quando tínhamos alguém para nos dizer todas as respostas certas estávamos mais felizes, não é menos que as crianças geralmente são mais felizes que os adultos. Elas não acreditam em tudo e não precisam buscar suas próprias respostas. Mas não existem respostas fáceis ou definitivas.
Podemos perceber nitidamente a aplicação deste conceito no caso dos fanatismos. Pessoas que não fazem a menor idéia de para que isso tudo e mais um pouco tendem a ser absurdamente apegadas a alguma coisa. Religiões, times e etc novamente. Isso tudo não serve para nada, a não ser para juntar indivíduos que se sentiriam sozinhos e sem nexo jogados pelas terras vazias e sujas se não fosse um grupo que busca junto com ele por um ideal, mas esse ideal é inventado. Busca-se o que está mais próximo, na maioria das vezes. Qual a sua religião? A maioria das pessoas diria que é a mesma dos pais ou de familiares próximos. Qual o seu time? A resposta seria a mesma na maior parte dos casos. Enxergamos aqui uma nítida prova de que o que se busca é acreditar em algo que pareça valido e real, conclusivo. Algo que acabe de uma vez por todas com a nossa busca por um sentido. Para que eu precisaria correr atrás do sentido da minha vida se meus pais e meus professores já o sabem e me disseram quando eu era pequeno? É assim que muita gente age, sem se dar conta da gravidade do quadro e até mesmo da existência do problema.
A depressão, por exemplo, é uma forma de dizer “eu tenho problemas e não posso de forma alguma tomar decisões importantes, minha vida é uma porcaria e é assim que vai ser”. Essa auto-exclusão da realidade, pintando o exterior de cruel e maligno é que faz tudo ir para o lado errado. É uma saída, uma tentativa de escapar da responsabilidade de buscar o seu lugar e, errando e aprendendo – e isso leva tempo, além de dar muito trabalho -, se encontrar finalmente. Há aquela dúvida “será que existe um lugar para mim? E se não existir?”. Por conta disso nasce a necessidade de se esconder.
Ao olhar para as pessoas que estão caminhando para frente, aqueles que sabem muito bem a que fazem parte, se ele está no lugar certo, pode ter certeza de que teve que tomar decisões. Muitas delas duras e assustadoras em um primeiro momento, mas é aí que entra a tão sonhada coragem. Queríamos ser iguais aos heróis da TV, mas não achávamos que era possível. É sim. Não só é possível, como nessa história quem está preso no esconderijo do bandido é você. Não existe impossível. De uma forma mais ampla, não existe o tal do impossível na maior parte dos casos. O que é a nossa falta de confiança na capacidade que temos.

Friday, February 18, 2005

Com a palavra.. Ella

“Tu és o arquiteto de teu próprio destino. Trabalha, espera e ousa.”

- Ella Wheeler Wilcox (1850-1919)

Wednesday, February 16, 2005

"Espero o dia passar..."

Cinco horas da tarde, do dia dezesseis de fevereiro de dois mil e cinco. No som toca uma música da extinta banda Penélope, numa busca por saber como é a voz da menina – pessoalmente milhares de vezes mais bonita e atraente do que parece.. principalmente quando ela fala com você - que está para iniciar sua carreira solo, como mostra o caderno de cultura do jornal – não vou dizer qual. Disquetes, CD´s virgens, pedaços de papel , balas de mel-própolis-gengibre, uma caneta preta e uma caixa de lenços de papel fazem companhia ao computador, espalhados na mesa, enquanto este texto é escrito. Nos cd´s encontramos Debut, da Björk, Billie Holiday, o Réquiem, de Mozart, algumas sonatas beethovianas para piano, Elvis Presley com sua póstuma coletânea de mega-sucessos, Chopin, sozinho ao piano – ok, ele escreveu, mas quem gravou foi outro cara.. não imagino outra forma, uma vez que ele morreu em 1849.. Chopin, não o cara que gravou – fora outros CD´s, mas já me cansei de citar nomes, isso aqui não é uma lista ou mesmo o Sonar, do Segundo Caderno. Ok, só para mencionar, Sgt. Peppers não poderia deixar de ser lembrado, seria um absurdo! Muito menos As Quatro Estações, de Vivaldi – que Sandy & Júnior e Legião usaram o nome para fazer algo muito menos magnífico.. talvez infinitamente menos.
Penso na situação atual da música, dos artistas e o que eles pensam – me considero um também, músico, mas não tenho condições de invadir a cabeça dos outros, por isso fico a imaginar. Muita gente correndo atrás, muita gente com coisa boa, muita gente com coisa ruim, mas ruim mesmo e sem a menor noção de realidade – seria eu um destes?, prefiro pensar que não... Faz parte dos sonhos de cada um encontrar algo a que possa se agarrar e se jogar com força e alma, por completo. Mas não basta encontrar, porque muita gente já achou e não percebe possibilidade alguma de poder seguir seu caminho. É triste. Por enquanto vamos correndo atrás das nossas ideologias, ao menos até o dia em que nos decepcionemos por completo e plantemos aquela velha frase que diz que “esse mundo não presta!”
Bom, acredito que ele preste sim, embora não para todos. Para os que merecem? Não diria assim, mas diria que para os que estão no lugar certo, ou vão atrás de tal lugar.
OBS: Fiquei espantado de ver que o “White Stripe” Jack White – vale lebrar que é roqueiro - produziu um CD de música Country que recebeu um Grammy! Estranhíssimo isso. Parece ser um que busca seu caminho – ele também está presente em cinco músicas da trilha do filme Cold Mountain, em outro estilo completamente diverso.

Friday, February 11, 2005

E mais Fernando Pessoa

Ameaçou Chuva

Ameaçou Chuva. E a negra
Nuvem passou sem mais...
Todo o meu ser se alegra
Em alegrias iguais.
Nuvem que passa... Céu
Que fica e nada diz...

Vazio azul sem véu
Sobre a terra feliz...

E a terra é verde, verde...
Por que então minha vista
Por meus sonhos se perde?
De que é que a minha alma dista?

Monday, February 07, 2005

Ninguém escapa

Andei pensando em diversas pessoas. Como elas são, como elas encaram a vida e como elas se relacionam. Família, amigos, conhecidos, pessoas famosas e até mesmo eu. Nenhum me pareceu “normal”. Nem mesmo os mais inteligentes. Aliás, principalmente esses.

Friday, February 04, 2005

O teatro da vida

Sabe qual é o grande problema da vida? Todos os objetivos, as realizações e os significados são inventados, e além disso, como se não bastasse, a nossa mente também cria dificuldades e perturbações que nos causam insatisfações. A vida é um teatro onde um bom ator é aquele que interpreta seu papel tão bem que se sente seu próprio personagem.

Tuesday, February 01, 2005

Passeando pelo séc. XVIII

Depois de entrar em uma das melhores livrarias do Rio, sem um rumo específico que não o de me inserir naquele infinito de possibilidades diversas, vaguei curioso. Olhava para todos os livros que estavam em meu caminho, como se buscasse por um – na verdade buscava, mas por uns instantes preferi o acaso – até que, cercado de beleza e riqueza por todos os lados, notei um livro com o qual já havia paquerado antes. A mais recente biografia de Beethoven estava ali, em cima de uma mesa largada na desordem – algo provavelmente proposital, para que um funcionário viesse depois e arrumasse todos aqueles variados títulos – olhando para mim, enquanto eu olhava para ela. Não me envergonhei da troca de olhares e fui para o ataque.
Assim que peguei o livro – que atiça com seu peso e volume de páginas – notei que havia duas poltronas perto de onde estava. Uma delas estava ocupada por um senhor de uns prováveis setenta anos que lia descompromissadamente um livro da loja, a outra ainda estava vazio – por pouco tempo. Sentei-me na poltrona, coloquei minha jaqueta preta no braço dela e comecei a folhear o livro. Bem, na verdade não estava disposto a folhear, queria mesmo era lê-lo por inteiro. Fui para o prólogo. Li-o por completo e passei para o primeiro capítulo, sem jamais me esquecer de volta e meia vigiar com o rabo do olho para me certificar de que não havia problema nenhum com isso. Passava um funcionário com bastante freqüência, mas ele nem se importava. Gosto desse tipo de estabelecimento, que se preocupa em deixar o cliente à vontade – à vontade o suficiente para abrir a carteira e gastar tudo o que tem depois de tanto conforto “gratuito”.
O trecho do livro que li mostrou que Beethoven teve problemas ainda aos dezesseis anos, quando fora para Vienna, para ter aulas com Mozart. Mozart era considerado fenômeno absoluto, embora Haydn tenha sido o mais famoso em toda a Europa – a volume da obra deste me parece incrível, se compararmos as nove sinfonias de Beethoven com as pelo menos oitenta deste. Na cidade provinciana onde Beethoven morava desde seu nascimento, Bonn, ele já era considerado o segundo Mozart. Mas infelizmente o menino teve que voltar pouco após arrancar elogios de seu novo mestre, como “olhe só para este menino e veja como ele toca, um dia ele vai curvar o mundo aos seus pés”. A mãe de Beethoven adoecera e logo após seu retorno foi vencida pela doença.
Beethoven agora sendo o único para cuidar de seus outros dois irmãos – eram três, mas dois meses após a morte da mãe, uma irmã de menos de dois anos morrera também. Seu pai era um alcoólatra conhecido pelo fracasso, tanto como pai como na carreira de violinista. Beethoven teve dificuldades financeiras para sustentar a si mesmo e a seus irmãos e, quando finalmente poderia retomar suas aulas com o mestre Mozart, agora esse é quem se despedira deste mundo.
O livro também traz cartas escritas por Beethoven, como por exemplo uma carta em que ele agradece um bordado feito por uma admiradora sua, uma pequena pianista de apenas dez anos de idade. Na carta ele a trata como uma pessoa bastante querida, embora nunca a tivesse visto, afirma que todos que são seus parentes agora são seus amigos também e se mostra como um homem modesto – já na fase mais madura de sua carreira, tendo composto a oitava sinfonia. Ele afirmara que, embora outros admirassem sua arte, um músico de verdade nunca estava satisfeito com o ponto em que está, sendo sempre impulsionado por aquilo que ainda não foi capaz de fazer.
Beethoven me encheu de orgulho. Queria muito o livro, mas ainda não era a hora. Tenho muitos livros ainda na lista de espera, mas este em breve encontrará o seu espaço na minha mesa de cabeceira. Coloquei o livro de volta na mesa bagunçada, passei de mãos vazias em frente à caixa e saí da loja. Plenamente satisfeito.

Saturday, January 29, 2005

Sem voz - lembranças e sonhos -

De uma hora pra outra sua vida mudou. Mudou só na cabeça dele, mas mudou. Sua percepção da realidade não é mais a mesma, uma vez que ele agora se encontra enclausurado entre barras de ferro com suas divagações. Umas possíveis e outras absurdas.
Ela abre a porta, nem olha pra ele e vai em direção à geladeira. Será que ela não o vê? Ele fica apreensivo, inquieto. Ela abre uma garrafa e enche o copo. Enquanto ela mata sua sede, ele suplica por um gole. Ao menos um. Mas não se escuta sua voz. Uma voz rouca que não sai, ficando presa dentro da garganta.
Por um momento ela para. Parece que algo chamou sua atenção. Ela olha para os lados, como quem procura. E ele acenando – pobre coitado – desejando ser solto de sua prisão. Ela passa perto, mas não para. Fica atrás dele, olhando para a parede. Uma parede com fotos, lembranças de um futuro que parece ter sido feito ontem. Ela enxuga algumas lágrimas e volta, com passos rápidos, à mesma porta pela qual entrou. E ele grita de se rasgar por seu nome, por uma chance. Uma palavra. Sua voz se desfaz no ar com a mesma velocidade que sua retina troca a imagem de sua amada a cada passo por ela dado.
Ele desiste, por hora, e senta desolado. No chão da jaula, mesmo. Não tem pra onde ir. Não tem pra quem gritar. Ela sai da cozinha e vai em direção ao quarto. Ele fecha os olhos e imagina o que ela estará a fazer.

Thursday, January 27, 2005

Abujamra san

André Abujamra – vocalista da extinta banda Karnak e atualmente iniciando sua carreira solo com um show bastante inventivo, misturando inspirações orientais, samplers e solos de guitarra, coisa cada vez mais rara na cena rock - relatou em seu mais recente show (26/01/2005), que teve participação de Lenine e Paulinho Moska, um episódio com seu filho de 10 anos.

Estavam em frente ao mar, quando o moleque disse:
- Pai, a onda do mar é como o homem.
André, assustado, tentava entender aquela aparente estranheza:
- Como é?!
E seu filho lhe explica:
- É pai, a onda do mar é que nem o homem. Nasce, cresce, morre e se transforma em lágrima.
Abujamra só teve uma reação, bastante perplexo com aquilo:
- Porra!
Repetindo, seu filho só tem 10 anos de idade.

Abujamra também é responsável, entre outras coisas, pela autoria da letra e da música em “O mundo”, faixa gravada por Paulinho Moska no CD Móbile – recentemente regravada por Pedro Luís e a Parede & Ney Matogrosso para o CD Vagabundo, tendo até mesmo um clipe na programação da MTV.
A maravilhosa trilha sonora do filme “Carandiru” também foi obra de Abujamra.

Copiando a cópia

Sou um homem invisível
Daqueles que copiam
Duplicado como o do Saramago
Sou invisível
Sem forma
Não sou nada
Não sou ninguém

Branco e negro
De olhos puxados
Bom e ruim – tem essa agora?

Uso o que me passam
Como todos – sentido ambíguo, também me alimento deles

Uso a roda, o ferro e o aço
Bebo Coca-cola – ok?
Não os fiz, mas uso tudo isso e muito
mais
mas
espere...

Preciso ser original
Criar algo do nada
Como?
Vou estudar os antigos e
- ignorando todos, claro –
Serei inovador
E minha arte não terá passado

Afinal,
sou invisível

(todas as palavras aqui presentes foram copiadas do Dicionário – um dos maiores
“best-sellers” - e de minhas experiências com seres humanos, todos reais)

Ele, o personagem – essa palavra quem inventou fui eu -, sorri e entende que realizou seu desejo. E, em to de satisfação, desanda a gargalhar – copiando outros personagens, estes malignos, de diversas histórias infantis.
“Hahaha.. hahaha.. HAHAHA!!!”

Wednesday, January 26, 2005

Posso até poder

Posso pensar nela, sem ela saber.
Posso desejá-la, sem ela querer.
Posso imaginar um futuro, sem este acontecer.
Posso me deitar e lembrar do seu rosto, no entardecer.
Posso pegar o telefone, sem seu número saber.
Posso me enganar, mesmo sem perceber.
Posso alimentar um câncer, mesmo que o amor venha me comer.
Posso não comer e, com uma pedra, me resolver.
Posso sonhar com ela, e ela então viverno meu sonho, sem parte dele ser.

Seu perfume eu não conheço, mas quero prever.
Sua expressão eu não vejo, mas na mas em meus olhos consigo ter.
Dentro dos limites – da imaginação – eu posso tudo
e por isso vou poder...

Posso até poder que desta vez
não se tornará a vez anterior

Monday, January 24, 2005

Olegário e o mamão papaya

Praia, sol, mulheres e cerveja. E mais mulheres. “Tudo de bom”, admirava Olegário. Depois de mais um ano inteiro de sopapos e tropeços, trabalhando noite e dia, e com um salário indigno de qualquer imbecil que seja, ele está de férias. E na praia, onde ele pode ir sempre e, teoricamente, ficar o quanto quiser. “Ahh...”, se prepara ele com uma grande espreguiçada, ao descer as escadas da calçada em busca de um lugar bastante “florido” em meio àquela areia toda.
O sol está ótimo, o mar não está nem pacato e nem de ressaca. Passam moças de todos os tipos e nacionalidades – o cenário é Copacabana, ok? Loiras, morenas, ruivas – opa! – saradas, magrinhas “fashion week”, popozudas.. tem pra todos os gostos.
- Uma cerveja! – pede ele ao homem que passa com o isopor. (Na verdade eu, o autor, tenho pena desses caras que ficam o dia inteiro torrando num sol de 41 graus. Como eles agüentam?)
Abre a latinha e vira metade de um gole só – bem, na verdade de um gole só é impossível, mas ele virou de uma vez e sem interrupções; de um gole só seria algo mais, digamos, “poético”.
Súbito, uma morena – nítidamente uma freqüentadora assídua de academias de musculação – surge com o seguinte pedido:
- Olá, você pode passar o protetor nas minhas costas?
Olegário mal podia acreditar. Esfregou as mãos nos olhos para ter certeza – era tudo que ele queria:
- Claro, que sim! Com todo prazer!
E lá vai o nosso rapaz se deleitando ao massagear, assim como quem não quer nada, as costas da beldade, com suas mãos exageradamente lambuzadas – as do Olegário, não as da moça - de protetor número 15.
- Hu-hu-hu...
“Quem som é esse?”, indaga Olegário. Ele olha para os lados e não vê nada que pareça ter sido responsável por tal ruído. “Estranho, mas deixa pra lá”, se satisfaz. Passar o protetor nessa morena está sendo bom demais para querer desviar os seus pensamentos.
- Hu-hu-hu... (galera, isso aqui se lê “rrú”, ou “who”)
Ele olha novamente para os lados, mas não encontra nada além das mulheres e da praia maravilhosa – ok, também tem umas crianças correndo e os marombeiros de sempre.
-Hu-hu-hu... – agora com mais força, as vozes parecem ser muitos.
Olegário começa a dar nos nervos. “Que porra é essa?!”, se desespera.
- Ei! Você colocou protetor dentro do meu ouvido – reclama a morena, agora indignada com ele, desmanchando toda a fantasia que a situação tinha momentos antes.
- HU-HU-HU...
Virando a cabeça como quem sabe que está prestes a encarar algo muito desagradável – ao poucos e com uma cara de “ah, não!” – ele se depara com o improvável.
Uma manada de mamões papaya correm na praia, com roupas ao estilo de uma das tribos canibais do filme do Indiana Jones, fazendo um enorme arrastão.
- HU-HU-HU!!!
Mulheres gritam, crianças começam a chorar e a baderna se generaliza. Ninguém sabe ao certo que fazer e muito menos como isso foi acontecer, mas o primeiro instinto coletivo vou o de fugir.
Os mamões vinham correndo munidos de cocares, lanças e escudos. Eles gritavam seu tema de guerra, munidos de lanças e escudos. Em geral, pareciam medir cerca de 1 metro e meio, e gritavam como primitivos alucinados.
Enquanto os monstrinhos corriam e todos os outros tentavam se salvar, uma parede de mamões brandindo os dentes vêm da calçada, em direção à areia.
- Meus Deus, esse troços estão nos cercando! – grita uma mulher enquanto corre, grita e chora.
Enxergando o que se mostra como sendo sua única saída, Olegário ignora todos e corre rumo ao mar. “Vou ter que nadar muito”, percebe ele puto da vida. E ele nada. Nada, nada e.. “nada” – quero dizer, não consegue sair de perto da areia. E os mamões gritantes e animalescos, com seus dentes afiados, tentam cerca-lo. Numa situação dessas, é normal de se imaginar que não terá muita saída. Então, ele mergulha fundo e tenta nada por baixo d´água para bem longe. Seu ar acaba e ele não pode subir, porque os mamões estão por toda parte, prontos para captura-lo e fazer sabe-se lá o que com ele.
Olegário, desesperado, luta contra sua falta de ar. Faz tudo que pode para retornar à superfície da água, mas... Tudo escurece. “Quem isso, um eclipse logo agora?! Ou será que eu vou desmaiar?” Ele tenta continuar nadando quando, de repente, cai no chão. “Que chão é esse?!” Bate com a cabeça, em algo que, pelo som reproduzido, parece ser feito de madeira. “Ah, não é possível...” Acreditando que está em seu quarto, e que tudo não passou de um sonho – engraçado pra nós, mas pra ele foi um pesadelo – ele vai em direção ao interruptor, disposto a acender a luz. Mas a luz não funciona. “Estranho, ontem mesmo a ministra disse que não iria mais faltar luz na cidade...” E logo uma trovoada faz um som estrondoso - Tbám! (coloquei maiúsculo porque foi uma senhora trovoada)
“Merda, deixei as janelas abertas. Vai molhar tudo!”, e corre para fecha-las. Mas susto mesmo foi o que Olegário sentiu agora, lhe dando calafrios rodopiantes, que saiam do centro de sua coluna e se espalhavam por todo o corpo. Um indivíduo não-indentificável encontrava-se prostrado bem à sua esquerda, assim que ele chegara na varanda.
- Quem é você?! – grita nosso colega.
- Não está se lembrando de mim, Olé? Aliás, que nome é esse que sua mãe te deu, viu...
- Eu não sei quem é você e quero que você sai imediatamente daqui! Não devo nada pra ninguém!
- Ah, haha! Você é quem pensa, seu ingênuo subalterno.. você nos deve muito...
Sem entender nada do que se passava, Olegário – coitado – corre desesperadamente em direção à porta de entrada – que nesse caso serve de saída.
- Volte aqui seu verme, temos contas a acertar!
Olegário, tremendo como um filhote de cabrito no Antártida, procura desesperadamente pelas chaves, que não estão na porta. Seu opositor caminha em sua direção a passas lentos e tranqüilos. Percebendo o reflexo que algo fazia em sua mesa de cabeceira, nosso herói – tss! – salta como um agente secreto e, fazendo uma acrobacia inédita em sua vida, pega as chaves e volta para a porta – não vou ficar dizendo “de saída”, “de entrada”.. é a mesma porta.
Agora, com as chaves na mão, ele tenta descobrir qual delas é a que ele precisa. Pela primeira vez ele dá valor aos conselhos de sua irmã, que achava um absurdo alguém carregar tantas chaves como ele. “Não sei pra que tanta frescura se você mora em um apartamento e tem porteiro no seu prédio”, costumava dizer Cristina. No caso, Cristina deu mais sorte, ficando com um nome de sonoridade agradável. Ela é dois anos mais nova, deu tempo para dona Maria aprender a lição.
- Nem mais um passo à frente! – diz seu ilustre invasor, destruindo uma ilusão de segurança que Olegário cultivara enquanto se lembrava de sua mãe.
“Ah, consegui!”, pensa esperançoso nosso amigo ofegante. E, ele abre a porta. Bom, é aqui que chegamos no momento em que tudo pode acontecer – o leitor talvez retruque “só aqui, né!”. Ele pode sair em busca de um lugar para se esconder mas... Ao abrir a porta, que acredita ser o seu passaporte para se ver livre de toda uma situação absurda, acontece o inesperado. Outro indivíduo – acho que vou passar a adotar a sigla INI, “Indivíduo Não-Identificado” – está do lado de fora. E com um sorriso enorme, de uma orelha à outra.
Não acreditando – mais uma vez – que tal situação pudesse piorar, Olegário se surpreende novamente; desta vez bem mais que das outras. Tbam! O rápido feixe de luz provocado por um trovão – marido da trovoada anterior – mostra o que mais poderia chocá-lo. Seus inimigos estavam vestindo ternos pretos e óculos escuros à noite – meio batido, mas até aí tudo bem, aceitável. Mas o inacreditável – prepare-se, caro leitor – é que eles são.. mamões papaya!
- Não acredito, isso não pode ser possível! – grita sem querer acreditar no que vê.
- Pode acreditar, pois nós iremos levar você conosco! – disse o mamão de terno à sua frente.
Olegário cai de joelhos nos chão e tudo começa a rodar. As risadas cinematográficas de vilões estilo Walt Disney soam aparentemente ao infinito, enquanto tomba com a cabeça e finalmente perde a consciência.
Ainda não estou muito certo se o conto vai terminar aqui...

Sunday, January 23, 2005

Frases, pensamentos... I

“Se neste universo meus sonhos não puderem se tornar concretos como o chão em que piso, então, o jeito vai ser fazer uns pequenos ajustes nele.”
- eu (Guilherme Teixeira Martins da Costa)

Wednesday, January 19, 2005

Sinfonia dos Sentidos em Si maior

Ao pensar sobre os próximos caminhos a seguir, ele para e se indaga. Seria muito cômodo receber o que sua vida lhe mostra como caminho óbvio – ao menos para os pobres de sentido – e ao mesmo tempo sofrível. Abandonar o que mais faz seus olhos se encherem de brilho e sua vida de conteúdo se mostra impossível. A música o escolheu, disso ele não pode fugir. Ela já se mostra como sendo aquele amor que tanto se busca durante a vida, mas nem sempre se encontra. Muitos costumam dizer que a resposta pode estar mais perto do que imaginamos. Embaixo do seu próprio nariz. Ele sabe – tanto quanto eu e você -, mas a escolha não é tão simples assim. Cada vez que você decide seguir um caminho, toda a sua vida se transforma, tendo essa transformação uma importância diretamente proporcional à significância da sua nova decisão. É como se o tudo fosse um jogo de dominó – bem, na verdade não o jogo, mas um punhado de peças todas ligadas uma à outra, todas de pé. Como na frase, título de um livro cujo autor não me lembro o nome, “nenhuma ilha é uma ilha”.
Visualizando seu futuro – todas as variações possíveis e inimagináveis que sua mente fértil é capaz de gerar – sente-se mais confortável com a que segue pelo coração. Dinheiro não lhe parece ter muito valor, em um primeiro momento. Mas sabe que ele, quando bem usado, adquire a forma de super-poderes. Muita coisa boa pode ser feita com o seu auxílio. E essas coisas podem influenciar a vida de muita gente.
A música.. ah, com é perfeita uma melodia bem trabalhada, bem cuidada e executada. Enche de magia uma vida que, sem ela, poderia continuar no vazio de não se saber para que se veio ao mundo. A música tem a capacidade de alimentar, de fortalecer, de animar, alegrar. Ela também, entre muitas outras qualidades, pode confortar um espírito carente ou desacreditado, consolando-o. Ela serve de companheira, amiga. Na verdade ela se encaixa maravilhosamente bem como a amante perfeita, num romance infinito e sem fronteiras, se alterando e tomando formas até então desconhecidas e desafiando os limites. Tudo aquilo que procuramos em contos fantásticos e, quando depois de crescidos, deixamos de acreditar que exista.
Ele larga sua pena e enrola o pergaminho. Já deve ser tarde, reflete. Esquenta a cera vermelha no calor da vela e com ela sela sua carta, onde abriu seu coração para sua mais querida companheira. Veste as botas e busca o paletó preso na parede. Põe o pergaminho dentro do bolso e bate a porta, indo de encontro com sua amada.

Nosso querido $, quero dizer, cliente

Ligo para o serviço de atendimento ao consumidor do Velox – que pertence a Telemar – e espero um tempo, enquanto toca uma música idiota para me “acalmar”. Uma voz diz para teclar 2, eu teclo. Outra diz para teclar 3, eu teclo. Outra vez a música idiota me conforta – antes a morte.
- Meu nome é Carla, com quem eu falo?
Eu digo o meu nome.
- Pois não, em que posso ajudar? – diz uma moça, como se tivesse a intenção de fazê-lo.
- Quero cancelar o Velox – digo eu, tentando chegar a algum lugar.
- Um momento.. – e entra a merda daquela música.
Surge um som de teclado, feito pela atendente ao mexer inutilmente no computador que está em sua frente.
- Flávia, com quem eu falo?
- Eu já disse pra outra moça – completamente sem paciência.
- O senhor poderia repetir por favor?
Eu digo o meu nome novamente.
Depois de uma hora e vinte minutos, os quais nem quero pensar em detalhar, a Telemar me diz que – além de ter problemas com os meus dados, que eles afirmam estar incorretos – não foi possível efetuar o meu pedido de cancelamento. Palmas para o progresso do homem ocidental.
Este texto poderia ter saído muito melhor, sem exageros. Mas a minha calma foi consumida, dragada de tal forma que não conseguiria relembrar cada momento sem querer culpar alguém pelo tempo que eu perdi. E ainda dizem que querem satisfazer o consumidor...

Tuesday, January 11, 2005

Um Pouco Mais de Humor

Mudando de humor quase que repentinamente eu começo a me sentir melhor, mais leve. Após uma entrevista com Jim Carrey no programa do David Letterman, estou convicto que não adianta olhar para os defeitos que podemos encontrar no que nos cerca. O bom humor, e a boa vontade também, parecem se mostrar como as chaves daquela arca perdida que todos sonhamos em um dia encontrar. Não existe perfeição e muito menos felicidade. O que existem são os momentos, bons e ruins, que, se soubermos investir de forma coerente, são capazes de nos trazer um saldo bastante positivo.
“Ah, pare com isso, quer dizer que agora você vai aceitar tudo que te acontece e ainda assim continuar sorrindo?” Hehe, não se trata disso. O assunto aqui é o bom humor. O que ele é e o que ele pode nos trazer. Desde a energia para tocarmos para frente nossos planos à consciência de que é muito bom estarmos aqui – fazendo boas piadas de nós mesmos!

Wednesday, January 05, 2005

Essa Inércia

Maldito bom humor que se mantém afastado, ao longe como quem diz “fui”. Olho para as coisas e não vejo nada, ao menos com profundidade. Me parece que nada passa de percepções fictícias se esforçando em me manter entretido, ocupado. “Não deixe que ele perceba que é tudo sem razão!” Gostaria de poder dizer que escuto vozes me dizendo pensamentos interessantes, a favor ou contra o rumo natural desta vida, mas não ouço nenhuma, seria uma mentira da minha parte. Aqui a realidade é crua, sem maquiagem, sem efeitos. Nada de explosões ou cremes rejuvenescedores. A parede é apenas um obstáculo sem graça, que se opõe ao nada, sendo capaz de ferir por meio de uma contusão. Obstáculos... Muitos dos problemas – os obstáculos – são merdas que flutuam neste vácuo insignificante, tentando encontrar o sentido para a sua própria existência – elas também!
Sei que pode ser ridículo – eu ao menos considero – mas é uma reação instintiva perder as esperanças diante de barreiras que nos dizem “você não conseguirá me transpor”. Isso contribui em peso no aumento do número de pessoas que desistem da vida e continuam apenas sobrevivendo. Não me agrada em nada a idéia, mas desistir é algo que se mostra muito pior. Isso é o que faz tempo ficar sempre parado. Envelhecemos e praticamente não saímos do lugar. É uma inércia que tenta se desmentir mostrando aquisições matérias como provas da nossa enganação, em detrimento das conquistas mais almejadas – estas não estando em vitrines ou em manuais, à venda por 9,99. A inércia é como aquele mosquito de verão, que vem e te ataca quando você está desprevenido e, por mais que tente acerta-lo, ele só vai embora quando se considera satisfeito – após ter sugado bastante de você.
Alguns momentos ainda estão para me mostrar qual a sua validade ou utilidade. Como por exemplo, esses momentos de pura desilusão – que eu já sei que vão passar. E quanto aos mosquitos.. bom, esses eu deixo para o meu chinelo – “morre desgraçado!”

Sunday, January 02, 2005

Poder - da natureza e do dinheiro

Um estouro. Parece que a coisa ta feia na Rocinha – perto daqui. Isso perturba, mas não como o caminhão que passa avoado pela rua e faz o chão tremer. O tiro – um covarde, sempre trazendo outros junto com ele – atravessa o nosso escudo de indiferença e implanta um chip em nossa cabeça, nos tornando ao mesmo tempo neuróticos e insensíveis. Uma insensibilidade capaz de nos habituar às desgraças cotidianas.
Venta aqui. Essa brisa gostosa que me tranqüiliza e disputa um espaço com o calor do verão alucina a minha razão, enquanto me recordo de outra tragédia. Já são 140 mil mortos na Ásia. Onde é que se encaixa uma enorme Tsunami – que mais parece um poderoso demônio japonês – atacando o litoral de diversos países – é a globalização, modernizando a natureza -, ainda por cima pobres, em um belo dia de sol com as praias cheias, e as lojas repletas de turistas mimados, que não sabem mais com o que gastar o seu dinheiro? È como naqueles filmes idiotas onde se percebe o medo “americano” – desistamos, eles são os donos deste grandioso continente, nos somos apenas brasileiros, filhos de continente nenhum – com relação ao equilíbrio natural dos fenômenos irrefreáveis de Gaia. Aliás, esses filmes são também uma nítida analogia ao medo que os “americanos” têm de certos povos, dos diferentes, do desconhecido em geral.
Um ponto de vista interessante, embora nada agradável, é que essas desgraças aumentam a alegria de certos poderes. Para algumas forças políticas essas mortes ajudam a manter a estabilidade dos mais ricos. Assim como enviar os rapazes que não entraram para nenhuma universidade para uma “missão de paz” no Oriente Médio. Esse pessoal só traz despesa, atrapalha a vida do cara que precisa abarrotar seus orifícios com muito dinheiro. Nada de ajudar os pobres, democracia ou Tratados de Kyoto. O importante é morrer enterrado embaixo de moedas de ouro, bem ao estilo Tio Patinhas.
O que você faz para resolver os problemas de um mundo onde, para que todos pudessem viver ao nível da classe média, seria necessário o equivalente a cinco vezes o total da produção global de alimentos? Bom, se você faz parte do poder, exorta os inúteis e torce por outra catástrofe – no fim das contas sai mais barato.