Saturday, November 21, 2009

Ludwig

De olhos fechados, ele tenta relembrar os sons que antes tinha sempre por perto e hoje se mostram mais distantes do que nunca - e isso é a maior dor que poderia ter em sua vida, talvez mais do que a falta de sorte no amor, que já encara como um fato. Isolado do resto do mundo, está sentado ao piano, imóvel. Quem o visse agora acharia que dormiu - quase um idoso, mas ainda na casa dos quarenta.

Abre os olhos, retorna ao piano e rabisca no papel sua inspiração. Notas e mais notas escritas em uma velocidade impressionante, digna de quem domina a arte. Encosta a cabeça no instrumento enquanto toca, dedilhando tríades repetidas vezes, num movimento simples, quase que minimalista. E a mão esquerda dando as notas graves de sua revolta, sua tristeza, mostrando a distância que está de seus sonhos, deixados para trás para poder encarar a realidade de forma madura.

Possui o dom que muitos sonhariam em ter - se não todos -, e a admiraçao do público, mas isso já não é o suficiente. Dizem que quem conquista seus objetivos sempre segue em frente, em busca de algo mais. Mas para aquele que vive só, a vida se mostra amarga, mesmo no sucesso. Cada dia parece ser apenas mais um na espera por encontrar alguém para poder dividir.

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Friday, April 10, 2009

Bebendo vinho sozinha no meio da noite

Ouvindo Black Keys ela escreve passando os dedos instintivamente pelo teclado de seu laptop. Está sozinha, a casa está vazia, e ela no escuro escrevendo por impulso. Uma necessidade que ela ainda não compreende. No Twitter, mensagens vazias de pessoas que ela não conhece bem, mas que lhe fazem companhia. Lá fora chove e venta bastante, e os carros a fazem pensar naquele que não vem buscá-la.

Abre uma garrafa de um vinho barato, mas que terá valor esta noite. "Pra que celebrar o nada?", se indaga em voz alta e cheia de sarcasmo.

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Monday, February 23, 2009

Menos uma pétala, menos duas, menos três...

Não quero sentir o que eu deveria escrever. If you're selling drugs, I wanna buy them all.

Wednesday, February 04, 2009

Por trás da selva


Em meio a escuridão, a luz me atrai. Não só a mim, como aos mosquitos, que não têm a chance de compreender a sorte de estarem aqui. Uma paisagem tão bela que parece um frame, um pedaço daquela cena impecávelmente fotografada do seu filme favorito.

Uma paz. Daqui não ouço o barulho dos carros, a bagunça lá de baixo. Apenas o som do vento passando e balançando as folhas, tão verdes e com tantos tons distintos, que se mesclam com a luz artificial, amarelada, formando um verdadeiro colírio.

É aqui que eu quero estar, no lugar onde jamais fui, mas sei que neste momento está lá. Me esperando para que um dia eu faça uma visita, e me recorde daquilo que registrei com meus próprios olhos.

*foto de Eduardo Rudge

No ponto

Espero.
Espero passar.

Espero outra vez, uma vez que quando passou primeiro eu ainda era o segundo, e não pude entrar.

Espero outra vez, para ver se desta vez, não deixo passar.

Mas vou entrar.
Se passar.

Espero.

Thursday, October 02, 2008

Inverno. Ao anoitecer.

"Olá!" Não respondeu. Fingiu que não viu e manteve o olhar perdido. Não acha, no entanto, que engana. Pelo contrário, sabe que a consciência do ato o afastará ainda mais. Ele pára frente a ela e olha em seus olhos, amargando a vista que já não era doce. Não pode mais nem ao menos fingir que ele não está ali. Seus olhares se mantém. Dizem um ao outro, em silêncio, coisas que já sabem mas não quiseram entender. Provavelmente entenderão depois. Depois. Só depois de deixarem escorrer as lágrimas que hoje não permitem sair. E vão sentir falta dos dias que passaram juntos, antes de permitirem que coisas banais ganhassem importância e banalizassem coisas importantes.

E vão sentir frio.

Wednesday, October 01, 2008

Wake up!

Sinto falta dele. Wake up,man! You don't wanna be that stupid! É como se ele fosse meu amigo imaginário, com a diferença de que, vindo da cabeça de outro, agora ele existe. E em alto e bom som. Listen to what I'm saying to you. You have to watch that movie again. Pode deixar, Tyler.

palavras-chave: irmão mais velho, mentor espiritual, psicótico

Depois da calmaria...

O olhar externo. Externo e de um tanto distante. Aquele que pode dizer se você pisou na bola ou não - só que esse pode se dar ao luxo de errar também, o que pode ser perigoso.

Sinto falta dele, de alguma forma. Mais relaxado do que ele costumava ser, mas sinto. Mesmo que ele tome um pouco do meu ar - a falta dele tem me tomado mais que o suportável.

Friday, March 07, 2008

Trilha para uma fuga espetacular



Falta tempo. Ele vai e eu fico. Vou, não como queria. Como uma parte de mim, enquanto a outra luta. Mas... o cansaço é humano. E o corpo precisa de... descanço. Descalço.. detonado.. deste lado.. desprovido.. esparramado... descompromissado. Sonhando sonhos sem gravidade...

Monday, September 03, 2007

A praça abandonada

Um passo e mais outro. E mais outro e outro depois deste. Os sapatos gastos pisam na calçada suja, molhada com a água da chuva de ontem que se misturou à poeira do centro da cidade, andando sem parar, como se não tivessem nada melhor para fazer. Mas têm. Só que isso, agora, não importa. É preciso seguir o caminho, seguir em frente porque quem fica para trás está perdendo.

No meio do breu, as luzes dos faróis dos carros cortam o escuro, abrindo caminho pela noite em grande estilo, nestas ruas quase sem iluminação que ninguém realmente sabe como são durante o dia, uma vez que aqui parece não haver o dia.

O cheiro de xixi dos gatos abandonados, que se multiplicam a cada ano e já dominaram a praça que fica no caminho do trabalho para casa, é terrível. Desejaria, talvez uma rinite para, quem sabe, conseguir ficar alguns dias sem ter que passar por isso. Ou será que não? Seria ruim demais perder a capacidade de sentir o odor de todas as coisas boas, nem que fosse por apenas algum tempo, para assim conseguir evitar este incômodo? Talvez, mas isso é algo que provavelmente ficará sem resposta.

Os gatos são muitos e ocupam todo o quarteirão. Eles andam à espreita, observando e se esquivando enquanto a praça não fica para trás. Ficam aos pés das árvores, dentro e fora das latas de lixo, revirando-as não apenas em busca de comida, mas também por esporte – afinal, eles são gatos e precisam fazer este tipo de coisa. Seus olhos, malvados, sem caráter, brilhando no escuro. Parecem conspirar para que algo de errado ou, quem sabe, planejam algo de muito, muito ruim. Não seria exagero acreditar que, pelo jeito como se movimentam acompanhando quem passa por perto, estariam esperando apenas esperando uma oportunidade para cercar e atacar quer chega perto.

Dizem por aí que a cada noite um passante é emboscado enquanto caminha pelo quarteirão da praça, tentando apenas chegar em casa após um longo e desgastante dia de trabalho. E é aí que os gatos vencem. Cansada e já sem cabeça para pensar muito, a vítima percorre seu trajeto sonhando apenas em deitar em sua cama e dormir, sem prestar muita atenção aos felinos que, percebendo o deslize, cercam o sujeito e partem para cima. Dizem também que eles, depois de arranhar e lamber, levam suas vítimas para um altar secreto no subsolo, no meio da quadra e de onde ninguém jamais retornou. Lá, onde ficam os gatos mais velhos, que nada fazem além de dormir e comer os alimentos trazidos pelos gatos mais novos, os que sobrevivem aos ferimentos e às noite de frio, que parecem durar dias, são obrigados a ficar, uma vez que não encontram saída – mesmo procurando por ela indefinidamente.

Mas isso não vem ao caso agora. Não é hora de gastar o tempo divagando ou pensando em coisas que ninguém sabe ao certo se são verdade ou não. É preciso manter o rumo, seguir o caminho. Não é bom ficar para trás. Ninguém gosta de ser o último, de ficar perdido. Não é mesmo? Neste momento tudo que eu quero agora é chegar logo em casa, depois de ter um dia tão desgastante.

Só que a rua está completamente deserta, sem nenhuma alma humana passeando por estas bandas. E os gatos continuam a me olhar. E eu não gosto nada disso.

Friday, July 27, 2007

Quase meia-noite

Cansaço, vontade de me jogar na cama - que ao mesmo tempo em que recarrega minhas energias, me toma outras, uma vez que tem me trazido muitas dores... físicas, mesmo. Felicidade e fragilidade ainda andam lado a lado, trocando olhares com a confiança que vem com a idade. Sim, estou ficando velho. Velho também para ficar reclamando do tempo ter passado tão rápido - o que, dependendo do caso, é até melhor.

A desilusão é constante, principalmente quando tentamos, incoscientemente e a todo tempo, eleger mestres para podermos seguir. Aqui se manifesta noavmente a necessidade do ser humano de encontrar uma segurança, um alicerce que nos livre da sensação de total abandono nesta terra (qualquer terra). Uma das poucas fés que podemos ter nas pessoas, vejo cada vez mais, é em nós mesmos (salvo algumas almas merecedoras de medalhas; mas estas são poucas e... palmas para elas!!!).

Não aos ídolos! Está na hora de organizar a cabeça e resgatar aquela pequena lição de cada um, para ver se assim o verdadeiro "ideal", que é relativo - sim, porque depende do que você busca - se materialize, ao menos na imaginação. De pouco em pouco a galinha enche o papo...

É? Enche o papo, é? Pro diabo com a galinha. Frases de merda que ajudam e ao mesmo tempo emburrecem. Tudo que eu quero é dormir e... não criar conceitos equivocados.

Tuesday, March 06, 2007

Carcomido

Levanta-se. O peso do próprio corpo já ultrapassa o suportável - tantos anos de sedentarismo não poderiam ficar em vão. Tenta alcançar a porta, sua passagem para a liberdade. Sua entrada para o novo mundo, agora que finalmente deixou para trás tudo que carregava em suas costas. Seus sonhos, seus desejos, sua sede. Ah, mas que sede! Era como se nada pudesse pará-lo. Nada era capaz de satisfazer todas as vontades que mantinham este coração vivo e forte, batendo como nenhum outro. E as dores? As dores constantes de sofrer por tudo o que procurava mas acabaria por nunca encontrar, mesmo que achasse.

A idade veio, e com ela a degradação, a fraqueza. Antes era jovem, forte, impulsivo. Agora, não passa de um velho, um defunto, um corpo apenas. Uma peça de museu. Mas, uma peça de museu que tenta alcançar a porta. Com seus dedos finos e já sem pele, com seus ossos à vista, como todo zumbi que tenta ressurgir da morte, ele insiste. E a maçaneta continua tão distante quanto antes. Pensa em desistir. Seria mesmo verdade? Estaria mesmo isto acontecendo com ele? A dor é grande e a sensação é de que, apenas saindo do recinto sombrio e empoeirado, a paz pode chegar.

E ele tenta mais uma vez, com o peso do próprio corpo ultrapassando o suportável.

Tuesday, February 20, 2007

Mais uma canção (nova versão com final alterado)

Me encarando com seu olhar penetrante, ela reclama de coisas em mim que eu não pude mudar e se mostra mais insatisfeita do que o suportável. Seus argumentos fazem sentido, mas não quero pensar em nada agora. Não hoje. Depois de tudo que aconteceu, só preciso me deitar e esperar que amanhã meus problemas já estejam todos resolvidos, como num passe de mágica.

Ela pega suas coisas - calma, me refiro as coisas dela, não às suas – e se retira. “Tenho que ir pro camarim, o show começa em poucos minutos”, diz a voz grave e macia que dia desses me fisgou, antes mesmo de nos conhecermos. Peço uma bebida e espero pela salvação – neste instante qualquer coisa poderia me salvar, já que não agüento mais estar dentro dele; mas um drink vai servir.

O pub cheio, as pessoas animadas e as luzes apagadas. Apenas o bar com seus raios coloridos alegra o ambiente, esperando pelas luzes do palco ainda vazio, para que estas, junto à solidão dele - o bar -, façam companhia um ao outro. No olhar de cada estranho um tanto diferente de tristeza, a velha busca por saciar o eterno desejo por uma quebra, um pouco de aventura para tornar a vida cotidiana mais interessante, mais atraente. Procura-se o que é atraente mesmo quando isso na verdade, na prática, não significa nada, apenas te suga e pronto. Não que você esteja sendo sugado pelo que acharia melhor mas, enfim...

Enfim sobe a banda ao palco e as luzes se acendem. Minha atração, com o jeito peculiar, lidera o grupo e me faz esquecer do mal estar que dominava, ao menos para mim, todo o mundo. Não que eu esteja sendo sugado pelo que eu acharia melhor, mas no momento eu acho. Luzes, som, fumaça, ritmo, aquela voz. Ao menos por hoje vou poder conviver com os meus problemas. Na verdade ficarei imaginando o amanhã, onde, quem sabe, quando acordarmos pela manhã, o hoje ainda não será passado, mas o amanhã já será presente e, eu e ela, tão independentes e fortes quanto assustados e carentes, nos amarraremos um ao outro um pouco mais e ostentaremos um sorriso sincero por, mais uma vez, não termos outra saída.

Saturday, January 06, 2007

Mais uma canção















Me encarando com seu olhar penetrante, ela reclama de coisas em mim que eu não pude mudar e se mostra mais insatisfeita do que o suportável. Seus argumentos fazem sentido, mas não quero pensar em nada agora. Não hoje. Depois de tudo que aconteceu, só preciso me deitar e esperar que amanhã meus problemas já estejam todos resolvidos, como num passe de mágica.

Ela pega suas coisas - calma, me refiro as coisas dela, não às suas – e se retira. “Tenho que ir pro camarim, o show começa em poucos minutos”, diz a voz grave e macia que dia desses me fisgou, antes mesmo de nos conhecermos. Peço uma bebida e espero pela salvação – neste instante qualquer coisa poderia me salvar, já que não agüento mais estar dentro dele; mas um drink vai servir.

O pub cheio, as pessoas animadas e as luzes apagadas. Apenas o bar com seus raios coloridos alegra o ambiente, esperando pelas luzes do palco ainda vazio, para que estas, junto à solidão dele - o bar -, façam companhia um ao outro. No olhar de cada estranho um tanto diferente de tristeza, a velha busca por saciar o eterno desejo por uma quebra, um pouco de aventura para tornar a vida cotidiana mais interessante, mais atraente. Procura-se o que é atraente mesmo quando isso na verdade, na prática, não significa nada, apenas te suga e pronto. Não que você esteja sendo sugado pelo que acharia melhor mas, enfim...

Enfim sobe a banda ao palco e as luzes se acendem. Minha atração, com o jeito peculiar, lidera o grupo e me faz esquecer do mal estar que dominava, ao menos para mim, todo o mundo. Não que eu esteja sendo sugado pelo que eu acharia melhor, mas no momento eu acho. Luzes, som, fumaça, ritmo, aquela voz. Ao menos por hoje vou poder conviver com os meus problemas. Quem sabe quando acordarmos pela manhã, eu e ela, tudo não tenha se tornado melhor, como num passe de mágica?

Friday, November 10, 2006

Rascunhos de Música 1

Guarde sua arma, eu já estou morto mesmo, vagando por aí atrás de uma resposta. Por que este sangue em mim é seu e eu não nos vejo adormecer. Suas flores cheiram o ódio no seu olhar e tudo ao seu redor padece. Me dê palavras... eu quero uma frase inteira que faça sentido dentro deste todo que você chama de nada! Por que a dor? Por que o ser? Por que você não mente a lágrima que eu espero ouvir? Estes dejetos.. este lugar podre! Não quero olhar, não venha tentar me mostrar! Aqui eu não volto mais; eu nunca estou. Eu nunca estive.

Monday, October 09, 2006

Mau humor

Pouco. Não me contento, e isso me deprime. Pode parecer muita exigência da minha parte, mas esse seria um olhar distante do que eu tenho agora. Sonho acordado enquanto tomo o meu café - como se isso fosse me ajudar de alguma forma -, sonhando uma imagem que se projeta a poucos metros de mim, tão nítida que eu quase poderia viver aquilo que desejo – é.. nesse momento finalmente compreendo o valor de me perder em minhas projeções involuntárias.

Com o corpo mole, me levanto da mesa rumo ao meu banho matinal, do qual não abro mão um dia que seja – sou daqueles que se perturbam muito quando surge um motivo sincero, algo urgente mesmo, que me faça sair de casa antes da chuveirada. Ah, mas como eu me sinto maravilhado ao perceber que, após todo aquele sacrifício para subir as escadas, a bomba d’água está quebrada! Terei que me contentar com a água fria, tão fria que merece ser chamada de gelada – já mencionei que sem a bomba a água vem bem fraquinha?

A água corrente me faz bem, mesmo gelada – eu adoro banho frio, embora às vezes seja incapaz de enfrenta-lo - e consegue lavar a minha mente, levando para longe todas as angústias que, aliadas a uma noite mal dormida, podem conspirar para que eu comece e termine o dia vestindo um mau humor idiota. E eu odeio mau humor. Este me parece com um ser insuportável, que bate a sua porta com o objetivo de tomar grande parte do seu tempo e você – OK, no caso aqui você sou eu – o deixa entrar porque não reuniu forças para bater a porta na cara do infeliz.

Wednesday, August 23, 2006

Rag Time - a hora do peão

Cansado e sujo, olha para o portão de casa. Depois de bastante tempo na fábrica, já era hora. Sua carona se despede. E a porcaria do poste não se acerta, sempre com essa luz fraca. Mão no bolso, chaves na mão e o portão aberto. No jardim, o cachorro não se manifesta. Provavelmente por ter feito algo que não deveria – ao menos na concepção dos que lhe dão comida.

Entrando em casa, a mulher já reclama dos sapatos sujos de terra e se revolta por ver em sua expressão que ele nem se importa com isso. Tudo que importa está mais a frente: a sala de TV. Ah... o sofá, a tranqüilidade de não ter que fazer nada – as demandas da patroa não conseguem interferir nisso -, se estirar e fazer o que quiser. De preferência, não fazer nada.
Poderia colocar um disco do Scott Joplin, que ganhou em seu aniversário anos atrás e cuja música não sai da cabeça há mais de uma hora, mas prefere o silêncio ao redor. A música fica soando como antes, apenas em sua mente.

Estendendo a mão e pega, na mesinha ao lado, um charuto. E acendê-lo proporciona aquele prazer, que só quem experimentou sabe. Não é só o fumo, mas a situação toda. Livre dentro de sua própria caverna. Livre entre das poucas horas livres antes de começar um novo dia de trabalho duro.

À medida que o cansaço se acentua, o sono bate a porta. Aos poucos, fecha os olhos e dorme no sofá. E entra num pasto imenso, todo seu. Com cavalos treinados correndo por todos os lados, dos quais ele escolhe um e, usando apenas um simples gesto que parece pequeno frente a sua habilidade, monta no mais selvagem de todos. E segue correndo pelo campo. Correndo pelas estradas. Correndo no meio mato. Correndo pelas montanhas. Insistente e sem jamais se cansar.

Thursday, August 10, 2006

Analisando.doc

“Analyse” toca no player enquanto reflito sobre coisas diversas. Reflito e escrevo, busco sites e tento me organizar para o dia de amanhã – o muitos outros depois dele também chegam dando uma palhinha na minha projeção.

A música de Thom Yorke faz bastante sentido aqui: um contexto de introspecção, entrando cada vez mais dentro de mim mesmo; enfim, uma viagem.
O suor frio evidencia meu estado atual, de quem está exausto e, por causa disso, praticamente adoentado.

Pulo parágrafos constantemente porque, assim como na música que toca – já não é mais aquela -, a mudança de clima aqui se mostra um ingrediente necessário –“alta demanda”, no jargão economês. Procuro palavras, climas, situações, idéias interessantes que possam se tornar bonitas com algumas pinceladas, mas a coisa não está fácil.

O sofrimento hoje é outro. Já não há a presença das angústias passadas, com exceção de algumas. As perguntas já parecem ter respostas parciais e isso, no momento, me traz uma sensação de tranqüilidade. O maior problema atualmente é a busca pelo avanço, a evolução de assuntos já iniciados. Um deles é este texto.

Reflito sobre as coisas que escrevia antigamente. Gosto delas até hoje, são minhas crianças! Mas não sinto mais aquela força sugando na mesma direção. Quero dizer, em parte. Na verdade, faz parte da transformação. Hum...

Saturday, July 08, 2006

Palavras de sangue e desejo

Estas mãos que te seguram agora podem vir a te machucar. Podem fazer com que tudo o que você pensa sobre mim se torne algo infeliz, vermelho e lacrimoso. Nossos medos podem vir a se concretizar, medos estes inimagináveis poucas semanas atrás. Nada disso, tudo isso e coisa alguma foi planejado, tudo fruto do movimento dos nossos corpos inconstantes em busca de um amanhã; e eles acabaram por se chocar.

Luto para não pensar no que, imagino eu, divagando, poderia me fazer embarcar em ilusões não tanto aleatórias, mas corrosivas, capazes de me destruir e a você também. Seu cheiro, tão perto e tão distante. Um desejo constante de te ter e te atravessar com meus braços e minha boca, deixando um pouco de você em mim e algo de mim em você.

O tempo não colabora, anda pra frente, pra trás, para cima e para baixo, mas nunca para onde eu quero. Eu quero hoje, agora, ontem e também amanhã. Quero você aqui e eu aí, simultaneamente.

Não escrevo palavras bonitas, elas fedem e são dolorosas – e as assino com meu sangue. Mas exprimem da forma mais sincera o que eu sinto por você. E de você eu não abro mão.

Monday, July 03, 2006

Saudades

Vagando pelas ruas sem muito motivo, apenas por não querer ficar em casa, tento encontrar algo que torne a andança especial. Parece que, com exceção de uns conhecidos passantes, a caminhada não valeu muita coisa, quando vejo que, mais uma vez, tudo parece se encaixar em algum momento.
Sentada na mesa de um bar, de costas para mim e para a rua, encontro ela. Logo ela que eu não dei valor e hoje sinto saudades. Ao entrar no bar, para fazer uma surpresa, ela vira na minha direção, como se soubesse que eu estava passando por ali. E sorri.

Wednesday, May 24, 2006

Um nome Novo

Acorda, com o zunido do despertador ecoando insuportavelmente por toda a caixa craniana. Um tapão e o despertador está fora de combate; com o inimigo estatelado no chão, a batalha parece ter sido vencida. Um engano. Não conseguindo mais voltar para aquele sonho que parecia tão bom, e pelo qual esperara inconscientemente por meses, é hora de encarar a realidade. Espreguiça os braços, as pernas, ah.. você sabe, o corpo todo.
Levanta da cama e, ainda cambaleando, busca um copo d´água na cozinha; antes de molhar as cordas vocais, não se emitem palavras sem o desprazer da dor seca. Um copo e depois outro. A vista ainda descontente com a invasão da luz do dia no apartamento, ele ruma ao corredor, seguindo para o banheiro.
Tranca a porta mas, “quem é que entraria aqui?”, reflete, uma vez que não há ninguém em casa; estão todos viajando. Seu reflexo no espelho afirma que não dorme bem há dias. Decepção. Não gosta do que vê e fica se encarando. Não gosta de quem é; já é hora de utilizar tudo que aprendeu e se transformar. Está na hora de sair da incubadora, mas com outra cara. Nada mais de brincar por aí, agora a coisa é séria. Acabou a paciência e uma urgência por resultados práticos grita à flor da pele.
Joga o nome fora, enquanto faz a barba e olha fixamente nos próprios olhos, decidindo o que seja a partir de agora. Coloca uma música agitada no som, em alto volume, se veste, pega as chaves, a carteira e sai de casa, batendo a porta com força.

Sunday, April 30, 2006

Na distância, o olhar

Seus cabelos me mostram o quanto ela está livre e eu estou preso. Livres como o vento os quer e distantes de mim, que fico aqui neste calabouço enquanto vejo pela janela os passos dela durante todo o dia. Não posso tocá-la. Por mais que estique os braços, uma barreira invisível nos separa. Esta parede que apenas eu enxergo e que me faz perder o prazer de viver. Distante, eu tento me contentar com o doce sabor de vê-la passar e só. Cada passo é admirado individualmente. Cada gesto, cada pensamento. Não sei o que ela está pensando, mas crio no meu próprio mundo toda a realidade da qual participo agora, e nela eu sei o que ela pensa – acho que já estou começando a entendê-la.
Aqui dentro chove, neva, alaga e o sol é de rachar. Como não tenho protetor, já percebo que estou criando uma nova pele, de tanta dor sofrida. Dos seus lábios sai apenas música, assim como do seu perfume, que não sinto mas consigo idealizar, assim como todo o resto. Uma sonata, triste, de um instrumento que atua em movimentos solo, melancólicos e intensos. Quisera eu que ela pudesse me ouvir tocar uma canção. Uma canção diferente de tudo, onde nós seriamos um e não houvesse mais escuridão. Seria bonito, mas mais uma vez eu me encontro aqui sonhando. Sonho acordado para depois fugir com ela em sonho. Mas não um sonho azul, eu quero um sonho vermelho. Um sonho em que o meu sangue corra com tamanha força que me rasgue o corpo, mas antes me dê forças para destruir estas paredes e me livrar destas palavras imbecis e sinceras, que não trarão o meu amor.